
Uma mulher fotografa um veículo elétrico Geely E2 na Gran Vía, em Madri, Espanha, em 9 de setembro de 2026. (Foto de Zhang Yuheng/Xinhua)
Beijing, 18 set (Xinhua) -- Há anos, narrativas que culpam a China ressurgem sempre que o setor manufatureiro ocidental perde postos de trabalho, com acusações que variam desde o excesso de capacidade e os subsídios desleais até o dumping.
As mais recentes narrativas difamatórias que circulam na Europa revelam preocupações locais reais quanto à perda de competitividade da indústria manufatureira. No entanto, a China não é a verdadeira causa, e a solução proposta apenas agravará a tensão existente.
Não é difícil entender por que essas narrativas encontram eco. "As importações aumentam o bem-estar, mas os ganhos são dispersos, enquanto as perdas são concentradas", observou Xiao Lisheng, pesquisador da Academia Chinesa de Ciências Sociais.
"As perdas das indústrias nacionais que enfrentam a concorrência das importações são concentradas e visíveis, ao passo que os ganhos dos consumidores, com produtos mais baratos e de melhor qualidade, são dispersos e raramente notados", explicou ele.
Essa assimetria revela por que a narrativa do "Choque da China" persiste, apesar dos benefícios mais amplos do comércio. O caminho não é culpar a China, mas cooperar com ela e aproveitar as oportunidades que o país oferece como um amortecedor para a economia global, inclusive para a Europa.
A dura realidade é que a falta de competitividade industrial na Europa é um problema criado por ela própria. A eletricidade na Europa é muito mais cara do que para seus concorrentes; trata-se de uma desvantagem estrutural que determina a viabilidade de atividades industriais intensivas em energia, como as de aço, produtos químicos e alumínio. Isso decorre, em parte, das estruturas de custos europeias e das políticas que as sustentam.
Esse ônus é agravado pelas próprias medidas protecionistas da UE. As mais recentes salvaguardas da Comissão Europeia para o aço, que reduzem quase pela metade as cotas de importação e dobram as tarifas para volumes excedentes, visam proteger os produtores de aço da UE, mas correm o risco de prejudicar gravemente o setor manufatureiro de produtos derivados, que é muito maior.
A Associação Europeia de Fabricantes de Automóveis alertou que as medidas de salvaguarda para o aço custariam aos fabricantes de produtos derivados entre 5 bilhões de euros (cerca de 5,74 bilhões de dólares americanos) e 9 bilhões de euros por ano, elevariam os preços de alguns tipos de aço em até 30% e sobrecarregariam empresas menores com regras de origem inviáveis. A conclusão da entidade é contundente: as medidas representam "um golpe na competitividade industrial da Europa".
Estender essas tarifas a produtos derivados importados apenas agravaria a situação. Em uma análise de políticas de agosto, a União Nacional dos Contribuintes (NTU, na sigla em inglês) dos Estados Unidos descreve essa dinâmica como "protecionismo em cascata". Uma vez que as tarifas sobre o aço (matéria-prima) elevam os custos para empresas que utilizam o material, como fabricantes de refrigeradores, estaleiros e empresas de soldagem, os formuladores de políticas não removem a tarifa inicial. Em vez disso, estendem a proteção aos produtos derivados, conforme proposto atualmente por alguns grupos do setor.
No entanto, como observou a NTU, essas tarifas "podem proteger essas empresas no mercado interno, mas pouco contribuem para ajudá-las a competir no exterior". Em suma, as tarifas fazem com que consumidores europeus e usuários de produtos derivados paguem preços mais altos, reduzem a demanda e corroem a competitividade das próprias indústrias que alegam proteger.
A história já revelou o que aconteceu quando a Europa impôs tarifas antidumping a painéis solares chineses em 2013: os custos aumentaram para os instaladores, a demanda caiu e a SolarWorld, fabricante alemã que fez forte lobby pela proteção, faliu.
A Europa agora repete o mesmo erro com o aço, ignorando o que a China absorveu silenciosamente em seu benefício: choques energéticos, interrupções nas cadeias de suprimentos e pressões inflacionárias.
O que a Europa está deixando de considerar é o "amortecedor chinês". A realidade é que o investimento chinês reativa fábricas ociosas e gera empregos locais, os bens intermediários chineses mantêm as fábricas europeias competitivas e as cadeias de suprimentos chinesas de energia limpa reduzem o custo da transição verde global.
