
O primeiro-ministro da Groenlândia, Jens-Frederik Nielsen (esquerda, na neve), é visto durante manifestação contra as ações e declarações dos EUA que sugerem controle sobre a Groenlândia em Nuuk, capital da Groenlândia, um território autônomo da Dinamarca, em 17 de janeiro de 2026. (Foto de Anders Kongshaug/Xinhua)
A Europa está em um dilema. No papel, é uma parceira. Na realidade, muitas vezes é tratada como um ponto de pressão. Em questões de comércio, sanções e segurança, os governos europeus são repetidamente solicitados a se alinhar, mesmo quando seus próprios interesses estão em jogo.
Beijing, 18 jan (Xinhua) -- Henry Kissinger disse uma vez que ser amigo dos Estados Unidos pode ser mais perigoso do que ser seu inimigo. A observação foi sarcástica, mas profética.
A mais recente ameaça de Washington de impor tarifas a países europeus que resistem à sua campanha de pressão sobre a Groenlândia se encaixa nesse padrão. É coerção disfarçada de diplomacia. E, novamente, expõe a discrepância entre a retórica americana e sua conduta.
Os Estados Unidos gostam de se intitular guardiões de uma suposta “ordem internacional baseada em regras”. No entanto, quando aliados se opõem às suas exigências, as regras rapidamente cedem lugar à pressão. A soberania torna-se negociável. O respeito, condicional.
Não é uma exceção: reflete uma visão de mundo de Washington na qual o poder define a legitimidade. Nesse sistema, Washington ou impõe a conformidade ou penaliza a resistência. O consentimento é opcional. O alinhamento, obrigatório.
O episódio da Groenlândia evidencia essa lógica. A localização estratégica da ilha e sua riqueza mineral há muito atraem o interesse americano. Agora esse interesse é afirmado não por meio de parcerias, mas por meio de pressão: ameaças econômicas direcionadas não a adversários, mas a aliados.

Pessoas protestam contra planos dos EUA para a Groenlândia em Copenhague, Dinamarca, em 14 de janeiro de 2026. (Foto de Liu Zhichao/Xinhua)
A Europa está em um dilema. No papel, é uma parceira. Na realidade, muitas vezes é tratada como um ponto de pressão. Em questões de comércio, sanções e segurança, os governos europeus são repetidamente solicitados a se alinhar, mesmo quando seus próprios interesses estão em jogo.
Em vez de confrontar essa realidade, alguns governos europeus recorreram a uma narrativa familiar e conveniente. Conforme militares são enviados para a Groenlândia em meio à campanha de pressão de Washington, essas ações são apresentadas como uma resposta a supostas ameaças da China e da Rússia.
Essa interpretação distorce os fatos. O fator óbvio foi a própria pressão de Washington, aplicada por meio de ameaças econômicas e pressão política. Confundir essa distinção pode oferecer uma proteção a curto prazo, mas reduz a honestidade estratégica e enfraquece a credibilidade da UE.
Essa trajetória é insustentável. Um continente que não consegue defender seus interesses nem mesmo diante de seus aliados corre o risco de se tornar um parceiro júnior permanente.
Para Washington, sua abordagem hegemônica pode gerar vantagem a curto prazo. Com o tempo, gera desconfiança e fragmentação.
Para a Europa, a lição é clara. A autonomia estratégica não pode ser declarada com a política de apaziguamento. A verdadeira independência começa com a liberdade de dizer não e a confiança para trilhar seu próprio caminho em um mundo em transformação.

