Comunidade Ásia-Pacífico: Lendo "qiaopi" -- Lembranças por meio de correspondências dos primeiros sino-australianos-Xinhua

Comunidade Ásia-Pacífico: Lendo "qiaopi" -- Lembranças por meio de correspondências dos primeiros sino-australianos

2026-07-02 11:20:40丨portuguese.xinhuanet.com

Gordon Mar (direita) mostra fotos dos fundadores da Wing Sang & Co. a Shuxia Chen no Museu dos Chineses na Austrália, em Sydney, Austrália, em 25 de junho de 2026. (Xinhua/Gong Bing)

Sydney, 30 jun (Xinhua) -- Gordon Mar, 89 anos, desdobrou cuidadosamente o papel amarelado, mas as palavras não revelaram seu significado. Sino-australiano nascido em Sydney e educado em inglês, ele não conseguiu decifrar as letras escritas com os traços firmes de pincel de seus antepassados.

As cartas foram recuperadas de uma pilha de objetos antigos que foram descartados, relíquias da centenária empresa Wing Sang & Co., quando essa se mudou do bairro chinês de Haymarket, em Sydney, para outro local. Mar as guardou, sem saber exatamente o motivo, mas achando que não deveria ser jogado fora.

Só recentemente ele descobriu que se tratava: "qiaopi", as cartas e remessas de dinheiro que os chineses não exteriormente enviavam às suas famílias, além das respostas que recebiam de casa.

Com o sucesso do filme chinês "Dear You" ("Querido Você", em tradução livre), uma história emocionante centrada no conceito de "qiaopi", atualmente em cartaz nos cinemas australianos, esses arquivos reconhecidos pela UNESCO se tornaram assunto de conversa na comunidade chinesa local.

"Esta carta foi escrita por Wing Chan Ma, um dos fundadores de Wing Sang, para o seu avô, Sun Gee Mar", explicou a Dra. Shuxia Chen a Mar. Chen é professora sênior da Escola de Arte e Design da Universidade de Nova Gales do Sul (NSW, na sigla em inglês) e curadora da exposição inaugural do Museu dos Chineses na Austrália.

Ela apontou para o texto, enquanto o lia lentamente. "Ele era um membro mais velho do clã, vindo da mesma aldeia, e escreveu ao sobrinho, então gerente-assistente na Wing Sang, para recomendar um jovem de sua aldeia natal, na província de Guangdong, para trabalhar na empresa. ‘Talentoso e habilidoso’, escreveu ele sobre o rapaz".

Chen explicou que, embora o termo "qiaopi" seja usado principalmente nas regiões culturais e linguísticas de Chaoshan (Teochew) e do sul de Fujian, no sul da China, entre os sino-australianos falantes de cantonês, a maioria proveniente da área de Wuyi (Cinco Distritos), em Guangdong, essas cartas eram mais conhecidas como "jinxin" (cartas de ouro) ou "yinxin" (cartas de prata); nomes que refletiam mais diretamente sua dupla natureza: a de correspondência e a de remessa de dinheiro.

Segundo Chen, muitos dos primeiros imigrantes chineses chegaram à Austrália em busca de ouro. Por isso, alguns desses jinxin realmente continham pó de ouro ou moedas de ouro, confiadas a viajantes que retornavam para que as levassem às suas cidades natais.

À medida que a demanda por serviços de remessa crescia, comerciantes sino-australianos, como Wing Sang e Kwong War Chong, e associações empresariais chinesas ofereceram serviços de jinxin e yinxin por meio de suas redes de comércio internacional e sistemas financeiros.

Um exemplo notável foi a loja de departamentos Sincere, da Wing Sang, em Shanghai. Inaugurada em 1917 como uma das primeiras lojas de departamentos modernos da China, a Sincere também oferecia serviços de seguros e remessas, funcionando efetivamente como uma extensão nacional da rede de yinxin.

