Europeus vão às ruas devido ao custo de vida e tensões na governança-Xinhua

Europeus vão às ruas devido ao custo de vida e tensões na governança

2026-10-29 08:44:52丨portuguese.xinhuanet.com

* Protestos em vários países europeus intensificaram a pressão sobre governos que já enfrentam restrições fiscais e divisões políticas.

* A frustração atual se acumulou ao longo de anos, com aumentos de preços sucessivos somados a uma nova pressão inflacionária.

* O calendário de ações planejadas sugere que a mobilização continuará ao longo de novembro, com foco em disputas sobre orçamentos, salários e serviços públicos.

Manifestantes em Lille, na França, em 24 de outubro de 2026. (Foto de Sebastien Courdji/Xinhua)

Bruxelas, 27 out (Xinhua) -- Ondas de manifestações, por vezes violentas, em diversos países europeus revelaram um descontentamento crescente e uma indignação acumulada em relação à precariedade da habitação, à má qualidade da educação e ao aumento do custo de vida.

Os protestos mais recentes, ocorridos durante o fim de semana, intensificaram a pressão sobre governos que já lidam com restrições fiscais e divisões políticas. Novas manifestações e greves de abrangência nacional estão previstas para novembro.

UM OUTONO DE DESCONTENTAMENTO

A França registrou, no sábado, mais uma grande mobilização: o Ministério do Interior contabilizou 410 mil manifestantes em todo o país, enquanto o sindicato CGT estimou o número em 800 mil. Embora a maior parte tenha marchado pacificamente, confrontos ocorreram em várias cidades. O ministro do Interior, Laurent Nunez, disse na segunda-feira que 1.435 pessoas foram detidas.

Cerca de 50 estabelecimentos comerciais sofreram danos, e a atividade no varejo caiu aproximadamente 80%, segundo declarou na segunda-feira Alain Di Crescenzo, presidente da Câmara de Comércio e Indústria da França. Muitas lojas permaneceram fechadas por precaução, na sequência de episódios de violência ocorridos em 17 de outubro.

"A cada fim de semana, perde-se cerca de 2% do faturamento anual", disse Crescenzo.

Os protestos evidenciaram a queda do poder aquisitivo e a deterioração dos serviços públicos, em um contexto que já havia levado estudantes do ensino médio a realizar manifestações em meados de setembro contra a falta de professores, a superlotação das salas de aula e a precariedade das instalações escolares.

Na Itália, manifestações contra o aumento do custo de vida e dos gastos militares ocorreram em várias cidades. Foram registrados confrontos em Roma, em Bolonha e em Turim, com a polícia utilizando gás lacrimogêneo e jatos d'água durante os embates.

A primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, condenou a violência, dizendo que as autoridades devem proteger os manifestantes pacíficos e as pessoas que trabalham e vivem nas cidades afetadas.

O caos gerou uma pressão adicional sobre as empresas. A associação empresarial italiana Unimpresa estimou as possíveis perdas econômicas em 14,13 milhões de euros (cerca de 15,8 milhões de dólares americanos), decorrentes de fechamentos preventivos e medidas de proteção adotadas em 11 cidades.

Policiais fazem a guarda perto do Circo Máximo durante uma marcha contra a guerra em Roma, na Itália, em 24 de outubro de 2026. (Xinhua/Wang Kaiyan)

A questão da habitação continua sendo uma das principais reivindicações na Espanha e em Portugal, onde manifestantes ocuparam praças públicas para exigir moradias mais acessíveis e uma maior proteção aos locatários.

No sábado, milhares de pessoas voltaram a protestar em Lisboa e no Porto, com manifestações menores ocorrendo em Coimbra e em outras cidades portuguesas.

Em Madri, a questão mobilizou pessoas que, apesar de qualificadas e empregadas, não conseguem pagar por uma moradia própria.

Claudia, que trabalha no setor de produção de documentários, tem dois diplomas universitários, mas ainda mora com os pais. Ao ser questionada se teria condições de alugar um imóvel para si, ela declarou à Xinhua: "É simplesmente impossível".

"A habitação é um problema muito grave, e sou diretamente afetada por ele", disse Paula, uma advogada em início de carreira, ao explicar por que decidiu participar dos protestos.

PRESSÕES QUE SE ALIMENTAM MUTUAMENTE

A frustração atual vem se acumulando há anos, alimentada por aumentos sucessivos de preços e por uma nova pressão inflacionária.

Segundo o Eurostat, a inflação anual na zona do euro subiu para 3,8% em setembro, ante 3,2% em agosto. Os preços da energia registraram uma alta de 18,9% em relação ao ano anterior, agravando a pressão sobre o orçamento das famílias.

Os choques de preços agravaram as dificuldades que muitas pessoas já enfrentavam. Uma análise publicada no blog do Banco Central Europeu revelou que, na zona do euro, os preços dos alimentos permanecem cerca de 30% acima dos níveis registrados no final de 2021. Embora os salários tenham se recuperado em relação aos preços gerais ao consumidor, seu poder de compra no que diz respeito aos alimentos permaneceu abaixo do nível registrado antes da disparada dos preços.

