* Os preços de referência do gás na Europa recuaram em relação ao pico de meados de setembro, mas permanecem muito acima dos níveis do ano passado.
* Dados da Infraestrutura de Gás da Europa mostraram que as instalações de armazenamento da UE estão com cerca de 70% da capacidade ocupada. Um inverno mais rigoroso esgotou os estoques, enquanto as ondas de calor do verão aumentaram o consumo de gás para a geração de energia.
* Observando que a Europa enfrentava uma crise de preços impulsionada pela oferta, o Comissário de Energia da UE, Dan Jorgensen, pediu aos países na sexta-feira que considerassem medidas para manter as injeções de gás nos estoques ou reduzir o consumo de gás e eletricidade onde fosse necessário.
Varsóvia, 29 set (Xinhua) -- A Europa entra em seu primeiro inverno completo de aquecimento desde a eclosão da guerra no Irã, cujo impacto se propaga para além do gás natural, afetando os preços do diesel e os custos de energia para residências e indústrias.
Quatro anos de esforços para diversificar seu sistema energético proporcionaram à União Europeia (UE) mais opções de abastecimento, mas o bloco agora enfrenta estoques de gás excepcionalmente baixos e uma maior exposição a choques globais de preços.
A próxima temporada de aquecimento colocará à prova se a resiliência energética do bloco consegue proteger as famílias e a indústria sem causar outro grande impacto inflacionário.
PROPAGAÇÃO DO CHOQUE ENERGÉTICO
Os preços de referência do gás na Europa recuaram em relação ao pico de meados de setembro, mas permanecem muito acima dos níveis do ano passado.
O contrato de gás TTF holandês para entrega no mês seguinte foi negociado na faixa de 72 a 73 euros (cerca de 81,8 a 83 dólares americanos) por megawatt-hora na segunda-feira, após ter ultrapassado a marca de 80 euros (90,9 dólares) no início do mês. Em comparação, a média do TTF foi de aproximadamente 32 euros (36,4 dólares) por megawatt-hora em setembro de 2025.
O choque energético impulsionou a inflação. A inflação anual da zona do euro subiu para 3,2% em agosto, ante 2,9% em julho, segundo dados do Eurostat. Os preços da energia contribuíram com 1,29 ponto percentual para a inflação geral.

Uma mulher passa por um posto de gasolina em Milão, Itália, em 11 de março de 2026. (Xinhua/Li Jing)
O repasse aos consumidores também pode ser mais rápido do que durante a crise energética de 2022. Uma pesquisa do Banco Central Europeu constatou que, em mais da metade da zona do euro, espera-se agora que as variações nos preços do gás no atacado sejam repassadas aos preços do gás para os consumidores em um período de um a três meses, um prazo mais curto do que o observado quatro anos atrás.
As empresas também estão absorvendo custos mais elevados. Uma pesquisa divulgada em julho pela Câmara de Comércio e Indústria da Alemanha revelou que, entre cerca de 3.100 empresas consultadas, 49% relataram aumento nos custos de eletricidade, enquanto 67% disseram que o aquecimento ficou mais caro.
A pressão não se limita mais ao gás. A Agência Internacional de Energia (AIE) disse, em seu relatório de setembro sobre o mercado de petróleo, que a escassez de oferta é agora particularmente aguda no segmento de produtos refinados, com os preços do diesel subindo de forma mais acentuada do que os do petróleo bruto.
As exportações líquidas de diesel e gasóleo dos países do Golfo ficaram em média em cerca de 390 mil barris por dia em agosto, apenas um quarto dos níveis anteriores à guerra, segundo a AIE.
ESTOQUES BAIXOS, RISCOS ELEVADOS
A Europa se aproxima do inverno com uma reserva de gás muito menor do que o habitual.
Dados da Infraestrutura de Gás da Europa mostraram que as instalações de armazenamento da UE estão com cerca de 70% de sua capacidade ocupada. Um inverno mais rigoroso esgotou os estoques, ao passo que as ondas de calor do verão aumentaram o consumo de gás para a geração de energia.
Preços elevados no atacado e um diferencial de preços sazonal desfavorável no início do ano também reduziram o incentivo comercial para comprar gás e armazená-lo para o inverno.
Ainda assim, a Europa conta com mais rotas de abastecimento do que durante a crise de 2022.
Em 2025, a Noruega forneceu cerca de 52% das importações de gás natural em estado gasoso da UE, seguida pela Argélia, com 17,4%, segundo dados do Eurostat. Enquanto isso, seu sistema de gás foi reconfigurado por um aumento acentuado nas importações de gás natural liquefeito (GNL).

