Queda do desmatamento no Brasil gera US$ 232 bilhões para economia global-Xinhua

Queda do desmatamento no Brasil gera US$ 232 bilhões para economia global

2026-10-21 13:43:15丨portuguese.xinhuanet.com

Rio de Janeiro, 20 out (Xinhua) -- A redução do desmatamento na Amazônia brasileira e no Cerrado a partir de 2023 pode ter gerado benefícios econômicos de 1,16 trilhão de reais (US$ 232 bilhões) para a economia global, ao evitar emissões de gases de efeito estufa e prejuízos associados às mudanças climáticas, conforme um estudo da Fundação Getúlio Vargas (FGV) divulgado nesta terça-feira pela Agência Brasil.

Desse montante estimado, entre 67 bilhões e 192 bilhões de reais (US$ 13,4 bilhões a US$ 38,4 bilhões) referem-se a danos climáticos evitados para a própria economia brasileira, segundo a análise do economista Bráulio Borges, do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da FGV.

O estudo compara as áreas desmatadas no período de 2019 a 2022 com os registros de 2023 a 2026. Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) apontam que, entre agosto de 2025 e julho de 2026, o desmatamento recuou 41,8% na Amazônia e 23,8% no Cerrado. A área desmatada na Amazônia ficou em 3.335 quilômetros quadrados, o menor patamar desde 1998, enquanto no Cerrado registrou 5.516,69 quilômetros quadrados, o nível mais baixo desde 2001.

No total, a área desmatada nos dois biomas caiu de 78,9 mil quilômetros quadrados no período entre 2019 e 2022 para 56,7 mil quilômetros quadrados entre 2023 e 2026. Isso representa cerca de 22,3 mil quilômetros quadrados de área que não foram desmatados, um território um pouco maior que o estado de Sergipe.

A análise estima que a queda no desmatamento evitou a emissão de 1,49 bilhão de toneladas de gases de efeito estufa ao longo do período analisado. Para calcular os ganhos econômicos, Borges recorreu ao custo social do carbono, indicador que permite mensurar monetariamente os prejuízos decorrentes das emissões.

No cenário central, o estudo considera um custo social de US$ 145 por tonelada de dióxido de carbono equivalente. O cálculo dos prejuízos climáticos evitados chega, portanto, a 1,16 trilhão de reais (US$ 232 bilhões). A estimativa mais conservadora aponta um benefício de 621 bilhões de reais (US$ 124,2 bilhões), enquanto o cenário mais otimista eleva esse valor para 9,8 trilhões de reais (US$ 1,96 trilhão).

"Em ambos os casos, trata-se de um benefício que se materializa majoritariamente sob a forma de danos evitados, menos perdas de safras, menor estresse térmico sobre a produtividade do trabalho, menos eventos extremos, entre outros", explicou Borges.

O economista ressaltou que os cálculos não incluem os efeitos regionais diretos do desmatamento na Amazônia sobre as chuvas, as temperaturas e a disponibilidade de água no Brasil. A umidade transportada pelos chamados "rios voadores", correntes atmosféricas alimentadas pela evapotranspiração da floresta, contribui para as precipitações nas regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul do país.

"Valorando essa água pelo preço da água utilizada para irrigação na agricultura, os autores estimam que a chuva gerada pela Amazônia brasileira vale cerca de US$ 20 bilhões por ano, ou aproximadamente US$ 60 por hectare de floresta ao ano", conclui Borges.

O pesquisador destacou ainda que a conservação florestal pode ser compatível com o crescimento agropecuário, uma vez que a agricultura brasileira depende, em grande medida, das chuvas originadas pelos ecossistemas florestais.

"A redução dos desmatamentos não é incompatível com a expansão da produção agropecuária, até porque, o próprio agronegócio é um dos principais beneficiários da chuva gerada pela floresta", observou.

Borges avaliou que os ganhos econômicos advindos da manutenção das florestas em pé superam, de longe, a compensação financeira que o Brasil recebe de organismos internacionais e de outros países. Dentre os mecanismos existentes, ele citou o Fundo Amazônia, os mercados de créditos de carbono e o Fundo Florestas Tropicais para Sempre, lançado pelo Brasil durante a COP30, realizada em Belém em 2025.

O economista defendeu a incorporação explícita do custo social do carbono nas análises de custo-benefício das políticas públicas, entre elas, obras de infraestrutura na Amazônia, o planejamento do setor elétrico e a definição de impostos e subsídios.

"Sem isso, continuaremos tomando decisões com base em uma contabilidade que enxerga apenas metade do balanço", concluiu. 

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