Destaque: Uma visita a Kew sob a ótica da conservação da biodiversidade-Xinhua

Destaque: Uma visita a Kew sob a ótica da conservação da biodiversidade

2026-11-02 10:13:40丨portuguese.xinhuanet.com

Visitantes na Casa das Palmeiras em Kew, em Londres, no Reino Unido, em 17 de outubro de 2026. (Xinhua/Zhang Feng)

Por Zhang Feng e Larry Neild

Londres, 30 out (Xinhua) -- Dentro do Conservatório da Princesa de Gales, nos Jardins Botânicos Reais, conhecidos como Kew, um azulejo azul-escuro chamou a atenção dos visitantes.

Em 1985, o naturalista britânico David Attenborough enterrou sob ele uma cápsula do tempo contendo sementes de espécies vegetais ameaçadas de extinção.

Segundo o plano, a cápsula deveria ser aberta em 2085. Até lá, temem os cientistas, algumas das plantas cujas sementes foram depositadas em seu interior podem ter desaparecido da natureza.

A urgência da proteção da biodiversidade foi destacada na 17ª reunião da Conferência das Partes da Convenção sobre Diversidade Biológica (COP17), realizada em Yerevan, capital da Armênia.

Como a biodiversidade pode ser preservada e a relação da humanidade com a natureza, restaurada? E como o mundo pode alcançar a meta de deter e reverter a perda de biodiversidade até 2030, vivendo em harmonia com a natureza até 2050?

Visitas recentes a Kew deram algumas pistas.

"UMA FLORESTA TROPICAL VIVA EM LONDRES"

Originalmente os jardins particulares do rei Jorge II, Kew iniciou suas coleções botânicas em 1759. Hoje, Kew abriga cerca de 17.000 espécies de plantas e, em 2003, foi incluído na lista de Patrimônio Mundial da UNESCO.

Com a chegada do outono e a queda das temperaturas, as plantas que ficavam do lado de fora da Casa das Palmeiras em Kew foram removidas, dando lugar a espécies mais adaptadas ao clima frio.

No entanto, ao entrar no local, os visitantes são recebidos por um ambiente aquecido e uma vegetação exuberante. Apelidada de "floresta tropical viva em Londres", a Casa das Palmeiras foi inaugurada em 1848 e abrigava mais de 1.000 espécies de plantas tropicais e subtropicais, incluindo a cicadácea gigante do Cabo Oriental, da África do Sul, e o pandanus australiano, cujas raízes aéreas atingiam a altura de uma pessoa.

Leaf, um funcionário, explicou que, para preservar as plantas tropicais de várias partes do mundo, a Casa das Palmeiras mantinha temperaturas consistentemente elevadas e níveis de umidade em torno de 80%.

No entanto, a própria estrutura histórica enfrentava desafios consideráveis. Era possível notar ferrugem na armação do edifício, com grandes áreas do revestimento superficial descascando.

Apesar de dois grandes projetos de restauração realizados no século 20, a estufa da era vitoriana continuou sofrendo com a deterioração estrutural, o que representava grandes desafios para a preservação de suas coleções de plantas.

Leaf informou que a Casa das Palmeiras tem fechamento previsto para o próximo ano, a fim de passar por uma reforma, um projeto que deve durar de três a cinco anos.

CONSERVAÇÃO ALÉM DAS FRONTEIRAS

Em 2021, Kew recebeu o reconhecimento do Livro Guinness dos Recordes pela "maior coleção de plantas vivas em um único jardim botânico".

Alexandre Antonelli, diretor-executivo de ciência de Kew, disse que a proteção da biodiversidade exige esforços que transcendam fronteiras. "Kew possui um longo histórico de cooperação com a China", disse Antonelli em entrevista exclusiva à Xinhua.

Ele destacou que Kew mantém uma cooperação de longa data com a Academia Chinesa de Ciências, ampliando a colaboração em áreas como a formação conjunta de pós-graduação e o intercâmbio de resultados de pesquisas científicas.

"Kew apoia os amplos objetivos da China de promover uma civilização ecológica, na qual humanos e natureza prosperam juntos", disse Antonelli.

Na Estufa de Clima Temperado em Kew, a luz solar entrava através de um enorme teto de vidro, iluminando as elegantes curvas arquitetônicas e as plantas imponentes provenientes de regiões temperadas de todo o mundo.

Entre elas, destacava-se uma planta de kiwi. Uma placa informativa próxima revelava uma história pouco conhecida sobre a trajetória global dessa planta: ao contrário do que muitos pensam, o kiwi não é originário da Nova Zelândia, mas sim da China, onde é cultivado há séculos.

No início do século 20, Mary Fraser, uma professora neozelandesa, trouxe sementes de kiwi para seu país após uma visita à província de Hubei, na China.

Nathan, um estudante de intercâmbio da Nova Zelândia, ficou muito entusiasmado com a descoberta. Ele contou que o kiwi era algo comum em sua terra natal, onde os produtores costumavam construir cercas para servir de suporte às trepadeiras. O termo "kiwi", que dá nome à fruta, tornou-se, inclusive, um apelido popular para os neozelandeses.

Ao saber que a planta estava sendo protegida em conjunto pela China e pela Nova Zelândia, ele exclamou: "Que legal!".

ENVOLVENDO O PÚBLICO NA CONSERVAÇÃO

Antonelli disse que a preservação da diversidade biológica exige não apenas "pesquisa científica de ponta", mas também "educação pública por meio de exposições, atividades interpretativas, eventos e programas escolares".

