
Palestinos deslocados aparecem em foto no campo de refugiados de Jabalia, no norte da Faixa de Gaza, em 23 de junho de 2026. (Foto de Rizek Abdeljawad/Xinhua)
Gaza, 3 jul (Xinhua) -- Enquanto a Faixa de Gaza marca 1.000 dias desde o início do conflito entre Israel e o Hamas, em 7 de outubro de 2023, muitos palestinos dizem que sua luta diária mudou: de sobreviver aos bombardeios para enfrentar dificuldades humanitárias e econômicas prolongadas.
Embora um cessar-fogo entre Israel e o Hamas tenha entrado em vigor em outubro de 2025, as condições de vida na Faixa de Gaza apresentaram pouca melhora; a escassez de alimentos e água, o deslocamento em massa e a reconstrução paralisada continuam dominando o cotidiano.
Por toda a Cidade de Gaza, as pessoas formavam filas para o abastecimento de água, buscavam alimentos escassos nos mercados e continuavam vivendo em abrigos improvisados, em meio à estagnação dos esforços de reconstrução.
"Nos primeiros dias, temíamos os ataques aéreos", disse Emad Abu Madlala, que vive em uma barraca desde que sua casa foi destruída na guerra. "Hoje, buscamos o essencial para viver. Conseguir água limpa ou uma refeição simples exige horas de espera".
Foto tirada em 18 de junho de 2026 mostra uma menina de Beit Hanoun, no norte da Faixa de Gaza, que está deslocada e abrigada em um prédio na Cidade de Gaza. (Foto de Rizek Abdeljawad/Xinhua)
Rawya Harara, mãe de cinco filhos e residente na Cidade de Gaza, cujo marido foi morto no conflito, disse à Xinhua que garantir comida e água para seus filhos é um desafio diário avassalador.
"Todas as manhãs começam com a mesma pergunta: como vou conseguir comida e água? O sofrimento se tornou maior do que conseguimos aguentar", disse ela.
A escala da destruição permanece imensa. Segundo Ismail al-Thawabta, diretor do escritório de mídia do governo administrado pelo Hamas em Gaza, mais de 73.000 pessoas foram mortas desde o início da guerra, enquanto cerca de 9.500 continuam desaparecidas e quase 2 milhões de palestinos foram deslocados.
Dados divulgados pelo escritório de mídia do governo e pela Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina no Oriente Próximo (UNRWA, na sigla em inglês) mostram que cerca de 371.888 unidades habitacionais, ou 76,6% do estoque total de moradias de Gaza, foram danificadas, ao passo que cerca de 68 milhões de toneladas de escombros permanecem espalhadas pelo território.
O Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários informou que as áreas controladas pelos militares israelenses representam agora cerca de 53% do território de Gaza, deixando a população concentrada em menos da metade do enclave.

Palestinos buscam água em um abrigo temporário perto do porto de Gaza, na Cidade de Gaza, em 21 de junho de 2026. (Foto de Rizek Abdeljawad/Xinhua)
O impacto econômico da guerra continua sendo sentido em toda Gaza, onde a atividade comercial permanece limitada apesar do cessar-fogo, uma vez que a queda no poder de compra e o desemprego generalizado continuam reduzindo os gastos das famílias.
Mohammed Abu al-Rous, 35 anos, pai de dois filhos e que perdeu sua principal fonte de renda durante o conflito, disse que sua família se tornou cada vez mais dependente de ajuda humanitária.
"Desde o início da guerra, não consigo voltar ao trabalho regularmente", disse ele. "Hoje dependemos de ajuda, e qualquer redução na assistência dificultará ainda mais a vida".
Segundo a União Geral das Indústrias Palestinas, as perdas nos setores industrial e comercial de Gaza atingiram aproximadamente 8,8 bilhões de dólares americanos, com mais de 4.500 instalações industriais destruídas e o desemprego chegando a cerca de 85%. As autoridades agrícolas administradas pelo Hamas estimaram as perdas decorrentes de danos a terras agrícolas em cerca de 3,49 bilhões de dólares.
Paralelamente às preocupações humanitárias e econômicas, intensificaram-se as discussões sobre a futura administração de Gaza e a entrega de ajuda. Durante uma reunião recente do Conselho de Segurança da ONU, os Estados Unidos instaram os países doadores a apoiarem abordagens alternativas para a administração de Gaza, em vez de continuarem financiando a UNRWA, a principal provedora de ajuda na região.
Facções palestinas, no entanto, rejeitaram qualquer papel estrangeiro na governança de Gaza, dizendo que o futuro do território é uma questão interna palestina. O Hamas também declarou que a UNRWA continua desempenhando um papel humanitário indispensável e se opôs a tentativas de substituir a agência enquanto a situação humanitária permanecer crítica.

Palestinos carregam corpo de vítima morta em um ataque aéreo israelense, no hospital Al-Shifa, na Cidade de Gaza, em 14 de junho de 2026. (Foto de Rizek Abdeljawad/Xinhua)
Ahed Ferwana, analista político baseado em Gaza, disse que o conflito entrou em uma nova fase, na qual as prioridades vão além do fim das operações militares.
"As prioridades hoje são a reconstrução, a recuperação econômica, o restabelecimento dos serviços básicos e a criação de condições para o retorno das pessoas deslocadas", disse ele à Xinhua, alertando que uma incerteza prolongada aprofundaria a crise humanitária e exigiria esforços simultâneos nas frentes humanitária, econômica e política.
Ao relembrar os 1.000 dias de conflito, muitos moradores de Gaza dizem que suas vidas mudaram profundamente. Além da perda de entes queridos, casas e meios de subsistência, muitos dizem que a maior dificuldade agora é a ausência de qualquer perspectiva realista de melhora a curto prazo.
"Autoridades discutem modelos de governança e arranjos políticos, mas só nos importamos com uma coisa: quando poderemos ir para casa e quando poderemos ter uma vida normal", disse Madlala. "Já se passaram mil dias, e não sabemos por quanto tempo ainda teremos que esperar".





