Empresa japonesa é alvo de críticas devido a incêndio florestal na Mongólia e aos danos ecológicos-Xinhua

Empresa japonesa é alvo de críticas devido a incêndio florestal na Mongólia e aos danos ecológicos

2026-10-29 08:46:00丨portuguese.xinhuanet.com

Foto aérea tirada por drone em 11 de outubro de 2026 mostra bombeiros combatendo um incêndio em uma área de pastagem na região de fronteira, na Região Autônoma da Mongólia Interior, no norte da China. (Xinhua)

Ulan Bator, 27 out (Xinhua) -- Uma subsidiária de uma empresa japonesa de telecomunicações é alvo de críticas e enfrenta possíveis consequências legais após atividades de seus executivos serem associadas a um incêndio de grandes proporções na Mongólia, próximo à fronteira com a China. O fogo consumiu uma área mais de duas vezes maior que a de Tóquio.

O incêndio começou no dia 8 de outubro na Área de Proteção Estrita de Numrug, um dos ecossistemas naturais mais bem preservados do leste da Mongólia e habitat de uma grande variedade de vida selvagem, incluindo espécies raras e ameaçadas de extinção. Segundo a mídia mongol, o fogo foi extinto no dia 16 de outubro.

O incêndio florestal durou mais de oito dias, espalhando-se por aproximadamente 530 mil hectares e destruindo cerca de 80% da reserva natural protegida, informou o Ministério do Meio Ambiente e Mudanças Climáticas do país.

Alguns animais selvagens, incluindo espécies raras e ameaçadas, fugiram através da fronteira em direção à China. Mais de 2 mil pessoas foram mobilizadas na Região Autônoma da Mongólia Interior, no norte da China, para conter o incêndio que avançava a partir da Mongólia. Enquanto trabalhavam para controlar as chamas, os bombeiros chineses deixaram uma passagem aberta para que os animais pudessem escapar.

Bombeiros patrulham a área de fronteira com equipamentos de combate a incêndios, na Região Autônoma da Mongólia Interior, no norte da China. (Xinhua)

INDIGNAÇÃO E PERGUNTAS SEM RESPOSTA

A operadora japonesa de telecomunicações KDDI só admitiu, no dia 20 de outubro, quase duas semanas após o início do incêndio, que o desastre estava relacionado às atividades de sua subsidiária, a Mobicom.

Segundo a mídia mongol, um comboio da Mobicom, formado por cinco veículos e liderado por executivos japoneses de alto escalão, entrou em uma área restrita com 13 pessoas a bordo. A vegetação seca sob um dos veículos pegou fogo, e ventos fortes espalharam rapidamente as chamas pela pastagem.

A Mobicom alegou que a viagem se tratava de um levantamento oficial para a construção de infraestrutura de telecomunicações, descrevendo o incêndio como um acidente operacional.

No entanto, autoridades do governo mongol e a mídia local questionaram veementemente essa explicação, ressaltando que o projeto de fibra óptica em questão carecia de justificativa técnica e econômica.

Relatos da mídia local sugerem que o comboio pode ter entrado na área para a prática de caça e pesca ilegais, envolvendo espécies criticamente ameaçadas de extinção. Essas atividades são proibidas pela legislação penal mongol em áreas especialmente protegidas, onde causar um incêndio em florestas ou estepes também pode acarretar sanções criminais.

Embora a empresa tenha pedido desculpas pelo incêndio, não abordou diretamente as acusações.

O incidente provocou grande indignação pública na Mongólia, com questionamentos sobre se o comboio teria obtido as autorizações necessárias para ingressar na reserva, uma área ecologicamente sensível, durante o período de alto risco de incêndios.

Diante da crescente revolta popular, agravada pela demora do lado japonês em pedir desculpas e pela ausência de um plano de reparação ou compensação pelos danos causados​, o vice-primeiro-ministro da Mongólia, Nyamtaishiryn Nomtoibayar, disse: “Áreas sob proteção rigorosa não são locais onde qualquer um pode simplesmente entrar à vontade... Esse ‘pedido de desculpas’ vazio da Mobicom não significa nada para mim”.

