Beijing, 20 set (Xinhua) -- Vinte anos após sua criação, o BRICS cresceu de um grupo econômico para uma plataforma mais ampla de cooperação, com aumento de membros e uma agenda cada vez maior que abrange desenvolvimento, tecnologia e governança global.
Após a recém-concluída Cúpula do BRICS em Nova Déli, estudiosos disseram que o bloco está abrindo mais oportunidades para que os países do Sul Global cooperem e aumentem sua voz nos assuntos globais.
DA EXPANSÃO PARA COOPERAÇÃO MAIS PROFUNDA
O mecanismo de cooperação BRICS foi formalmente lançado em 2006, com a primeira cúpula realizada em 2009. Desde então, o grupo ampliou seus membros e a agenda de cooperação.
Hoje, os membros do BRICS representam quase metade da população mundial, cerca de 30% do PIB global e um quinto do comércio global.
"O BRICS não apenas se expandiu em membros, mas também aprofundou o escopo da cooperação", disse Mikatekiso Kubayi, pesquisador sênior da Universidade de Joanesburgo, apontando áreas como energia, cultura, transporte, tecnologia e segurança.
Marcus Vinicius De Freitas, professor visitante na Universidade de Relações Exteriores da China e pesquisador sênior do Policy Center for the New South, um think tank marroquino, descreveu o BRICS como um mecanismo inestimável para gerenciar diferenças e transformar interesses comuns em cooperação prática em um mundo cada vez mais multipolar.
"A China é a força motriz por trás do BRICS, mas sua liderança é mais consensual, refletindo sua perspectiva ganha-ganha em política externa e comércio global", afirmou.
UMA VOZ COLETIVA MAIS FORTE
À medida que o BRICS cresceu, também aumentou seu potencial para dar aos países em desenvolvimento uma voz mais forte na formação da governança global.
Gan Tian Loo, vice-presidente da Associação de Relações Públicas Malásia-China, disse que os países do BRICS construíram consenso nas últimas duas décadas para responder a desafios como crises financeiras, pandemia e unilateralismo.
Ele afirmou que propostas recentes dão maior ênfase à contribuição para discussões sobre governança global e à promoção da aplicação igualitária das regras internacionais, uma questão de particular relevância para o Sul Global.
"Agir coletivamente nas discussões sobre a reforma da governança global poderá dar aos países do Sul Global maior poder de negociação do que buscar tais solicitações individualmente", disse Gan.
Kubayi disse que essa ênfase no Sul Global reflete os objetivos originais do BRICS, incluindo fortalecer a voz dos países em desenvolvimento e promover o acesso a instrumentos de desenvolvimento para países em desenvolvimento e menos desenvolvidos.
"Sua referência contínua ao Sul Global é importante porque esse é todo o propósito do BRICS em primeiro lugar", disse Kubayi, referindo-se às declarações do presidente chinês Xi Jinping sobre a cooperação do BRICS.
Na cúpula, Xi pediu ao BRICS que seja pioneiro no avanço do desenvolvimento impulsionado pela inovação, pioneiro na defesa da paz e estabilidade, pioneiro na facilitação do aprendizado mútuo entre civilizações e pioneiro na reforma e melhoria da governança global.
Julia Roknifard, professora sênior da Universidade Taylor na Malásia, disse que tais iniciativas poderão ajudar a construir consenso entre os países do Sul Global por meio da cooperação prática.
"Por meio do apoio mútuo e diário nas áreas de tecnologia, segurança em saúde, agricultura e outras áreas entre os membros plenos do BRICS, países parceiros e o Sul Global mais amplo, é como podem fortalecer suas vozes e influências coletivas", disse ela.
TRANSFORMANDO CONSENSO EM AÇÃO
Conforme o BRICS entra em sua terceira década, o seu foco se volta cada vez mais para a implementação.
Kubayi destacou as cinco iniciativas propostas por Xi para maior cooperação do BRICS: IA de código aberto e inclusiva, facilitação de comércio e investimentos, cooperação em indústria digital, cooperação em manufatura inteligente e desenvolvimento de talentos em ciência e tecnologia.
Ele apontou a IA como um campo em que as economias emergentes não querem apenas adotar novas tecnologias, mas também ajudar a moldar a forma como elas são desenvolvidas e governadas.
"Eles devem participar ativamente da elaboração de estruturas e padrões internacionais relacionados à segurança, ética, interoperabilidade e governança da IA", disse Luan Camargo, diretor-executivo do Instituto de Pesquisa Empresarial Brasil-China.
A cooperação econômica é outra área onde tais esforços estão tomando forma.
No Brasil, Maria Elena Rodriguez, vice-diretora do Centro de Políticas do BRICS e professora da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, considera a China um parceiro crucial para a transição ecológica do país, inclusive por meio de investimentos em áreas como veículos elétricos, equipamentos fotovoltaicos e aço verde.
Camargo afirmou que desenvolvimento sustentável e inovação exigem paz e governança eficaz, enquanto parcerias multilaterais duradouras também dependem de intercâmbios entre os povos.
Para o BRICS, a próxima etapa será, portanto, medida não apenas pela expansão adicional, mas também pelo fato de que se o consenso existente poderia ser traduzido em cooperação prática.
Com a China prestes a assumir a presidência do BRICS em 2027, Kubayi expressou esperança de que a presidência chinesa dê um novo impulso para transformar a agenda de expansão do grupo em ação.
"Esperamos um grupo do BRICS um pouco mais próspero em relação à cooperação no próximo ano. Essa é claramente a agenda que está sendo colocada na mesa", disse ele.

