(Multimídia) Máquinas agrícolas da China ajudam a agricultura familiar brasileira a avançar rumo à mecanização e à digitalização -Xinhua

(Multimídia) Máquinas agrícolas da China ajudam a agricultura familiar brasileira a avançar rumo à mecanização e à digitalização

2026-09-10 18:20:31丨portuguese.xinhuanet.com
Estudantes da Universidade Agrícola da China apresentam drones agrícolas a agricultores brasileiros em uma fazenda em Apodi, no estado do Rio Grande do Norte, nordeste do Brasil, em 9 de setembro de 2026. (Xinhua/Wu Nian)

   Por Wang Yuyuan e Wu Hao, correspondentes da Xinhua

   Beijing/Brasília, 10 set (Xinhua) -- No semiárido do Rio Grande do Norte, no nordeste do Brasil, a colheitadeira chinesa já se tornou indispensável para o agricultor Diano, da comunidade de Apodi. O equipamento foi levado emprestado para uma feira de agricultura familiar em Natal, capital do estado. No dia seguinte, Diano já perguntava quando a máquina voltaria.

   Diano é um dos agricultores da região que se beneficiam com as máquinas agrícolas chinesas. Além dos equipamentos, tecnologias como internet das coisas (IoT), big data e inteligência artificial (IA) vêm chegando à agricultura familiar por meio da cooperação com equipes chinesas. Essas ferramentas ajudam os agricultores a reduzir a dependência das condições climáticas, tomar decisões com mais rapidez e precisão e, na prática, elevar a produtividade e a renda.

   Mais do que ampliar a produção, a cooperação vem se firmando como um espaço de intercâmbio bilateral no setor agrícola, ao mesmo tempo que favorece o cultivo de amizade entre os participantes chineses e brasileiros.

   MÁQUINAS CHINESAS GANHAM ESPAÇO NA AGRICULTURA FAMILIAR DO BRASIL

   Em setembro de 2021, uma delegação brasileira se encontrou em Beijing com a professora Yang Minli, da Universidade Agrícola da China (UAC), em busca de soluções de mecanização para pequenos e médios produtores.

   "Naquele encontro, percebi que a agricultura familiar é responsável por cerca de 70% dos alimentos consumidos pelos brasileiros. Diferentemente das grandes propriedades mecanizadas no Sul do país, muitos pequenos produtores das regiões Norte e Nordeste ainda não têm acesso a equipamentos adequados e dependem principalmente do trabalho manual", relembrou Yang.

   Com quase quatro décadas de experiência em mecanização agrícola, a professora viu na demanda brasileira uma oportunidade de cooperação concreta.

   Por iniciativa dela, em fevereiro de 2024 foi inaugurada, em Apodi, a primeira fazenda demonstrativa de cooperação em mecanização agrícola. O projeto colocou 31 máquinas chinesas em funcionamento na região.

   Na inauguração, mais de mil agricultores participaram das demonstrações de tratores e colheitadeiras de arroz. "Muitos nunca tinham visto tantos equipamentos de pequeno porte reunidos em um mesmo local. Eles subiam nas máquinas, tiravam fotos, faziam perguntas. A empolgação era geral", recordou Ni Xindong, pós-doutorando da UAC e responsável pela fazenda em Apodi.

   "A mecanização agrícola da China avançou em um contexto marcado por pequenas propriedades, áreas dispersas e grande diversidade de culturas. Por isso, muitas máquinas chinesas são menores, multifuncionais, mais flexíveis e têm menor custo operacional, que atendem melhor às necessidades de agricultores familiares brasileiros," explicou Ni.

   Para adaptar os equipamentos às práticas locais e aos sistemas de cultivo da região, a UAC enviou estudantes de pós-graduação para trabalhar diretamente nas propriedades, realizar pesquisas e orientar os produtores no uso das máquinas.

   "Atualmente temos cinco integrantes chineses trabalhando em Apodi: um pós-doutorando e quatro doutorandos", disse Ni, acrescentando que os conhecimentos técnicos e os recursos práticos da UAC chegam à agricultura local por meio da fazenda-piloto.

   Segundo dados da equipe do projeto, as 31 máquinas instaladas em Apodi já beneficiaram cerca de mil agricultores. O tempo de trabalho foi reduzido, em média, em 80%, enquanto a renda dos produtores aumentou entre 80% e 90%.

   BIG DATA E IA DÃO "CÉREBRO DIGITAL" ÀS FAZENDAS BRASILEIRAS

   Na Residência de Ciência e Tecnologia de Brasília, instalada na Universidade de Brasília (UnB), o professor Sérgio Sauer acompanha por uma tela dados que são atualizados continuamente.

   Com o apoio de uma plataforma agrícola digital desenvolvida pela China, ele consegue verificar, com poucos cliques, se as máquinas estão sendo usadas de forma eficiente, analisar a qualidade e a fertilidade do solo, acompanhar índices de umidade e até monitorar preços de mercado. As informações ajudam agricultores e técnicos a tomar decisões bem fundamentadas.