Mar constatou que, embora o serviço de yinxin nunca tenha sido a atividade principal da Wing Sang, ele representava uma parte significativa das operações da empresa. "Era essencial porque servia como ponto de contato", disse ele. "Nós, assim como outros comerciantes, servimos de referência para os muitos trabalhadores chineses que viviam em uma comunidade de maioria branca, trabalhando, economizando salários e enviando remessas. A Wing Sang era um lugar onde era possível falar a própria língua e os dialetos da própria aldeia; um lugar onde se era bem-vindo".

O professor Liu Jin, diretor do Instituto de Estudos sobre Chineses no Exterior e Estudos Regionais da Universidade de Wuyi, dedica-se há mais de duas décadas ao estudo dessas cartas de remessa. Sua pesquisa revelou que, embora as comunidades chinesas na Austrália tenham adotado sistemas financeiros modernos para remessas muito antes daquelas do Sudeste Asiático, o conteúdo das cartas era notavelmente semelhante: histórias do cotidiano e das pequenas coisas que mantinham as famílias unidas através do oceano.

"Cada palavra enviada de volta, cada centavo remetido", disse Liu, "era uma expressão de emoção genuína, assim como no filme".

As cartas traziam notícias da família. Em uma delas, o imigrante sino-australiano Yuan Yeli instruiu seu filho a reservar parte da remessa de dinheiro para as mensalidades escolares. Ele também incentivou a esposa a buscar educação: "Comece a estudar na escola para mulheres o mais rápido possível. Foque no aprendizado e você naturalmente evoluirá... No seu tempo livre, ensine escrita, matemática e chinês à sua irmã mais nova em casa. Faça isso todos os dias, sem falta".

Outras cartas tratavam de assuntos mais graves. Em 1936, Kuang Xiulu, um imigrante em Broome, na Austrália Ocidental, escreveu aos filhos no distrito de Taishan: "O mundo está em caos. Muitas nações estão acumulando armas e se preparando para a guerra. Uma segunda guerra mundial é iminente. Essa guerra será travada no Extremo Oriente, e a China estará no centro dela. O campo de batalha será em solo chinês".

"Todos os chineses devem permanecer unidos. Não podemos permitir que potências estrangeiras continuem oprimindo a China", disse ele.

"As histórias pessoais, os detalhes do cotidiano, as dificuldades, tudo isso pode parecer trivial para os historiadores", disse Chen. "Mas, para as pessoas que as escreveram e para as que as receberam, essa era a vida delas".

Essas cartas revelam padrões e experiências compartilhadas, oferecendo aos historiadores uma janela importante para a vida dos chineses no exterior durante uma determinada época, acrescentou ela.

"Ler essas cartas é entender como os primeiros imigrantes chineses se aventuraram corajosamente pelo mundo", disse Liu, "e como eles teceram uma rede de família, cultura e comércio que conectava a China ao restante do mundo".

Preservar essas cartas é "importante para a próxima geração e para as que virão depois", disse Mar, "porque isso preserva algo da sua herança e do seu passado".

Gordon Mar mostra cartas antigas que preservou no Museu dos Chineses na Austrália, em Sydney, Austrália, em 25 de junho de 2026. (Xinhua/Gong Bing)

Shuxia Chen fala durante uma entrevista à Xinhua no Museu dos Chineses na Austrália, em Sydney, Austrália, em 25 de junho de 2026. (Xinhua/Gong Bing)

Gordon Mar mostra cartas antigas que preservou no Museu dos Chineses na Austrália, em Sydney, Austrália, em 25 de junho de 2026. (Xinhua/Gong Bing)

Shuxia Chen fala durante uma entrevista à Xinhua no Museu dos Chineses na Austrália, em Sydney, Austrália, em 25 de junho de 2026. (Xinhua/Gong Bing)

Foto tirada em 25 de junho de 2026 mostra cartas antigas preservadas por Gordon Mar no Museu dos Chineses na Austrália, em Sydney, Austrália. (Xinhua/Gong Bing)

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