Para muitas pessoas, o desejo de proteger a biodiversidade nasce de um sentimento de admiração diante da beleza e das características impressionantes das plantas.

No Conservatório da Princesa de Gales em Kew, multidões se reúnem ao redor de um lago com vitórias-régias gigantes, disputando espaço para fotografar essas plantas notáveis.

Em 2023, Kew participou da primeira edição da Competição de Pesagem de Vitórias-régias Gigantes e conquistou o primeiro lugar, com uma capacidade de sustentação de 43,5 kg, levando os visitantes a repensar do que essas plantas aquáticas, aparentemente tão delicadas, eram capazes.

Não muito longe do lago, visitantes curiosos se aproximaram de um grupo de plantas carnívoras do gênero Drosera. Suas folhas esguias estavam cobertas por inúmeros pelos minúsculos. Nas pontas desses pelos, gotículas de líquido brilhavam sob a luz do sol, assemelhando-se ao orvalho matinal.

Contudo, as gotículas cintilantes escondiam um mecanismo de caça impressionante. Assim que um inseto pousava na folha, o mecanismo de captura da planta era acionado. Gotículas pegajosas prendiam a presa, enquanto a folha se enrolava gradualmente ao seu redor, trazendo o infeliz inseto para dentro do alcance da planta.

Além disso, o festival anual de orquídeas de Kew servia como mais um importante elo entre a ciência e o público. A 30ª edição do festival, realizada este ano, escolheu a China como tema pela primeira vez. A área de exposição apresentava um dragão gigante feito de material vegetal, lembrando os dragões de madeira coloridos que adornam o Grande Pagode de estilo chinês em Kew.

O diretor de Kew, Richard Deverell, disse que o Festival de Orquídeas não era apenas uma oportunidade para admirar belas flores, mas também uma plataforma para conscientizar o público sobre a importância da conservação das plantas.

A China foi escolhida como tema deste ano "por ser um dos países com maior biodiversidade no mundo", explicou ele.

UMA APÓLICE DE SEGURO PARA PLANTAS

Em um relatório publicado por Kew em 2020, estimou-se que cerca de dois quintos das espécies de plantas do mundo corriam risco de extinção.

Para ajudar a proteger a diversidade vegetal, Kew criou, por volta do ano 2000, o Banco de Sementes do Milênio. Localizada em West Sussex, a instituição armazenava, até 1º de julho deste ano, mais de 2,4 bilhões de sementes, representando mais de 40 mil espécies.

Simon, um voluntário que trabalha no local, descreveu o banco de sementes como uma "apólice de seguro" para as plantas. Com a diversidade vegetal global enfrentando ameaças crescentes, ele explicou que a preservação de sementes oferece uma garantia vital para a restauração de espécies no futuro.

Em 2020, após meses de calor extremo e seca, incêndios florestais devastadores varreram a Austrália, consumindo mais de 10 milhões de hectares de terra. Entre as plantas severamente afetadas estava a Glycine latrobeana, uma espécie de leguminosa considerada vulnerável em nível nacional e endêmica do sudeste da Austrália.

Felizmente, mais de 1.000 sementes coletadas em 2007 foram armazenadas em segurança no Banco de Sementes do Milênio. Cerca de 250 delas foram rapidamente enviadas para a Austrália para fins de propagação e restauração ecológica.

O conceito de "apólice de seguro" foi adotado pelo Banco de Germoplasma de Espécies Selvagens, localizado na província de Yunnan, no sudoeste da China. A instituição conserva uma ampla variedade de plantas silvestres raras e ameaçadas de extinção, culturas agrícolas importantes e espécies recém-descobertas.

Juntamente com o Banco de Sementes do Milênio, no Reino Unido, e o Cofre Global de Sementes de Svalbard, na Noruega, a instituição integra uma rede internacional que está na vanguarda da conservação da biodiversidade global.

Em maio deste ano, Attenborough, que depositou a cápsula do tempo em 1985, celebrou seu centenário. Ao longo das décadas, ele narrou documentários sobre a natureza aclamados, como O Planeta Azul e Planeta Terra.

No documentário Reino das Plantas, produzido por Kew, ele compartilhou uma reflexão profunda: "As plantas não apenas conferem ao mundo grande parte de sua beleza; elas são, de fato, a própria base de toda a vida na Terra".

Para a humanidade como um todo, garantir que a vida no mundo natural continue florescendo em toda a sua diversidade é um desafio que devemos enfrentar permanentemente.

Foto tirada em 11 de setembro de 2026 mostra o Grande Pagode, uma estrutura em estilo chinês nos jardins em Kew, em Londres, no Reino Unido. (Xinhua/Zhang Feng)

Foto tirada em 17 de outubro de 2026 mostra a Estufa de Clima Temperado em Kew, em Londres, no Reino Unido. (Xinhua/Zhang Feng)

Pessoas se reúnem ao redor de um lago com vitórias-régias no Conservatório da Princesa de Gales em Kew, em Londres, no Reino Unido, em 17 de outubro de 2026. (Xinhua/Zhang Feng)

Foto tirada em 19 de outubro de 2026 mostra o Banco de Sementes do Milênio em Kew, em West Sussex, no Reino Unido. (Xinhua/Zhang Feng)

Foto tirada em 17 de outubro de 2026 mostra o Conservatório da Princesa de Gales em Kew, em Londres, no Reino Unido. (Xinhua/Zhang Feng)

Foto tirada em 17 de outubro de 2026 mostra a Casa das Palmeiras em Kew, em Londres, no Reino Unido. (Xinhua/Zhang Feng)

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