   Sauer observa que muitas das plataformas agrícolas digitais disponíveis no Brasil foram desenvolvidas para grandes áreas de monocultura e têm custos elevados. A realidade da agricultura familiar, porém, é bastante diferente: propriedades menores, menor grau de mecanização, terrenos variados e produção diversificada.

   "Nós acreditamos que o know-how chinês é um caminho possível para atender à demanda da agricultura familiar," avaliou.

   Em Apodi, a equipe de Ni já utiliza algoritmos de IA para auxiliar nas decisões sobre o cultivo de cana-de-açúcar e soja. A tecnologia ajuda a identificar os melhores momentos para determinadas operações agrícolas e permite planejar as atividades em conjunto com os produtores locais.

   Gláucia Back, dirigente do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e coordenadora de projetos de digitalização e IA voltados à agricultura familiar, visitou a China este ano. Durante a viagem, conheceu uma cooperativa de produção de arroz e trigo e observou de perto o uso de big data e IA no campo.

   "Essas tecnologias acompanham todas as etapas, desde o preparo do solo até o armazenamento dos alimentos. Isso é fundamental para a agricultura familiar brasileira e merece ser replicado, adaptado e desenvolvido de acordo com a nossa realidade", ressaltou.

   Para ela, o principal desafio no Brasil é o baixo nível de mecanização e conectividade em muitas áreas rurais. "Grande parte das tecnologias existentes ainda é voltada para o agronegócio de larga escala. Por isso, a experiência chinesa com pequenas propriedades e cultivos diversificados tem muito valor para nós", acrescentou.

   COOPERAÇÃO QUE VAI ALÉM DA TECNOLOGIA

   Durante a visita do presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva à China no ano passado, o então-ministro do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar do Brasil, Paulo Teixeira, disse que as Residências de Ciência e Tecnologia China-Brasil sobre Mecanização Agrícola Familiar trouxeram novas esperanças aos agricultores brasileiros.

   Após mais de dois anos de desenvolvimento, a iniciativa deixou de se limitar à introdução de máquinas e a demonstrações de campo. Hoje, as Residências de Ciência e Tecnologia China-Brasil sobre Mecanização Agrícola Familiar funcionam como uma plataforma de cooperação de longo prazo, reunindo testes de equipamentos, aperfeiçoamento técnico, formação de profissionais e pesquisa conjunta.

   Pesquisadores, professores e estudantes dos dois países participam das atividades cotidianas das Residências, realizando levantamentos, testando máquinas e promovendo treinamentos junto com agricultores.

   "Com base nas Residências, demos um passo adiante ao estabelecer, em parceria com o Instituto Nacional do Semiárido (INSA) do Brasil, o Laboratório Brasil-China de Mecanização e Inteligência Artificial na Agricultura Familiar." informou Ni, acrescentando que o acordo foi assinado sob testemunho dos chefes de Estado, o que evidencia que a prática em Apodi já transcendeu o âmbito de uma simples fazenda-modelo e se tornou parte essencial da cooperação agrícola e tecnológica bilateral.

   Para os participantes, o alcance da cooperação vai além dos equipamentos e dos indicadores de produtividade. A experiência está construindo uma ponte duradoura entre China e Brasil, dois importantes países do Sul Global, ao mesmo tempo que aproxima pesquisadores, técnicos e agricultores.

   Depois de quase dois anos de trabalho em Apodi, Ni manifestou que passou a enxergar a cidade como um novo lar. "Os parceiros que nos apoiam há tanto tempo e os agricultores que trabalham conosco deixaram de ser apenas participantes do projeto. Eles se tornaram parte da nossa família", disse.

   "Temos uma perspectiva muito boa dessa transferência de tecnologia, mas é muito mais do que uma transferência de tecnologia, é quase uma solidariedade com a agricultura familiar brasileira, que possibilita a gente avançar neste campo também," disse Gláucia Back.

   "A experiência acumulada pela China no apoio aos pequenos agricultores tem valor concreto para a agricultura familiar brasileira", concluiu Ni. "Acredito que a cooperação técnica agrícola entre China e Brasil poderá beneficiar um número cada vez maior de famílias de agricultores."

Ni Xindong, pós-doutorando da Universidade Agrícola da China, apresenta uma plataforma de big data para a produção agrícola na Residência de Ciência e Tecnologia de Brasília na Universidade de Brasília, na capital do Brasil, em 21 de dezembro de 2024. (Foto fornecida pelo entrevistado)
Estudantes chineses e brasileiros realizam uma pesquisa sobre as necessidades da agricultura familiar junto a agricultores locais na fazenda demonstrativa de cooperação em mecanização agrícola em Apodi, no estado do Rio Grande do Norte, nordeste do Brasil, em 9 de setembro de 2026. (Xinhua/Wu Nian)

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