Durante a recente onda de calor na Europa, os aparelhos de ar-condicionado chineses atenderam a um pico de demanda que a oferta interna não conseguiu suprir. Essa mesma capacidade ajuda as fábricas europeias a garantir insumos e manter os custos baixos quando as cadeias de suprimentos globais estão sob pressão.
Para os fabricantes europeus, os bens intermediários chineses oferecem insumos a custos competitivos que deixam mais espaço para a modernização industrial. Pesquisas do Banco Central Europeu constataram que, em setores com importações crescentes da China, uma maior exposição a bens intermediários chineses estava associada a um aumento de 0,6 ponto percentual no crescimento da produção industrial. Um documento de trabalho do Banco Mundial de 2025 constatou ganhos semelhantes na Etiópia, onde bens intermediários chineses impulsionaram a produtividade e o emprego no setor manufatureiro.
Considere agora o que acontece quando a Europa abraça a indústria manufatureira chinesa em vez de temê-la. Na França, os veículos elétricos (EVs) tornaram-se, pela primeira vez em agosto, a principal opção de motorização no país, superando os modelos híbridos, a gasolina e a diesel. Por trás desse marco estão empresas chinesas que se integraram profundamente à cadeia de suprimentos de EVs da França. Vale destacar que diversos fabricantes chineses de baterias operam fábricas no chamado "Vale das Baterias", no norte do país, e o CEO da Renault, François Provost, disse que a parceria da empresa com um fornecedor chinês de baterias ajudou a tornar seus carros mais competitivos.
Enquanto isso, na Espanha, a fábrica da icônica marca Ebro, que chegou a ficar inativa, foi reativada com a ajuda da montadora chinesa Chery. A parceria na antiga fábrica da Nissan, localizada na Zona Franca de Barcelona, gerou 1.000 empregos diretos e mais de 3.000 indiretos, cumprindo marcos importantes na estratégia de reindustrialização da Espanha.
Meng Yuhong, cônsul-geral da China em Barcelona, disse que o projeto não apenas revitalizou as operações da fábrica, mas também demonstrou o potencial para uma cooperação industrial mais profunda entre a China e a Espanha.
Em Rosslyn, na África do Sul, a fábrica da Chery manteve todos os seus 692 funcionários e deve sustentar cerca de 3.000 empregos na cadeia de suprimentos, o que, segundo o vice-presidente Paul Mashatile, fortalecerá a capacidade industrial do país. Na Bahia, no Brasil, a fábrica da BYD empregava 5.500 trabalhadores diretos em julho e tem previsão de gerar 20.000 empregos diretos e indiretos.
Além dos investimentos, as cadeias de suprimentos de energia limpa da China reduziram os custos da transição verde global. Na última década, o custo médio global da eletricidade gerada por fontes eólica e solar caiu mais de 60% e 80%, respectivamente, graças em grande parte à indústria chinesa. A Agência Internacional de Energia estima que a frota global de veículos elétricos tenha evitado uma demanda de cerca de 1,7 milhão de barris de petróleo por dia em 2025, sendo que a China respondeu por aproximadamente 1 milhão desses barris diários.
"A abertura e a cooperação de ganho mútuo representam o caminho mais sustentável e de menor custo, atendendo melhor aos interesses de longo prazo da Europa", disse Wang Yiwei, professor da Universidade Renmin da China.
No caso do setor automotivo, Wang disse que optar pela abertura e pela cooperação permite que a Europa se integre à cadeia de suprimentos de novas energias da China, já consolidada, para reduzir os custos de baterias e da fabricação de veículos. Simultaneamente, as empresas chinesas podem aproveitar as redes de produção locais, o mercado automotivo maduro e a experiência das marcas europeias para desenvolver, em conjunto, produtos adaptados aos padrões europeus.
Como observou Lewis Ndichu, do Instituto de Políticas para a África do Quênia, o valor mais profundo dos investimentos chineses no setor manufatureiro "não está apenas no capital investido, mas nos recursos que permanecem, como competências, tecnologia, fornecedores e capacidade produtiva".
É disso também que a Europa pode tirar proveito. Ao optar pela abertura, a Europa pode transformar o "amortecedor chinês", que serve de proteção contra choques, em uma parceria para o crescimento compartilhado.

