Divergências transatlânticas sobre segurança, desenvolvimento e clima surgem em assembleia sobre o Ártico-Xinhua

Divergências transatlânticas sobre segurança, desenvolvimento e clima surgem em assembleia sobre o Ártico

2026-10-13 14:44:31丨portuguese.xinhuanet.com

Foto tirada em 21 de dezembro de 2016 mostra o Santa's Igloos Arctic Circle, um hotel com iglus de vidro, na aldeia do Papai Noel, em Rovaniemi, Finlândia. Alguns dizem que a maneira mais romântica de ver a aurora boreal é se deitar em um iglu, um abrigo feito de vidro que permite contemplar as luzes com facilidade e conforto. (Xinhua/Li Jizhi)

As discussões revelaram abordagens contrastantes em relação ao futuro da região: Washington enfatizou as capacidades militares e o desenvolvimento de recursos, enquanto seus aliados deram maior peso à soberania, aos interesses locais e à proteção ambiental.

Por Zhu Haochen, Zhang Yuliang e Zhang Zhaoji

Reykjavik, 11 out (Xinhua) -- Os Estados Unidos e seus aliados europeus e canadenses demonstraram prioridades divergentes quanto à segurança no Ártico, ao desenvolvimento de recursos e à política climática durante a Assembleia do Círculo Polar Ártico 2026, evidenciando tensões crescentes nas relações transatlânticas.

Ao final do encontro de três dias, realizado no sábado em Reykjavik, na Islândia, as discussões revelaram abordagens contrastantes sobre o futuro da região: Washington enfatizou as capacidades militares e o desenvolvimento de recursos, enquanto seus aliados deram maior peso à soberania, aos interesses locais e à proteção ambiental.

COMO GARANTIR A SEGURANÇA?

Fundada em 2013 pelo então presidente islandês Olafur Ragnar Grimsson, a organização Círculo Polar Ártico realiza sua assembleia anual na Islândia em outubro e constitui uma importante plataforma internacional de diálogo sobre questões relacionadas ao Ártico.

A segurança foi um tema de destaque no encontro deste ano, mas Washington e seus aliados divergiram quanto às prioridades. Enquanto autoridades dos EUA insistiam na expansão das capacidades militares e da infraestrutura, autoridades europeias e canadenses enfatizavam a soberania e a autonomia como suas principais prioridades.

Na cerimônia de abertura, realizada na quinta-feira, o governador do Alasca, Mike Dunleavy, disse que os Estados Unidos estavam investindo bilhões de dólares americanos para fortalecer sua presença militar no estado. Ele também destacou planos para cooperar com aliados no desenvolvimento de portos, aeroportos e redes de transporte marítimo no Ártico que pudessem atender a necessidades militares.

Foto tirada em 3 de janeiro de 2026 mostra uma ponte envolta em névoa gelada sobre o rio Kemijoki, em Rovaniemi, na Finlândia. Rovaniemi, cidade situada no Círculo Polar Ártico, é mundialmente famosa pela observação da aurora boreal, esportes de inverno e passeios de trenó puxado por renas. É também conhecida internacionalmente como a "casa do Papai Noel", atraindo um grande número de visitantes de todo o mundo. (Xinhua/Zhu Haochen)

Para alguns aliados dos EUA, no entanto, as preocupações quanto ao respeito de Washington pela soberania de seus países complicaram a cooperação em segurança.

Desde que retornou à Casa Branca em 2025, o presidente dos EUA, Donald Trump, expressou repetidamente sua intenção de assumir o controle da Groenlândia, um território autônomo da Dinamarca. Apesar de um novo acordo de segurança firmado entre os Estados Unidos, a Dinamarca e a Groenlândia em setembro, a confiança entre os aliados ainda não foi restaurada.

Em Reykjavik, o ministro das Relações Exteriores da Groenlândia, Mute Egede, disse que os groenlandeses vinham enfrentando enorme pressão e incerteza, o que reforça a importância da autonomia para decidir seu futuro. "Não seremos espectadores do nosso próprio futuro", enfatizou ele.

As relações entre os Estados Unidos e o Canadá também se deterioraram devido às ameaças de Trump de transformar o Canadá no "51º estado" e aos fortes aumentos das tarifas sobre produtos canadenses.

A ministra das Relações Exteriores do Canadá, Anita Anand, ressaltou que o Ártico não é apenas uma fronteira estratégica, mas também o "lar" das populações locais. Ela disse que o Canadá está fortalecendo a "diplomacia de potência média" com países nórdicos e outros parceiros para proteger a paz, a segurança e o respeito à soberania no Ártico.

Zhao Long, diretor do Centro de Estudos Marinhos e Polares do Instituto de Estudos Internacionais de Shanghai, disse à Xinhua que as questões do Ártico estão sendo cada vez mais tratadas como questões de segurança, em meio à crescente rivalidade geopolítica.

