
Uma placa com as palavras "Produto do Canadá" é vista em um supermercado em Toronto, Ontário, Canadá, em 4 de março de 2025. (Foto de Zou Zheng/Xinhua)
Toronto, 15 set (Xinhua) -- O primeiro-ministro canadense, Mark Carney, iniciou na segunda-feira uma semana extraordinária nas relações transatlânticas.
Carney inaugurou a Cúpula de Investimentos do Canadá em Toronto para atrair capital global e deve viajar para a Europa para discursar no Parlamento Europeu e se reunir com líderes britânicos e franceses.
Esses compromissos de alto nível coincidem com a implementação formal das tarifas de 50% impostas pelos Estados Unidos a produtos canadenses.
Essa série de eventos destaca a estratégia de Carney: aumentar a resiliência econômica interna por meio de investimento estrangeiro direto, defender os interesses nacionais contra as tarifas dos EUA e fortalecer os laços diplomáticos e de segurança com a Europa para reduzir a dependência histórica do Canadá em relação ao mercado americano.
EXPLORANDO MERCADOS ASIÁTICOS E EUROPEUS
Anunciada pela primeira vez em abril, a Cúpula de Investimentos do Canadá foi concebida para atrair novos capitais para projetos nacionais de infraestrutura, um pilar da estratégia de Carney para expandir os vínculos econômicos com parceiros que não sejam os EUA.
Ao discursar no dia de abertura da cúpula, Carney descreveu o evento como parte de um roteiro governamental mais amplo, destinado a atrair capital estrangeiro para o setor manufatureiro canadense e, ao mesmo tempo, fortalecer o comércio com a Ásia e a Europa.
"O Canadá tem imensas oportunidades na Europa e na Ásia. E ainda não exploramos totalmente nosso potencial nesses mercados", disse Carney.
A cúpula visa mobilizar 1 trilhão de dólares canadenses (cerca de 726 bilhões de dólares americanos) em investimentos totais nos próximos cinco anos.
Para apresentar oportunidades a investidores globais, em um encontro que reuniu cerca de 300 líderes empresariais, incluindo executivos das maiores empresas de gestão de ativos do mundo, o governo canadense divulgou um catálogo de projetos prioritários que abrangem energia, minerais críticos, tecnologias avançadas e grandes obras de infraestrutura.
Segundo um documento informativo divulgado pela mídia canadense, o pacote inclui mais de 160 grandes projetos em oito setores, abrangendo 11 projetos de energia convencional, 31 de energia limpa e 63 de mineração e metais, entre outros.
Entre os projetos de destaque estão um oleoduto de 35 bilhões de dólares canadenses, estendendo-se de Alberta até a costa do Pacífico; um projeto de gás natural liquefeito de 28,5 bilhões de dólares canadenses na Colúmbia Britânica; e uma expansão de 79 bilhões de dólares canadenses do Porto de Churchill, na Baía de Hudson.
"Estamos iniciando um superciclo de investimentos de que este país necessita", disse Carney.
Um relatório do TD Bank previu que, com a execução governamental adequada, o Canadá poderia entrar em um "superciclo" de investimentos com duração de uma década ou mais, impulsionando a criação de empregos e elevando a produção per capita em 12.000 dólares canadenses.
BUSCA POR UMA ALIANÇA ÚNICA COM A EUROPA
Após a cúpula em Toronto, Carney partirá para a Europa na terça-feira para uma visita de três dias.
Ele deverá discursar no Parlamento Europeu, em Estrasburgo, na França, e acompanhar o discurso sobre o Estado da União Europeia da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e será o primeiro líder não europeu convidado para esse evento.
Carney também realizará sua primeira reunião bilateral com o primeiro-ministro britânico, Andy Burnham, em Liverpool, para discutir defesa e segurança, transição energética, governança de IA e minerais críticos.
No domingo, ele viajará para Saint-Pierre-et-Miquelon, um arquipélago francês ao sul da ilha canadense de Terra Nova, para se encontrar com o presidente francês, Emmanuel Macron.
Carney e Macron discutirão o aprofundamento da parceria entre Canadá e França em setores estratégicos, incluindo aeroespacial, energia e minerais críticos, assim como tecnologias avançadas como computação quântica, satélites e supercomputação, segundo um comunicado do gabinete de Carney.
O Canadá sediará a Cúpula Canadá-UE nos dias 29 e 30 de outubro para manter o ritmo da cooperação transatlântica, conforme anunciado anteriormente pelo gabinete.
Embora Carney tenha esclarecido que o Canadá "não busca aderir à União Europeia", ambos os lados estão construindo o que autoridades descrevem como uma "aliança única".
No Fórum Econômico Mundial em Davos, em janeiro, Carney argumentou que a ordem internacional do pós-guerra sofreu uma "ruptura" e pediu que as potências médias formem coalizões de interesses convergentes. Embora suas declarações tenham gerado atritos com Washington, elas repercutiram por toda a Europa.
O Canadá alcançou um importante avanço no início deste ano ao se tornar a única nação não europeia admitida no mecanismo de aquisições de defesa da UE, a Ação de Segurança para a Europa, permitindo que empresas canadenses do setor de defesa concorram diretamente a contratos de rearmamento europeu.
Os esforços de Carney para fortalecer os laços com a Europa estão ganhando apoio público. Segundo uma pesquisa da Abacus Data, realizada entre 4 e 9 de setembro, até 80% dos canadenses dizem que o Canadá deve fortalecer a cooperação estratégica com a UE em política externa, defesa e prioridades econômicas.
"Carney estava acelerando a guinada do Canadá em direção à Europa, promovendo um casamento forçado para compensar a dor do divórcio com os Estados Unidos. Na prática, a ameaça de transformar o Canadá no 51º estado americano está empurrando o vizinho do norte dos EUA para tão perto da Europa que líderes começaram, meio de brincadeira, a chamá-lo de mais novo membro da UE", disse o jornal americano The Wall Street Journal.
As tarifas e as políticas de Trump em relação à OTAN e à Groenlândia aceleraram os esforços do Canadá e da Europa para diversificar seus laços econômicos e de segurança, informou a Associated Press (AP), citando Ian Lesser, do German Marshall Fund, em Bruxelas.
No entanto, houve o alerta de que Carney leva à Europa uma mensagem que recebeu elogios na região, mas que os governos europeus têm relutado em seguir: potências médias devem estar dispostas a resistir à coerção econômica e a abandonar um acordo desvantajoso.
Analistas apontaram que persiste a incerteza quanto a possíveis medidas de retaliação por parte do presidente dos EUA, Donald Trump, em resposta aos esforços do Canadá de se afastar do mercado americano.