"Os protestos não eclodem, necessariamente, no auge de um choque inflacionário, mas sim posteriormente, quando as famílias percebem que a melhora nas condições macroeconômicas não vem acompanhada de uma queda efetiva nos preços", disse à agência Xinhua Pablo Sanz, professor da Universidade Nacional de Educação a Distância, na Espanha.

He Zhigao, professor associado do Instituto de Estudos Europeus da Academia Chinesa de Ciências Sociais, observou que as dificuldades econômicas estão ampliando as divisões entre gerações e regiões, intensificando, entre os jovens, o sentimento de privação e abandono.

Os governos enfrentam demandas crescentes para lidar com essas divisões, ao mesmo tempo em que sua capacidade de gasto é limitada, disse ele, ressaltando que o crescimento fraco e os déficits fiscais tornam ainda mais difícil sustentar os compromissos de bem-estar social.

Ele disse que a insatisfação econômica e social tem alimentado a polarização e colocado à prova a capacidade dos partidos tradicionais de governar.

Lenaik Dumont, presidente da federação de estudantes francófonos (FEF) da Bélgica, disse que a organização continuou se reunindo com autoridades políticas, mas não recebeu respostas suficientes às suas reivindicações sobre os custos da educação e as condições de estudo.

"Há uma diferença entre ser recebido e ser ouvido", disse Dumont à Xinhua. "O diálogo só faz sentido se permitir que as decisões sejam alteradas".

Pessoas participam de uma manifestação na Praça D. Pedro IV, em Lisboa, em Portugal, em 20 de outubro de 2026. (Foto de Carlos Costa/Xinhua)

"LONGO INVERNO" PELA FRENTE

O calendário de ações planejadas sugere que a mobilização continuará ao longo de novembro, com foco em disputas sobre orçamentos, salários e serviços públicos.

Na França, os organizadores do movimento dos Coletes Amarelos convocaram novas manifestações para 31 de outubro, seguidas por greves em nível nacional, organizadas pela CGT em conjunto com outros sindicatos, no dia 5 de novembro. Os sindicatos contestam as escolhas orçamentárias propostas pelo governo para 2027 e exigem salários mais altos e serviços públicos mais robustos.

Na Espanha, os dois principais sindicatos, CCOO e UGT, preparam uma greve nacional para 11 de novembro, abordando questões como habitação, precariedade no emprego e a queda no poder de compra. Na Itália, a maior confederação sindical, a CGIL, anunciou uma greve geral para 20 de novembro, tratando de temas como empregos, salários, pensões, saúde pública e direitos sociais.

Na Bélgica, a FEF planeja uma mobilização na área da educação para 17 de novembro. Grandes sindicatos também convocaram uma manifestação em Bruxelas para 23 de novembro, enquanto a Federação Geral do Trabalho da Bélgica (FGTB) ameaçou realizar uma greve geral naquela semana, caso as decisões orçamentárias do governo ultrapassem os "limites inegociáveis" estabelecidos pela entidade.

Os governos estão reagindo. Após uma reunião na segunda-feira entre o ministro francês Sébastien Lecornu e representantes estudantis, o governo francês anunciou medidas que incluem substituir a plataforma de admissão universitária Parcoursup até o início do ano letivo de 2028, criar 15 mil vagas adicionais no ensino superior e financiar melhorias nas instalações escolares e universitárias.

Em Portugal, uma proposta de reforma no setor de locação visa incentivar a oferta de moradias, mas grupos de inquilinos temem que as medidas aumentem a insegurança habitacional.

Sanz, professor da Universidade Nacional de Educação a Distância (UNED), na Espanha, alertou que a simples substituição do governo não resolveria problemas persistentes, como a escassez de moradias, a baixa produtividade e as pressões fiscais decorrentes do envelhecimento populacional.

Segundo ele, soluções duradouras exigem um consenso que ultrapasse um único mandato eleitoral.

Gregoire Roos, do instituto Chatham House, disse que a violência na França tem oferecido a forças políticas rivais novas oportunidades para mobilizar o descontentamento contra um centro político enfraquecido. Ele ressaltou que o agravamento da fragmentação política na França e na Alemanha comprometeria a resiliência da Europa.

Em um comentário publicado na sexta-feira, Michael Froman, presidente do Conselho de Relações Exteriores dos EUA, instou a Europa a enfrentar os problemas estruturais subjacentes.

"Para seu próprio bem e também para o nosso, a Europa precisa enfrentar as fragilidades estruturais que alimentam tanto os protestos quanto as dependências geopolíticas", escreveu Froman. "Enquanto a Europa não colocar a casa em ordem, todos nós enfrentaremos um longo inverno ".

(Repórteres de vídeo: Deng Chimin, Huang Xiaodi, Sun Xinjing, Cheng Chao, Yang Yating, Ren Yaoting, Leonardo Lombroso e Michele Novaga; edição de vídeo: Liu Xiaorui, Wei Yin, Yu Jiaming, Zhang Yueyuan, Zhang Yucheng e Li Qin)

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