Foto tirada com um celular mostra navios mercantes parados nas águas do Estreito de Ormuz, perto de Khasab, uma pequena cidade no norte de Omã, em 29 de maio de 2026. (Xinhua/Wen Xinnian)
O GNL responde agora por quase metade do suprimento de gás da UE, segundo a Agência da UE para a Cooperação dos Reguladores de Energia. Os Estados Unidos forneceram 58% das importações de GNL do bloco em 2025, o que equivale a cerca de um quarto de sua demanda total de gás.
Essa diversificação reduziu a dependência da Europa em relação a gasodutos específicos, mas também a vinculou mais estreitamente ao mercado global de GNL, onde a disponibilidade de cargas e os preços podem mudar rapidamente caso ocorram interrupções na produção ou nas rotas de transporte.
A crise no Estreito de Ormuz expôs essa vulnerabilidade: o volume de GNL embarcado a partir do Catar e dos Emirados Árabes Unidos caiu 35 bilhões de metros cúbicos entre março e junho em relação ao ano anterior, segundo a AIE.
Além disso, o suprimento proveniente do Golfo está se recuperando mais lentamente do que o previsto anteriormente. O Catar informou que os reparos em duas unidades de processamento de GNL danificadas em Ras Laffan levariam cerca de três anos, embora as operações normais pudessem ser retomadas em questão de semanas após a reabertura do estreito.
MEDIDAS PARA AMENIZAR O CHOQUE DE PREÇOS
No início deste mês, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, alertou que as perturbações em torno do Estreito de Ormuz custaram à UE 90 bilhões de euros (102 bilhões de dólares) adicionais em importações de combustíveis fósseis, "sem que fosse acrescentada uma única molécula de energia".
Observando que a Europa enfrentava uma crise de preços impulsionada pela oferta, o Comissário de Energia da UE, Dan Jorgensen, pediu aos países na sexta-feira que considerassem medidas para manter as injeções de gás nos estoques ou reduzir o consumo de gás e eletricidade onde fosse necessário.
Em consonância com o apelo de Jorgensen, o governo holandês disse na sexta-feira que planeja manter uma reserva estratégica de gás com apoio público de 5 terawatts-hora (TWh) por ano, volume suficiente para suprir cerca de duas semanas da demanda nacional, ao mesmo tempo em que exige que os fornecedores mantenham parte do gás necessário para o inverno em armazenamento físico.

Um homem abastece seu carro em um posto de gasolina em Villeneuve-d'Ascq, no norte da França, em 23 de setembro de 2026. (Foto de Sebastien Courdji/Xinhua)
Outros governos europeus também adotaram medidas para proteger os consumidores e reforçar a segurança energética.
A Alemanha aprovou, na sexta-feira, uma lei para reduzir os impostos sobre a energia incidente sobre a gasolina e o diesel. Com vigência a partir de 1º de outubro e duração até o final do ano, a medida deve reduzir os preços nas bombas em cerca de 17 centavos de euro (0,19 dólares) por litro, proporcionando um alívio financeiro de aproximadamente 2,5 bilhões de euros (2,84 bilhões de dólares).
A França anunciou um pacote de 450 milhões de euros (511,21 milhões de dólares) para ampliar a assistência a motoristas frequentes e setores com alto consumo de combustível. Paralelamente, o presidente Emmanuel Macron convocou uma reunião de energia do G7 para coordenar estoques, exportações e capacidade de produção de energia, assim como para avaliar a possível liberação de reservas estratégicas.
(Repórteres de vídeo: Yang Yuchen, Du Zhiqian, Zhang Zhaoqing, Jin Danyi, Cui Kexin, Liu Baiyun, Shao Haijun, Gao Jingyan, Kang Yi, Chen Yufen, Xie Yuan, Song Jia e Sun Yi. Edição de vídeo: Zhang Yucheng, Roger Lott, Zhang Yuhong, Cao Ying, Luo Hui, Liu Ruoshi e Zhang Yueyuan)

