
Homens armados leais ao grupo Houthi participam de uma manifestação tribal armada em apoio à retomada de ataques contra navios israelenses, em Sanaa, Iêmen, em 11 de março de 2025. (Foto de Mohammed Mohammed/Xinhua)
Por Murad Abdo
Sanaa, 21 jul (Xinhua) -- A declaração feita na segunda-feira pelo grupo Houthi do Iêmen, impondo um bloqueio marítimo ao transporte de cargas sauditas, gerou novas preocupações sobre a segurança no Mar Vermelho, um dos corredores comerciais mais movimentados do mundo.
A medida ocorreu após uma forte escalada de tensão desencadeada na semana passada por uma disputa em torno do Aeroporto Internacional de Sanaa, controlado pelos Houthis. O governo do Iêmen, reconhecido internacionalmente, atacou a pista do aeroporto para impedir o pouso de uma aeronave iraniana que transportava uma delegação Houthi de alto escalão, que retornava das cerimônias fúnebres do falecido Líder Supremo do Irã, Ali Khamenei. Os Houthis culparam a Arábia Saudita e lançaram mísseis e drones contra o reino, alertando que instalações petrolíferas sauditas estratégicas poderiam se tornar alvos.
Embora o impacto prático do bloqueio marítimo permaneça incerto, ele reacendeu questões sobre a segurança da navegação no Mar Vermelho, as exportações de energia sauditas e se a crise mais recente poderia testar a reaproximação entre Riad e Teerã.

Fumaça sobe após ataques aéreos ao Aeroporto Internacional de Sanaa, em Sanaa, Iêmen, em 13 de julho de 2026. A emissora Al-Masirah, controlada pelos Houthis, disse que a Arábia Saudita realizou os ataques aéreos. (Centro de Mídia Houthi/Divulgação via Xinhua)
FOCO NA NAVEGAÇÃO NO MAR VERMELHO
Ainda não se sabe se os Houthis conseguirão fazer valer a declaração, mas o anúncio renovou a atenção sobre a importância estratégica das rotas de exportação da Arábia Saudita no Mar Vermelho.
Riad depende de seu Oleoduto Leste-Oeste, que se estende dos campos de petróleo do leste até o porto de Yanbu, no Mar Vermelho, para exportar petróleo bruto, contornando o Estreito de Ormuz, onde a navegação foi amplamente interrompida devido às tensões entre o Irã e os EUA.
Cerca de 75% das exportações diárias de petróleo bruto da Arábia Saudita foram desviadas para Yanbu, segundo a empresa de dados marítimos Kpler.
"Se o próprio Mar Vermelho se tornar um palco de confronto prolongado, o valor estratégico dessa rota alternativa inevitavelmente diminuirá", disse Khalil Alomary, presidente do Fórum Iemenita-Europeu.
"A questão vai além das exportações de petróleo da Arábia Saudita", disse Alomary, alertando que uma instabilidade prolongada poderia aumentar os custos de transporte, perturbar as cadeias de suprimentos globais e exercer uma pressão de alta adicional sobre os mercados de energia.

Captura de tela de um vídeo de 6 de março de 2024 mostra o porta-voz militar Houthi, Yahya Sarea, fazendo uma declaração em Sanaa, no Iêmen. (Xinhua)
VINCULADO A UM CONTEXTO MAIS AMPLO
Além da segurança marítima, analistas dizem que a escalada dos Houthis deve ser vista dentro do cenário regional mais amplo, uma vez que o Irã já sinalizou anteriormente que poderia pedir aos seus aliados Houthis que fechassem o Estreito de Bab el-Mandeb, a entrada sul do Mar Vermelho, caso Washington intensificasse seus ataques contra Teerã.
Abdullah Daubalah, analista político iemenita, disse que o momento dessa ação não pode ser dissociado do confronto mais amplo entre os EUA e o Irã.
"Exercer pressão sobre as exportações de energia da Arábia Saudita também aumenta a pressão sobre os mercados globais de energia, em um momento em que o próprio Irã enfrenta desafios econômicos e militares crescentes (por parte dos Estados Unidos)", disse Daubalah.
Em outra perspectiva, Hussain al-Bukhaiti, analista político sediado em Sanaa, rejeitou a ideia de que a decisão dos Houthis tenha sido motivada por Teerã, dizendo que ela decorreu do próprio conflito do grupo com a Arábia Saudita.
Analistas também observaram que esse desdobramento recente pode se tornar mais um teste para a reaproximação entre a Arábia Saudita e o Irã, que restabeleceram relações em 2023 com a mediação da China.
"A restauração das relações diplomáticas (entre a Arábia Saudita e o Irã)... amenizou significativamente as tensões em toda a região", disse Alomary. "Mas qualquer escalada sustentada contra os interesses sauditas colocaria esses entendimentos sob forte pressão".

Homem observa uma casa destruída em um ataque aéreo em Sanaa, Iêmen, em 9 de abril de 2020. (Foto de Mohammed Mohammed/Xinhua)
SEM GUERRA EM GRANDE ESCALA, MAS RISCOS AUMENTAM
A coalizão liderada pela Arábia Saudita no Iêmen disse, na noite de segunda-feira, que tomaria as medidas necessárias para proteger suas embarcações comerciais no Estreito de Bab el-Mandeb e responderia com firmeza a quaisquer ameaças dos Houthis.
Apesar da retórica de confronto, especialistas dizem que nenhum dos lados parece buscar uma guerra em grande escala, embora a margem para erros de cálculo esteja diminuindo.
"A Arábia Saudita tem muito mais a perder com um conflito mais amplo do que os Houthis", disse Muqbil Naji, analista político baseado em Áden.
"A resposta de Riad na última semana sugere que o país continua focado em conter a crise, em vez de ampliá-la. Mesmo após ataques com mísseis ao seu território, o país demonstrou moderação e continuou mantendo as portas abertas para soluções políticas", disse Naji.
Os Houthis parecem determinados a elevar gradualmente o custo do confronto, e o "objetivo imediato do grupo é fortalecer sua capacidade de pressão, em vez de buscar um desfecho militar decisivo", acrescentou ele.
"Se esse equilíbrio se mantiver, determinará se a crise atual permanecerá um confronto limitado ou se transformará em um desafio de segurança regional mais amplo", disse o analista.








