Por que os americanos continuam elegendo políticos que não cumprem o que prometem?-Xinhua

Por que os americanos continuam elegendo políticos que não cumprem o que prometem?

2026-07-10 11:18:44丨portuguese.xinhuanet.com

Foto tirada em 7 de junho de 2026 mostra uma placa de "Pare" com o Capitólio dos EUA ao fundo, em Washington, D.C., Estados Unidos. (Xinhua/Li Rui)

"Quando os políticos estão mais focados em impedir uma vitória do partido de oposição do que em melhorar a vida dos americanos, quem perde são os cidadãos comuns", disse a ex-senadora dos EUA, Kyrsten Sinema.

Washington, 8 jul (Xinhua) -- Com o início das eleições primárias de meio de mandato de 2026 nos EUA, os candidatos disputam a indicação de seus partidos prometendo soluções para alguns dos maiores desafios do país.

Para muitos eleitores, no entanto, essas promessas soam surpreendentemente familiares. Eleição após eleição, os americanos vão às urnas esperando vidas melhores, salários mais altos e ruas mais seguras. Contudo, repetidas vezes, as promessas não se concretizam após a apuração dos votos.

Pode-se chamar isso de política do "você vota, eu não entrego", um padrão que se estende de Washington às prefeituras de todo o país. Por que os políticos continuam vencendo com promessas não cumpridas?

Motorista abastece carro em um posto de gasolina em Arcadia, Condado de Los Angeles, Califórnia, Estados Unidos, em 30 de abril de 2026. (Foto de Qiu Chen/Xinhua)

FATOR DINHEIRO

Embora os eleitores americanos possam depositar seus votos em busca de uma vida melhor, a máquina eleitoral permanece invariavelmente refém do grande capital.

Na década de 1890, o ex-senador americano Mark Hanna disse: "Há duas coisas importantes na política. A primeira é o dinheiro, e não consigo me lembrar qual é a segunda".

As eleições nos EUA se tornaram extraordinariamente caras. Apenas a eleição de 2024 custou cerca de 15,9 bilhões de dólares americanos, segundo a OpenSecrets, um valor aproximadamente equivalente ao pagamento de mais de 200 mil professores da rede pública durante um ano.

Grande parte desse dinheiro provém de uma parcela ínfima da população. Após 2010, a participação do 1% dos maiores doadores no total de contribuições subiu de cerca de 7,4% para 20,1%, de acordo com uma pesquisa da Universidade Erasmus, na Holanda.

O acesso ao poder tende a acompanhar o dinheiro. Uma vez eleitos, os políticos frequentemente mantêm laços mais estreitos com grandes doadores e lobistas do que com os eleitores comuns.

No entanto, enquanto os gastos de campanha continuam disparando, a crise do custo de vida deixa as pessoas comuns se sentindo financeiramente pressionadas.

"Quando você paga pelas compras de mercado, lá se vai todo o salário de uma semana de trabalho", disse à Bloomberg Nick Marsh, gerente de um restaurante em Atlanta, capital da Geórgia.

Enquanto os gastos de campanha batem recordes e os orçamentos familiares ficam mais apertados, as eleições nos EUA continuam recompensando a política das promessas em detrimento da política de resultados concretos.

Homem em situação de rua deitado em uma calçada em São Francisco, Estados Unidos, em 31 de dezembro de 2025. (Foto de Zhu Ziyu/Xinhua)

RECOMPENSANDO PROMESSAS VAZIAS

Toda eleição é, em parte, uma disputa para convencer os eleitores de que o status quo é inaceitável e que apenas um candidato pode consertá-lo.

Pesquisadores da Universidade de Washington observaram que fazer promessas exageradas é "uma prática comum em todo o espectro político e em todos os níveis de governo".

"A campanha política não é uma discussão sobre políticas alternativas... É uma performance altamente ritualística e dramática", disse Murray Edelman, professor de ciência política da Universidade de Illinois.

Propostas como o "Medicare para Todos" se tornaram mensagens de campanha poderosas, apesar de terem poucas chances de serem aprovadas pelo Congresso. Dinâmicas semelhantes puderam ser observadas nas promessas de Trump de encerrar o conflito na Ucrânia "logo no primeiro dia" e na promessa do vereador de Nova York, Zohran Mamdani, de oferecer transporte gratuito de ônibus.

Ciclos repetidos de grandes promessas e resultados limitados têm contribuído para a exaustão política. John, um profissional da área financeira de 29 anos da Pensilvânia, disse que não votou na eleição presidencial de 2024.

"Qual é o sentido (de votar)? Tirando algumas poucas questões usadas como arma política, os partidos são praticamente idênticos. Ambos odeiam os pobres e servem apenas aos seus doadores", disse John ao jornal britânico Guardian.

À medida que os moderados se afastam, a política privilegia o espetáculo em detrimento dos resultados. Promessas não cumpridas já não são punidas automaticamente. Elas são, cada vez mais, filtradas pela identidade partidária antes de chegarem às urnas.

Criança segura cartaz em um protesto contra ataques dos EUA e de Israel ao Irã, em frente à Prefeitura de Los Angeles, na Califórnia, nos EUA, em 7 de março de 2026. (Foto de Qiu Chen/Xinhua)

QUEM PRECISA DE RESULTADOS?

O paradoxo é impressionante: quanto menor a probabilidade de promessas ambiciosas serem cumpridas, com mais paixão muitos eleitores defendem os políticos que as fazem. Em uma era de profunda polarização partidária, as eleições se tornaram tanto uma disputa de identidade quanto de políticas públicas.

Especialistas descrevem essa mudança como polarização afetiva, uma forma de divisão impulsionada menos por discordâncias políticas do que pelo apego emocional ao próprio campo político e pela crescente desconfiança em relação ao outro.

"Em essência, estamos agindo mais como torcedores de um time de futebol indo a uma partida do que como um banqueiro escolhendo investimentos com cautela", disse Lilliana Mason, professora de ciência política da Universidade Johns Hopkins.

Eitan Hersh, professor de ciência política da Universidade Tufts, argumenta que o "hobbyismo político" está em ascensão, com cidadãos consumindo política de forma semelhante a esportes ou entretenimento, em vez de encará-la como um meio de influenciar políticas públicas.

"Na política de atalhos, no hobbyismo, o objetivo é a emoção", disse Hersh.

À medida que a política se torna mais complexa, muitos eleitores dependem cada vez mais de sinais partidários de confiança, em vez de avaliar de forma independente as propostas concorrentes.

"É mais fácil para os eleitores recorrerem a elites políticas de confiança para que elas sintetizem as informações", disse Dona-Gene Barton, professora associada da Universidade de Nebraska-Lincoln, em entrevista ao HuffPost.

As campanhas negativas reforçaram essa tendência. Em vez de persuadir eleitores indecisos, as campanhas buscam cada vez mais mobilizar apoiadores ao enfatizar os perigos representados pelo partido adversário.

A ex-senadora dos EUA, Kyrsten Sinema, resumiu bem o dilema: "Quando os políticos estão mais focados em impedir uma vitória do partido de oposição do que em melhorar a vida dos americanos, quem perde são os cidadãos comuns".

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