
Foto de arquivo mostra o portador da tocha Wang Shun e um portador digital acendendo juntos a pira olímpica na cerimônia de abertura dos 19º Jogos Asiáticos em Hangzhou, na província de Zhejiang, leste da China, em 23 de setembro de 2023. (Xinhua/Cheng Tingting)
* Os 20º Jogos Asiáticos foram abertos oficialmente no sábado, oferecendo uma oportunidade de relembrar a transformação do esporte chinês ao longo de mais de meio século.
* A China estreou nos Jogos Asiáticos em Teerã, em 1974, e sediou o evento pela primeira vez 16 anos depois. Desde então, o país liderou o quadro de medalhas de ouro em 11 edições consecutivas e sediou os Jogos três vezes.
* Os Jogos Asiáticos refletiram a ascensão da China no esporte internacional, paralelamente à sua ampla transformação econômica e social.
Nagoya, Japão, 19 set (Xinhua) -- Os 20º Jogos Asiáticos foram abertos oficialmente na noite de sábado, oferecendo uma oportunidade de relembrar outra trajetória notável: a transformação do esporte chinês ao longo de mais de meio século.
A China estreou nos Jogos Asiáticos em Teerã, em 1974. Dezesseis anos depois, Beijing recebeu a Ásia como sede dos Jogos Asiáticos de 1990.
Desde então, a China liderou o quadro de medalhas de ouro em 11 edições consecutivas e sediou o evento três vezes. Para a China, os Jogos Asiáticos passaram a representar muito mais do que competição, refletindo a ascensão do país no esporte internacional, paralelamente à sua ampla transformação econômica e social.
A ESTREIA
Zhang Dawei ainda se lembra do dia de outono de 1974 quando, aos 28 anos, o jogador de basquete recebeu a honra de carregar a bandeira chinesa na cerimônia de abertura dos Jogos Asiáticos em Teerã.
"Ignorei tudo ao meu redor", relembrou Zhang mais tarde. "Eu só pensava em segurar a bandeira corretamente e acompanhar o ritmo da equipe".

Foto de arquivo mostra atletas chineses na cerimônia de encerramento dos 7º Jogos Asiáticos em Teerã, Irã, em 16 de setembro de 1974. (Xinhua)
Para a China, aquele momento tinha um significado que ia muito além do esporte. O país havia ficado praticamente ausente de competições internacionais por mais de uma década.
A chegada da delegação chinesa ao aeroporto de Teerã atraiu considerável atenção, com fotos da equipe aparecendo em jornais de vários países no dia seguinte.
Logo, os atletas deram ao mundo mais um motivo para prestar atenção neles.
Su Zhibo conquistou a primeira medalha de ouro dos Jogos na prova masculina de pistola livre, enquanto sua colega de equipe Li Yamin estabeleceu um recorde mundial na competição feminina de pistola padrão a 25 metros. A China terminou em terceiro lugar no quadro de medalhas, com 33 medalhas de ouro.

Foto de arquivo mostra Su Zhibo posando para uma foto no local de competições de tiro dos 7º Jogos Asiáticos, realizados em Teerã, Irã, em 1974. Su venceu a prova masculina de pistola a 50 metros, tornando-se o primeiro atleta chinês a conquistar uma medalha de ouro nos Jogos Asiáticos. (Xinhua)
A mensagem era clara: a China estava retornando à comunidade esportiva internacional.
Em 1979, a China recuperou seu assento legítimo no Comitê Olímpico Internacional, abrindo caminho para que atletas chineses competissem de forma mais ampla no cenário mundial.
Nos Jogos Asiáticos de 1982, em Nova Délhi, a China conquistou 61 medalhas de ouro, superando o Japão, que havia dominado o quadro de medalhas asiático por anos. Foi a primeira vez que a China terminou no topo da classificação, posição que manteve em todas as edições seguintes.
Entre as estrelas em ascensão em Nova Délhi estava o ginasta Li Ning, então com 19 anos, que conquistou quatro medalhas de ouro. Ele se tornaria um dos atletas mais reconhecidos da China e, mais tarde, um de seus mais conhecidos empresários do setor esportivo.
Ao relembrar aquele período, Li disse que os atletas de sua geração compreendiam que carregavam uma responsabilidade que ia além da competição.
"A China tinha acabado de começar a abrir suas portas", relembrou ele. "Quando os atletas viajavam para o exterior, não íamos apenas para competir. Também representávamos a imagem do nosso país".
UMA JANELA PARA A CHINA
Em 1983, a China apresentou sua candidatura para sediar os 11º Jogos Asiáticos em Beijing. Hiroshima, no Japão, também entrou na disputa, mas Beijing acabou vencendo a disputa.
Garantir o direito de sediar o evento foi apenas o começo. O comitê organizador enfrentava um déficit de financiamento de cerca de 600 milhões de yuans (89,45 milhões de dólares americanos). Então, uma menina chamada Yan Haixia doou 1,6 yuan (cerca de 0,24 dólar americano), parte do dinheiro que recebera como presente de Ano Novo, aos organizadores, ajudando a desencadear uma campanha nacional de arrecadação de fundos. Entre 1987 e 1990, pessoas de toda a China doaram um total de 270 milhões de yuans para ajudar a financiar os Jogos, o primeiro grande evento multiesportivo internacional realizado no país.

