O que saber sobre a primeira rodada de negociações entre Irã e EUA na Suíça-Xinhua

O que saber sobre a primeira rodada de negociações entre Irã e EUA na Suíça

2026-06-24 10:51:29丨portuguese.xinhuanet.com

Edifício com uma placa referente às negociações entre Irã, Estados Unidos e mediadores é fotografado em Buergenstock, perto de Lucerna, na Suíça, em 22 de junho de 2026. (Xinhua/Lian Yi)

Apesar do progresso inicial alcançado na primeira rodada de negociações indiretas de alto risco entre o Irã e os Estados Unidos, vários riscos ameaçam inviabilizar o processo de paz, lançando dúvidas sobre a perspectiva de um acordo final abrangente.

Beijing, 22 jun (Xinhua) -- A primeira rodada de negociações indiretas de alto risco entre o Irã e os Estados Unidos, mediada pelo Paquistão e pelo Catar, foi concluída na manhã de segunda-feira na estância de montanha suíça de Buergenstock.

Os mediadores anunciaram resultados encorajadores na segunda-feira após as negociações, incluindo um roteiro de 60 dias para um acordo final, além de mecanismos para garantir a segurança da navegação comercial pelo Estreito de Ormuz e para encerrar os combates entre Israel e o Hezbollah, um aliado próximo do Irã no Líbano.

No entanto, há incertezas pela frente, especialmente em relação a um cessar-fogo duradouro no sul do Líbano, à reabertura a longo prazo do Estreito de Ormuz e à disputa não resolvida sobre o programa nuclear do Irã.

ACORDO EM MEIO A TENSÕES

As negociações, iniciadas no domingo, tiveram um começo conturbado, uma vez que o presidente dos EUA, Donald Trump, alertou as autoridades iranianas de que "vocês não terão um país" se a República Islâmica tentar fechar novamente o Estreito de Ormuz, sugerindo uma possível nova rodada de ataques contra o Irã, informou o canal de televisão americano Fox News.

Pouco depois do início das negociações, Trump emitiu outro aviso público, ameaçando atingir o Irã "muito duramente de novo" caso o país não impeça imediatamente o Hezbollah de atacar alvos dos EUA e de Israel na região.

As declarações provocaram uma resposta imediata do lado iraniano. A delegação iraniana se recusou a voltar para a mesa de negociações após a divulgação de ameaças dos EUA, informou a agência de notícias semioficial do Irã, Tasnim, citando uma autoridade iraniana.

No entanto, um diplomata dos EUA envolvido nas negociações apresentou outra versão, dizendo aos repórteres que os iranianos "permaneceram na reunião" e negociaram durante a noite assuntos que incluíam o Estreito de Ormuz, a situação no Líbano e questões nucleares.

Apesar do início conturbado, os dois lados chegaram a uma série de acordos, conforme detalhado em um comunicado conjunto divulgado pelo Catar e pelo Paquistão.

O comunicado descreveu a primeira rodada de negociações como "positiva e construtiva", dizendo que ambos os lados concordaram em criar um mecanismo para futuras negociações técnicas.

Ficou acordada a criação de um comitê de alto nível para supervisionar todo o esforço de mediação, com os principais negociadores liderando grupos de trabalho dedicados a questões nucleares e sanções, além de um grupo de monitoramento encarregado de garantir a implementação efetiva do memorando de entendimento de Islamabad e outras questões relevantes, segundo o comunicado.

Os dois lados também concordaram em estabelecer uma linha de comunicação para garantir a passagem segura de navios comerciais pelo Estreito de Ormuz e em criar uma célula de prevenção de conflitos focada em acabar com a violência no Líbano.

Além disso, as partes concordaram com um roteiro para alcançar um acordo final em até 60 dias, com novas negociações técnicas previstas para começar imediatamente na Suíça durante o restante da semana, segundo o comunicado.

REAÇÕES DAS PARTES ENVOLVIDAS

O anúncio de progresso aliviou as preocupações do mercado quanto à escassez no fornecimento global de petróleo, pressionando para baixo os preços internacionais da commodity. O petróleo Brent, referência global, era negociado pouco abaixo de 80 dólares americanos o barril às 08h15 GMT de segunda-feira.

O Irã, os Estados Unidos e os países mediadores fizeram avaliações positivas dos resultados iniciais.

O ministro das Relações Exteriores do Irã, Seyed Abbas Araghchi, disse na segunda-feira que a nova rodada de negociações gerou avanços para acabar com a violência no Líbano.

