Rio de Janeiro, 26 jun (Xinhua) -- Um estudo baseado em sedimentos preservados em uma caverna no Paraná revelou que as chuvas extremas registradas no sul do Brasil durante o século XX estiveram entre as mais frequentes dos últimos 7,5 mil anos e estão associadas a fatores como mudanças climáticas na Antártida e eventos El Niño.
Segundo Julio Cauhy, geólogo e autor principal do estudo, os registros instrumentais geralmente abrangem apenas os últimos cem anos, enquanto as estalagmites da Caverna do Malfazido forneceram um registro contínuo e de alta resolução, permitindo reconstruir a frequência desses eventos ao longo de um passado remoto.
As descobertas surgem em meio a uma alta probabilidade de ocorrer um evento El Niño de intensidade moderada a forte nos próximos meses, de acordo com as previsões da Organização Meteorológica Mundial.
A pesquisa, realizada por cientistas brasileiros, foi divulgada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e publicada na revista científica Communications Earth & Environment.
Os pesquisadores identificaram 921 camadas de sedimentos depositadas por inundações ao longo de milênios.
O estudo concluiu que períodos com temperaturas de verão mais baixas na Antártida Ocidental tenderam a coincidir com uma maior frequência de precipitação extrema no sul do Brasil.
Segundo os cientistas, alterações no gradiente térmico entre as regiões polares e as latitudes médias podem modificar a circulação atmosférica, favorecendo a formação de frentes frias e o transporte de umidade da Amazônia para o sul do continente.
Os resultados também mostraram uma relação significativa, especialmente durante o último milênio, entre a ocorrência de chuvas extremas e eventos El Niño de intensidade moderada a forte, um fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento anômalo das águas do Oceano Pacífico equatorial.
As estalagmites funcionam como um arquivo natural, pois durante as inundações são cobertas por finas camadas de sedimentos, que são posteriormente preservadas pelo crescimento contínuo de depósitos minerais.
A análise mostrou um período de baixa frequência de eventos de chuva extrema entre 3 mil e 2 mil anos atrás.
Em contraste, os períodos entre 7,5 mil e 4 mil anos atrás, bem como o último milênio, mostraram uma maior recorrência desses eventos, especialmente durante o século XX.
Os autores argumentam que os resultados sugerem que o aquecimento global associado às atividades humanas pode contribuir para a intensificação recente desses eventos, reforçando a necessidade de adotar estratégias de mitigação e adaptação diante das mudanças climáticas, principalmente nas regiões mais vulneráveis.