Foto de arquivo mostra a cerimônia de abertura dos 11º Jogos Asiáticos em Beijing, em 22 de setembro de 1990. (Xinhua)
Após se aposentar das competições, Li Ning voltou sua atenção para os negócios. Uma de suas ambições era simples: os atletas chineses deveriam poder subir ao pódio em competições internacionais vestindo marcas produzidas em seu próprio país.
A empresa Li Ning forneceu o vestuário para o revezamento da tocha dos Jogos Asiáticos e para as cerimônias de premiação da delegação chinesa. A presença da marca nos Jogos de Beijing marcou um momento decisivo para a indústria de artigos esportivos da China, que estava em plena ascensão.
Competindo em casa, os atletas chineses dominaram a disputa, conquistando 183 medalhas de ouro, quase o dobro do total obtido pela Coreia do Sul e pelo Japão somados.
No entanto, a importância dos Jogos de Beijing foi além do quadro de medalhas.
Na cerimônia de encerramento, a delegação da Arábia Saudita exibiu uma faixa com a mensagem "Obrigado, China", enquanto a de Bangladesh exibia "Viva a amizade".
Dezoito anos depois, o simbolismo dos Jogos Asiáticos de Beijing reapareceu em um palco ainda maior.
Na noite de 8 de agosto de 2008, bilhões de espectadores ao redor do mundo acompanharam a abertura dos Jogos Olímpicos de Beijing, marcada por uma cerimônia espetacular. Uma sequência de pegadas gigantes, formadas por fogos de artifício, parecia avançar pelo eixo central de Beijing em direção ao Estádio Nacional, mais conhecido como "Ninho de Pássaro".
Esse mesmo eixo norte-sul havia sido transformado pelos Jogos Asiáticos de 1990.
Dois anos mais tarde, os Jogos Asiáticos retornaram à China, desta vez em Guangzhou. O cenário havia mudado drasticamente.
A China havia ultrapassado o Japão, tornando-se a segunda maior economia do mundo. O PIB de Guangzhou superou a marca de 900 bilhões de yuans em 2009, um valor superior à metade de todo o PIB nacional da China em 1989.
O contraste com a situação de Beijing, vinte anos antes, era impressionante. Enquanto os Jogos de 1990 exigiram um esforço de arrecadação de fundos em nível nacional, Guangzhou pôde contar, em grande parte, com os recursos de uma única cidade e com financiamento baseado no mercado para preparar um evento ainda maior.
"Por meio da nova trajetória de desenvolvimento de uma cidade, as pessoas podem ver o espírito de reforma ganhando forma em todo o país e vivenciar os frutos da abertura", disse Lin Yanfen, então integrante do Comitê Organizador dos Jogos Asiáticos de Guangzhou.
Os atletas chineses dominaram novamente o quadro de medalhas, conquistando 199 medalhas de ouro.
Contudo, a percepção pública sobre o sucesso esportivo começava a mudar. O esporte passava a ser cada vez mais uma atividade para praticar e desfrutar, e não apenas algo para vencer. Com a designação de 8 de agosto como o Dia Nacional do Fitness e a implementação de regulamentações nacionais sobre a prática de atividades físicas, mais chineses passaram de "assistir a esportes" a "praticar esportes".
Treze anos depois, Hangzhou assumiu o bastão.

Foto de arquivo mostra a cerimônia de abertura dos 19º Jogos Asiáticos em Hangzhou, em 23 de setembro de 2023. (Xinhua/Chen Yichen)
Os atletas da China continuaram dominando os Jogos Asiáticos de 2023, conquistando 201 medalhas de ouro, um recorde para uma única delegação na história dos Jogos, e liderando o quadro de medalhas de ouro pela 11ª vez consecutiva.
A tecnologia tornou-se uma das características marcantes dos Jogos de Hangzhou, com a integração de inteligência artificial, realidade aumentada e outras ferramentas digitais ao evento.

Foto de arquivo mostra a chinesa Cui Chenxi comemorando a vitória na prova de skate street feminino nos 19º Jogos Asiáticos em Hangzhou, em 27 de setembro de 2023. (Xinhua/Pan Yulong)
Os Jogos também lançaram o primeiro programa de portadores de tocha digitais. Mais de 100 milhões de pessoas participaram do revezamento da tocha on-line, ampliando o alcance do evento para além da cidade-sede.
Desde o retorno da China aos Jogos Asiáticos em Teerã, em 1974, até o espetáculo tecnologicamente avançado em Hangzhou, a trajetória do país na competição reflete mais de cinco décadas de transformações. Agora, com a abertura dos 20º Jogos Asiáticos, essa jornada continua.