Temuulen Ganzorig, ministro da Justiça e Assuntos Internos da Mongólia, disse que os envolvidos, juntamente com funcionários das administrações dos postos fronteiriços pertinentes, seriam responsabilizados e obrigados a compensar os prejuízos.

O incidente “não é apenas uma questão privada de uma única empresa”, disse Kazuya Shimba, secretário-geral do Partido Democrático pelo Povo, do Japão, em uma coletiva de imprensa, ressaltando que “o Japão, como nação, deve levar o caso a sério”.

“Ninguém deve escapar da responsabilidade pelos danos causados. A investigação precisa determinar quem autorizou a entrada na área protegida, com qual finalidade, quem era o responsável por garantir a segurança contra incêndios e quais medidas foram adotadas após o início do fogo”, declarou o primeiro-ministro da Mongólia, Nyam-Osor Uchral.

“Quaisquer questões relacionadas às operações da Mobicom também devem ser investigadas em conformidade com a lei e com base em evidências”, enfatizou ele.

DANOS ECOLÓGICOS

Para além dos danos imediatos, as consequências ecológicas do incêndio a longo prazo podem ser muito mais difíceis de avaliar.

Um grupo de trabalho do governo da Mongólia está avaliando os danos à Área de Proteção Estrita de Numrug. O Ministério do Meio Ambiente do país informou que a avaliação deve examinar os impactos do incêndio no solo, na água, no ar, na vegetação, na vida selvagem e nas funções do ecossistema, bem como suas consequências ecológicas a longo prazo.

As pastagens no leste da Mongólia formam uma barreira ecológica vital no nordeste da Ásia, disse à imprensa Liu Zhiyan, pesquisador sênior do Instituto de Pesquisa para a Ecocivilização da Academia Chinesa de Ciências Sociais.

O incêndio pode ter afetado não apenas áreas de pastagem, mas também margens de rios, áreas úmidas e outros ecossistemas, disse Wang Qinxue, pesquisador do Instituto Nacional de Estudos Ambientais do Japão, que há muito estuda o ambiente ecológico da região.

Mesmo que a vegetação volte a crescer no ano seguinte, a composição das espécies vegetais e as condições do solo podem não se recuperar no mesmo ritmo, disse Wang, ressaltando que são necessárias avaliações adicionais para determinar se a vida selvagem consegue sobreviver ao inverno em segurança e se cinzas, sedimentos ou fumaça provenientes do incêndio ultrapassaram as fronteiras nacionais.

O incêndio florestal também liberou fumaça e material particulado que poderiam ser transportados para além das fronteiras por correntes de ar, observou Liu.

Os possíveis efeitos ecológicos transfronteiriços do incêndio justificam uma investigação mais aprofundada, incluindo a possibilidade de cinzas e sedimentos chegarem a rios e áreas úmidas por meio do escoamento superficial, bem como a apuração de se a fumaça atravessou as fronteiras nacionais, acrescentou Wang.

Citando pesquisas realizadas na província de Dornod, na Mongólia, Wang explicou que incêndios ocorridos entre o outono e a primavera seguinte estão associados à frequência de tempestades de poeira durante a primavera. A redução da cobertura vegetal torna o solo mais vulnerável à erosão eólica, facilitando o transporte de materiais da superfície pelo vento, disse ele.

Uma cooperação internacional contínua, abrangendo alertas de incêndio, resposta a emergências e restauração ecológica, é fundamental para conter desastres transfronteiriços e mitigar riscos ambientais, disse Liu.

Kazuo Yawata, ex-alto funcionário do Ministério do Comércio Internacional e Indústria do Japão e autor de obras sobre história, reiterou que a Mobicom deveria apresentar um pedido de desculpas sincero pelo desastre, enfatizando que o incêndio causou “um impacto significativo no ecossistema local”.

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