"(As restrições às) exportações de petróleo e produtos petroquímicos foram suspensas, o bloqueio foi suspenso, alguns ativos congelados foram liberados e um grande plano de reconstrução e desenvolvimento foi lançado para o Irã", disse ele em uma publicação na plataforma de rede social X.

No entanto, Araghchi ressaltou que a capacidade do mecanismo de mediação de interromper efetivamente os combates entre Israel e o Hezbollah servirá como o primeiro teste real do acordo. No mesmo dia, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmaeil Baghaei, anunciou "bons progressos" nas negociações entre as quatro partes na Suíça, segundo a rede de notícias iraniana Press TV.

Ele disse que equipes técnicas continuarão trabalhando na implementação do memorando de entendimento, com detalhes específicos a serem divulgados pelos países mediadores.

Na segunda-feira, o vice-presidente dos EUA, JD Vance, também reconheceu os avanços nas negociações, observando que o Estreito de Ormuz está aberto e que petróleo bruto e gás natural estão fluindo por ele.

"Queríamos criar um mecanismo para manter o Estreito de Ormuz aberto. Ele está aberto", disse Vance ao fazer declarações no resort suíço de Buergenstock, após conversas com negociadores iranianos.

O primeiro-ministro paquistanês, Shehbaz Sharif, disse na segunda-feira que a rodada mais recente de negociações entre o Irã e os Estados Unidos foi concluída.

Em um comunicado, ele elogiou a liderança dos Estados Unidos e do Irã pelo compromisso contínuo com um engajamento construtivo, descrevendo os desdobramentos como um passo importante no processo diplomático.

Policiais fazem a guarda em Bürgenstock, perto de Lucerna, na Suíça, em 22 de junho de 2026. (Xinhua/Lian Yi)

DESAFIOS PELA FRENTE

Apesar do progresso inicial, vários riscos ameaçam inviabilizar o processo de paz, lançando dúvidas sobre a perspectiva de um acordo final abrangente.

Em primeiro lugar, a sustentabilidade de um cessar-fogo entre Israel e o Hezbollah continua incerta. Embora nenhum ataque israelense ao Líbano tenha sido relatado até a noite de domingo, nem Israel nem o Hezbollah são signatários do acordo, o que significa que não estão vinculados aos termos do cessar-fogo.

O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, reiterou no domingo que as forças israelenses permanecerão no sul do Líbano "pelo tempo necessário" e prometeu eliminar qualquer ameaça iraniana na região.

O líder do Hezbollah, Naim Qassem, disse em um discurso televisionado no domingo que o grupo rejeita qualquer presença militar israelense no sul do Líbano, acrescentando que cumprirá a trégua, mas não irá tolerar violações.

A fragilidade da situação ficou evidente no sábado, quando Israel e o Hezbollah trocaram disparos no sul do Líbano, poucas horas após a entrada em vigor do acordo de cessar-fogo.

A Defesa Civil libanesa informou que ataques aéreos e com drones de Israel mataram pelo menos 16 pessoas e feriram outras 12, enquanto uma autoridade militar israelense disse que o Hezbollah disparou mais de 50 projéteis contra as forças israelenses na área.

Em segundo lugar, a reabertura do Estreito de Ormuz está intimamente ligada à situação no Líbano, representando um risco significativo para as negociações.

O Irã prometeu fechar novamente o Estreito de Ormuz caso o conflito no Líbano não chegue ao fim, informou a agência de notícias iraniana Tasnim no domingo, citando uma fonte próxima à equipe de negociação iraniana.

A fonte alertou que o Irã interromperá as negociações sobre todas as outras questões se os "crimes" de Israel no Líbano continuarem e se a integridade territorial do Líbano não for garantida.

Como a reabertura desimpedida e de longo prazo da via navegável estratégica é uma prioridade central dos EUA no acordo com o Irã, qualquer escalada no Líbano poderia comprometer diretamente o progresso em todas as frentes de negociação.

Em terceiro lugar, as duas partes mal abordaram o programa nuclear do Irã, uma das questões mais controversas nas relações bilaterais.

"Houve uma discussão muito breve sobre a questão nuclear, mas os detalhes não foram discutidos, e não podemos dizer que as negociações sobre o assunto tenham começado", disse Baghaei na segunda-feira, após as negociações.

A breve troca de pontos de vista sobre o assunto sugere que o principal ponto de divergência pode inviabilizar negociações futuras.

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