Porcelana chinesa de naufrágio em águas profundas lança luz sobre comércio entre Europa e Ásia no século 18-Xinhua

Porcelana chinesa de naufrágio em águas profundas lança luz sobre comércio entre Europa e Ásia no século 18

2026-06-27 13:14:35丨portuguese.xinhuanet.com

Foto tirada em 9 de maio de 2026 mostra peças de porcelana chinesa recuperadas de um naufrágio no Estreito de Skagerrak, ao sul da Noruega. (Sindre Kinnerod/Divulgação via Xinhua)

Para os pesquisadores, o achado não é apenas uma descoberta arqueológica espetacular em águas profundas, mas também uma cápsula do tempo que pode ajudar a explicar como mercadorias da China, do norte da Europa e, possivelmente, da região do Báltico convergiram em um único sistema de comércio marítimo.

Oslo, 25 jun (Xinhua) -- A cerca de 600 metros abaixo da superfície do Estreito de Skagerrak, ao sul da Noruega, grandes quantidades de porcelana chinesa permaneceram em repouso por mais de dois séculos dentro de um navio mercante do século 18.

Agora, arqueólogos marítimos noruegueses estão trazendo partes da carga do navio de volta à vista do público, abrindo uma janela rara para o fluxo de porcelana chinesa em direção à Europa e para o papel desse produto no consumo e nas redes comerciais do século 18.

Conhecido pelos pesquisadores como o "Naufrágio da Porcelana", o sítio arqueológico subaquático contém porcelana chinesa, taças e garrafas de vidro, fragmentos de lustres, grãos, têxteis e outros materiais orgânicos. Alguns objetos recuperados foram colocados em exposição no Museu Marítimo da Noruega, em Oslo.

Para os pesquisadores, o achado não é apenas uma descoberta arqueológica espetacular em águas profundas, mas também uma cápsula do tempo que pode ajudar a explicar como mercadorias da China, do norte da Europa e, possivelmente, da região do Báltico convergiram em um único sistema de comércio marítimo.

NAUFRÁGIO RARO EM ÁGUAS PROFUNDAS

O naufrágio foi descoberto por Espen Saastad, um designer de relógios de Porsgrunn, no sudeste da Noruega, que também opera uma pequena empresa de levantamento do fundo do mar e de veículos operados remotamente (ROVs, na sigla em inglês).

Foto tirada em 14 de janeiro de 2026 mostra porcelana chinesa em um naufrágio no Estreito de Skagerrak, ao sul da Noruega. (Espen Saastad/Divulgação via Xinhua)

Saastad relembrou a primeira vez que ele e a equipe do museu se aproximaram dos destroços com um ROV. "Vimos muitos itens brancos", disse ele à Xinhua. "Quando chegamos bem perto dos destroços, vimos todos aqueles pratos, xícaras, jarra e as peças de cristal dos lustres".

Saastad contou que logo suspeitaram que os objetos fossem de porcelana chinesa. "Foi uma experiência fantástica no barco, e todos estavam muito empolgados".

Frode Kvalo, arqueólogo marítimo do Museu Marítimo da Noruega e líder do projeto "Naufrágio da Porcelana", disse que o trabalho está sendo realizado em etapas. A primeira tarefa é entender quais tipos de materiais, mercadorias e equipamentos do navio permanecem no local, além de sua distribuição, antes que uma escavação completa possa ser planejada.

Segundo o museu, acredita-se que os destroços pertençam a um navio mercante do século 18 que estava totalmente carregado. Com base nas observações feitas até agora, a embarcação parece ter tido uma popa arredondada e pode ter sido uma galiota, um tipo de navio mercante característico do norte da Europa. Os destroços medem cerca de 22 metros de comprimento e incluem os restos de dois mastros.

Até o momento, os pesquisadores identificaram grandes quantidades de porcelana chinesa, peças de lustres, taças de vidro, garrafas e barris de grãos. Caixotes encontrados no local podem conter tecidos e materiais orgânicos, possivelmente incluindo chá, ervas ou medicamentos.

Um tijolo recuperado da cozinha do navio traz o selo da Luebecker Ratsziegelei, uma fábrica de tijolos na cidade alemã de Lübeck que operou do século 15 até 1772.

Kvalo destacou que a importância do naufrágio está em seu bom estado de conservação, na alta qualidade dos objetos e na composição incomum da carga, que reúne porcelana chinesa, artigos de vidro do norte da Europa, lustres, grãos, tecidos e outros materiais orgânicos.

A profundidade também torna o projeto significativo. Kvalo observou que arqueólogos noruegueses não haviam trabalhado anteriormente em um naufrágio em mar aberto a uma profundidade de 600 metros, e que trabalhos arqueológicos nessa profundidade nunca haviam sido realizados no norte da Europa.