Ele observou que Washington e seus aliados não compartilham totalmente as mesmas percepções sobre ameaças externas à segurança, o que torna cada vez mais difícil para os Estados Unidos coordenarem uma posição comum diante das novas tensões entre eles.

Foto tirada em 2 de fevereiro de 2021 mostra a aurora boreal vista de um hotel nas árvores, localizado a cerca de 150 km ao sul do Círculo Polar Ártico, no norte da Suécia. (Foto de Wei Xuechao/Xinhua)

COMO COMPARTILHAR OS BENEFÍCIOS DO DESENVOLVIMENTO?

À medida que o aquecimento global torna o Ártico mais acessível e facilita o acesso às rotas de navegação e aos recursos naturais, questões sobre como desenvolver a região e distribuir os benefícios econômicos ganharam destaque.

Na assembleia, autoridades dos EUA promoveram com entusiasmo planos para expandir o desenvolvimento energético e a construção de infraestrutura, enfatizando o valor estratégico e econômico do Ártico, enquanto os aliados de Washington deram maior peso ao direito das comunidades locais de moldar o desenvolvimento e compartilhar seus benefícios.

Dunleavy disse que a administração Trump vem buscando transformar o modelo de desenvolvimento do Alasca para atender às necessidades de defesa e à exploração de recursos. Thomas Dans, presidente da Comissão de Pesquisa do Ártico dos EUA, descreveu o investimento americano na região como "sem precedentes".

Enquanto isso, representantes da Groenlândia, da União Europeia (UE) e do Canadá enfatizaram que as comunidades do Ártico devem fazer suas próprias escolhas de desenvolvimento.

"O futuro do Ártico não pode ser moldado apenas pelo que o mundo deseja obter do Ártico. Ele também deve levar em conta o que os próprios povos do Ártico desejam", disse Egede.

Ele ressaltou que o desenvolvimento deve criar oportunidades para os moradores locais, em vez de permitir que investimentos externos e infraestrutura de segurança se sobreponham às escolhas deles.

Anand também destacou o enorme potencial do Ártico em minerais críticos, energia e transporte, mas enfatizou que o ponto principal era garantir que "as populações locais sejam beneficiadas".

Foto tirada em 3 de janeiro de 2026 mostra uma barraca que vende café e lanches em Rovaniemi, na Finlândia. Rovaniemi, cidade situada no Círculo Polar Ártico, é mundialmente famosa pela observação da aurora boreal, esportes de inverno e passeios de trenó puxado por renas. É também conhecida internacionalmente como a "casa do Papai Noel", atraindo um grande número de visitantes de todo o mundo. (Xinhua/Zhu Haochen)

COMO ENFRENTAR AS MUDANÇAS CLIMÁTICAS?

As mudanças climáticas constituíram outro importante ponto de divergência entre Washington e seus aliados durante a assembleia.

Representantes europeus e canadenses priorizaram a ação climática e a governança ambiental, alertando que o aumento das temperaturas, o degelo do permafrost e as alterações nos ecossistemas marinhos já estavam ameaçando a região.

Ao ser questionado sobre o que o preocupava mais, as mudanças climáticas ou as ameaças militares, Egede apontou as mudanças climáticas, dizendo que elas estão "mudando a maneira como as populações locais vivem".

Anand alertou que a redução do gelo marinho e o degelo do permafrost estavam afetando os ecossistemas do Ártico, a segurança alimentar e os meios de subsistência locais. Ela disse que a governança climática deve figurar, ao lado da segurança militar e do desenvolvimento econômico, como uma das três principais questões que o Ártico enfrenta.

O comissário europeu para parcerias internacionais, Jozef Sikela, disse que o enfrentamento das mudanças climáticas continuaria sendo um pilar central da estratégia da UE para o Ártico, com a proteção ambiental integrada a todas as políticas relacionadas à região.

Em contrapartida, autoridades dos EUA deram menos ênfase às questões climáticas. Dunleavy reconheceu que suas discussões com a Casa Branca haviam se concentrado principalmente em energia, defesa e infraestrutura, enquanto as questões climáticas receberam atenção "relativamente menor".

Trump há muito tempo classifica o aquecimento global como uma "farsa" e anunciou a retirada dos EUA do Acordo de Paris durante seus dois mandatos presidenciais.

Zhao disse que a decisão de Trump de retirar o país do acordo em 2025 aprofundou ainda mais as divergências sobre política climática entre Washington e seus aliados europeus. Ele alertou que o enfraquecimento da cooperação climática continuará comprometendo a governança multilateral e a cooperação científica no Ártico.

Lassi Heininen, especialista finlandês em assuntos do Ártico, disse que a cooperação ambiental desempenhava um papel importante na redução das tensões militares e na manutenção da estabilidade geopolítica na região.

Ele ressaltou a importância de preservar essa cooperação em meio à crescente competição estratégica na região.

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