Por Marcos Cordeiro Pires
Eu sou um observador da China desde 2005, quando ingressei como professor na Unesp. Nesses 21 anos, tenho lido constantemente análises apocalípticas sobre as fragilidades da economia chinesa, como a "inevitabilidade da valorização cambial", "a crise bancária" que sempre esteve próxima de estourar, a "crise imobiliária" que iria arrastar a economia mundial para uma crise semelhante à de 2008 e a eventual "quebra do sistema político" diante do aumento das demandas da nova classe média. Nesse aspecto, também vaticinaram que o desenvolvimento científico, tecnológico e criativo seria impossível devido às características do sistema econômico socialista. A lista de previsões catastróficas é imensa.
Essas análises são muito recorrentes em veículos de imprensa como The Economist, Financial Times e Wall Street Journal, entre outros, mas sempre foram desmentidas pela realidade, pois o apocalipse previsto nunca chegou à China nos últimos 40 anos. A capacidade de gestão do governo chinês, que não é presa aos dogmas do neoliberalismo, tem enfrentado as mudanças do ciclo econômico de forma criativa e eficiente, pois sabemos que as crises são inerentes ao sistema econômico de mercado e que é preciso administrá-las com muita técnica e ciência. Vale lembrar que a crise da empresa Evergrande, que seria o "Armagedom" da economia chinesa, não provocou o tsunami econômico ansiado pela imprensa econômica ocidental, como a crise imobiliária nos Estados Unidos.
Recentemente, a revista americana Foreign Affairs fez mais uma previsão catastrófica, ao sustentar que a China está no epicentro de uma nova crise econômica global prestes a eclodir. Seu argumento é que o modelo chinês de expansão ilimitada da capacidade produtiva -- abrangendo os segmentos de alta, média e baixa tecnologia -- estaria saturando o mercado, tanto internamente quanto internacionalmente, desencadeando, assim, uma crise econômica global.
Este argumento é falacioso, pois desconsidera os ganhos de produtividade da economia chinesa e esconde que a crise do comércio internacional se deve, principalmente, ao protecionismo da maior economia do mundo e aos seus impactos nas regras internacionais estabelecidas pela Organização Mundial do Comércio. Adicionalmente, é preciso ressaltar a hipocrisia deste tipo de discurso, pois ele está em contradição com os princípios liberais defendidos por Foreign Affairs, The Economist e Financial Times, que sempre defenderam o livre comércio, particularmente quando as vantagens competitivas e tecnológicas pendiam em favor das potências ocidentais.
Atualmente, a produção chinesa é altamente competitiva em setores de alta tecnologia, como veículos, equipamentos de geração de energia elétrica, infraestrutura de telecomunicações, aviões civis e militares, construção naval, robótica, aço, produtos químicos, entre outros. A produção chinesa reúne três condições essenciais para o aumento da produtividade: um grande mercado interno, uso intensivo de novas tecnologias e ganhos de escala. Isso pode ser observado no setor automobilístico ao compararmos a produção de veículos entre a China, o Japão e a Alemanha.
Em 2025, a indústria automobilística da China produziu cerca de 34,53 milhões de veículos, registrando crescimento de aproximadamente 10,4% em relação ao ano anterior e consolidando sua liderança absoluta no mercado global. Dessa produção recorde, o país exportou entre 7 e 8,3 milhões de unidades para o exterior (dependendo da associação que compila os dados, como a CAAM ou a CPCA), alcançando também o patamar de maior exportador automotivo do mundo. Ou seja, a China exportou cerca de 22% de sua produção, especialmente de veículos elétricos e híbridos plug-in. Vale destacar que os veículos de novas energias representaram 45% do total fabricado na China.
Em contraste, a produção interna de automóveis no Japão totalizou 8.410.232 unidades, das quais 4.172.815 foram exportadas, o que corresponde a 49,61% da produção. Já a Alemanha, que produziu 4.151.800 veículos, exportou 3.174.900 carros, o que significa que aproximadamente 76,5% de toda a produção automobilística alemã foi destinada à exportação. Quando observamos estes dados, verificamos que, em termos relativos, as exportações japonesas representaram o dobro das da China, enquanto as da Alemanha representaram quase três vezes mais. No entanto, não se fala em excesso de capacidade nesses países.
Vale destacar que a tecnologia embarcada nos veículos da China está transformando o setor automobilístico em todo o mundo, especialmente na América Latina. Marcas chinesas, como BYD, Chery, Geely, GAC, GWM, Omoda e Jaecoo, estão se tornando cada vez mais conhecidas nas ruas, ofuscando outras tradicionais na região, como Ford, GM, VW, Fiat e Toyota. A competitividade dos carros chineses está no produto, que oferece um conjunto completo de conforto e tecnologia vendido a preços muito acessíveis. No Brasil, muitas empresas já instalaram fábricas, integrando o país às cadeias produtivas chinesas e compartilhando tecnologias e técnicas de produção.
Sem a produção competitiva da China, diversos projetos de infraestrutura seriam inviáveis, notadamente aqueles relacionados a novas tecnologias, como a expansão da oferta de energia limpa. Os painéis solares e os rotores eólicos chineses estão viabilizando a geração de energia limpa, bem como a criação de novas oportunidades de negócios e de emprego local.
As forças hegemônicas buscam mascarar suas debilidades ao apontar terceiros como responsáveis por elas. O desmonte das políticas de transição energética nos Estados Unidos, por exemplo, está deixando o país na retaguarda da revolução tecnológica em curso. O mercado mundial de caminhonetes de 2 toneladas movidas a óleo diesel está diminuindo devido à mudança de atitude do consumidor. As pessoas não deixarão de comprar esse tipo de veículo por motivos geopolíticos, mas porque suas necessidades e preferências estão mudando.
Esta analogia pode ser feita à luz das relações internacionais. A imposição da Doutrina Donroe, por exemplo, não garantirá aos países latino-americanos acesso a novos mercados nem a novas fontes de investimento e inovação. A coerção política para afastar e bloquear as relações da China com a América Latina está fadada ao fracasso. O relacionamento entre a China e nossa região baseia-se em fatos concretos, não em discursos vazios nem em condicionalidades que, historicamente, prejudicaram nosso desenvolvimento. Na prática, mesmo os governos de direita da região, alinhados ideologicamente com a direita norte-americana, estão avançando, a seu modo, nas relações comerciais e financeiras com a China.
Por fim, vale ressaltar que as previsões apocalípticas sobre a economia chinesa irão se esvair no ar, pois a realidade é um dado concreto. Os discursos podem fazer ruído, mas a prática ainda continua sendo o critério da verdade.
(Marcos Cordeiro Pires é professor de Economia Política da Universidade Estadual Paulista)
(As opiniões expressas neste artigo são do autor e não refletem necessariamente a posição da Agência de Notícias Xinhua)