Muitas perguntas permanecem sem resposta. Os pesquisadores ainda não sabem de onde o navio vinha, para onde se dirigia, por que afundou ou o que aconteceu com a tripulação. Como a embarcação parece ter transportado uma carga valiosa, Kvalo disse que podem existir registros históricos relacionados à sua perda, incluindo listas alfandegárias, registros de seguros e outros arquivos.

PORCELANA CHINESA E O COMÉRCIO DO SÉCULO 18

Entre as descobertas que mais chamam a atenção está a porcelana. Grande parte dela é porcelana chinesa azul e branca. Algumas peças são do tipo Batavia ware, com o exterior esmaltado em marrom e decoração azul e branca no interior. Algumas podem ser do tipo Blanc de Chine, uma variedade de porcelana branca.

Foto tirada em 29 de maio de 2026 mostra porcelana chinesa em um naufrágio no Estreito de Skagerrak, ao sul da Noruega. (Espen Saastad/Divulgação via Xinhua)

Knut Myrer, especialista em arte e antiguidades asiáticas radicado em Oslo e membro de longa data de uma sociedade dedicada à cerâmica oriental, estava entre os visitantes que observavam os objetos recuperados no museu. Diante da exposição, ele disse à Xinhua que a porcelana parece ser típica de peças de exportação chinesas fabricadas para o mercado europeu, datando provavelmente de um período entre 1745 e 1760.

Especialistas em cerâmica chinesa de Jingdezhen, cidade há muito conhecida como a "capital da porcelana" da China, também acompanharam a descoberta arqueológica e ofereceram uma avaliação mais detalhada após examinarem imagens das peças.

Weng Yanjun, diretor do Museu e Instituto do Forno Imperial de Jingdezhen, disse que o estilo das peças de porcelana azul e branca se assemelha ao de exemplares do período Qianlong presentes no banco de dados de cerâmicas antigas de Jingdezhen.

Segundo Weng, a chamada Batavia ware constituía uma categoria importante de porcelana de exportação encomendada por países europeus a Jingdezhen. Pratos pequenos e tigelas com decoração azul e branca e esmalte marrom eram frequentemente usados para servir café e chá.

Myrer observou que a porcelana chinesa era utilizada na Europa para o consumo de chá, café e chocolate. Grandes quantidades de chá chinês foram exportadas para a Europa no século 18; pinturas da época retratam pessoas bem-vestidas bebendo chá em peças de porcelana chinesa, acrescentou ele.

Para Myrer, a descoberta evidencia a influência global da porcelana chinesa no século 18 e seu papel na cultura de consumo europeia. Enquanto os lustres representavam artigos de alto status associados à elite, a porcelana chinesa era cada vez mais adotada pela classe média emergente, disse ele.

CONSERVAÇÃO, PESQUISA E COOPERAÇÃO

O Museu Marítimo da Noruega trabalha atualmente em novas etapas de pesquisa, conservação e exposição ao público.

Sven Ahrens, curador sênior e diretor de pesquisa e gestão do patrimônio do museu, disse que a prioridade imediata é dar continuidade ao trabalho de campo durante o verão, aproveitando as condições climáticas favoráveis. A equipe espera recuperar mais objetos que possam ser exibidos ao público.

Tanto Ahrens quanto Kvalo esperam colaborar com especialistas chineses no futuro, especialmente após a recuperação de mais artefatos. Weng também mencionou a possibilidade de cooperação entre a China e a Noruega nas áreas de restauração, comparação de sítios de fornos, análises científicas e documentação digital.

Kvalo informou que, até o momento, apenas um número limitado de objetos foi resgatado, incluindo xícaras e pratos, enquanto muitos outros permanecem no leito marinho. "Quando concluirmos a escavação, haverá possibilidade de trazer especialistas estrangeiros, inclusive da China, para estudar os achados", disse ele.

Ele também elogiou a experiência da China em arqueologia de águas profundas, destacando que o país já realizou trabalhos arqueológicos subaquáticos a cerca de 1.500 metros de profundidade.

Foto aérea tirada em 30 de maio de 2023 mostra o submersível Shenhai Yongshi mergulhando para realizar uma investigação subaquática no Mar do Sul da China. (Foto de Li Duojiang/Xinhua)

Os objetos recuperados estão passando por trabalhos de conservação, incluindo a dessalinização.

A Direção Norueguesa de Patrimônio Cultural destinou 2,9 milhões de coroas norueguesas (293.000 dólares americanos) para apoiar o projeto. Pesquisadores dizem que esse valor está longe de ser suficiente para uma escavação completa.

O museu está elaborando o plano e o orçamento do projeto. Caso consiga mais financiamento governamental, a instituição espera utilizar uma embarcação maior e realizar uma escavação completa nos próximos anos.

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