Praia, 5 jun (Xinhua) -- Espalhado pelo Atlântico, Cabo Verde é um país insular acostumado a olhar para além do horizonte, e para muitos cabo-verdianos a China foi durante muito tempo um destino distante, separado por continentes, oceanos e línguas.
Cinco décadas após o estabelecimento das relações entre a China e Cabo Verde, essa distância já não se mede apenas no mapa, mas também nos laços cada vez mais estreitos entre os dois povos.
No corredor do Hospital Dr. Agostinho Neto, em Praia, a capital de Cabo Verde, a médica cabo-verdiana Marbel Leal consulta um processo clínico e discute o caso com colegas chineses.Depois de estudar língua chinesa e medicina clínica na China, ela regressou a Cabo Verde em 2025 e passou a trabalhar no hospital, onde trabalha com Chen Feng, chefe da 22ª equipe médica chinesa enviada ao país e especialista em cuidados intensivos.
Desde 1984, a cooperação médica entre a China e Cabo Verde já levou 22 equipes médicas chinesas ao país. Para Leal, o conhecimento da língua chinesa ajuda a aproximar colegas dos dois países e a facilitar a adaptação dos médicos chineses ao contexto local. "Eles estão dispostos a adaptar-se e têm feito um bom trabalho", afirmou.
Chen destacou que a cooperação médica entre os dois países tem contribuído para o reforço da capacidade de resposta do sistema de saúde cabo-verdiano. Um exemplo é a unidade de cuidados intensivos (UCI) do hospital, construída com apoio chinês e inaugurada em 2024.
Com oito camas equipadas com ventiladores, monitores cardíacos e outros equipamentos essenciais, trata-se da primeira UCI de Cabo Verde, um marco para o desenvolvimento dos cuidados intensivos e para a resposta a casos críticos no país.
A cooperação na área da saúde estende-se também para além da capital. Na ilha de São Vicente, a nova Maternidade e Pediatria do Hospital Dr. Baptista de Sousa, em Mindelo, construída com assistência chinesa e entregue em 2025, está a melhorar as condições de atendimento para pacientes e profissionais de saúde.
"Não é apenas uma estrutura física, mas algo que traz melhor segurança e oferece melhores condições de assistência médica aos pacientes", disse Victor Manuel Moreira da Costa, presidente do conselho de administração do hospital.
A nova infraestrutura beneficia não só os residentes de São Vicente, mas também pacientes de outras ilhas no norte de Cabo Verde. As urgências pediátricas e as enfermarias já estão em funcionamento, enquanto decorrem os preparativos para a transferência dos serviços de maternidade, um processo que será conduzido de forma gradual e com prioridade na segurança dos pacientes, segundo ele.
Na enfermaria pediátrica, Vera Lucia, mãe de uma criança internada, recordou as condições do antigo espaço, onde faltava até lugar para se sentar. Agora, disse, o novo edifício oferece mais espaço e melhores condições, permitindo-lhe acompanhar o filho com mais conforto e até tomar banho quente durante a estadia.
Para além da saúde, outra forma de ligação entre os dois países ganha raízes nas salas de aula. No Instituto Confúcio da Universidade de Cabo Verde, a professora local Marta Luisa Freire Neves, conhecida pelo nome chinês Wei Mengxia, ensina os tons da língua chinesa aos alunos.
O primeiro contacto de Neves com a língua chinesa aconteceu ainda no ensino secundário. Mais tarde, prosseguiu os estudos em Macau e em Beijing. "Voltei porque queria ensinar aos meus alunos tudo o que tinha aprendido. Não se trata apenas de língua e cultura, mas também da minha experiência de estudo, vida e crescimento na China", disse ela.
A trajetória de Neves reflete a consolidação do ensino da língua chinesa em Cabo Verde. Fundado em dezembro de 2015, o Instituto Confúcio da Universidade de Cabo Verde já registrou mais de 11 mil alunos. Atualmente, os seus cursos e programas de formação abrangem a universidade e 13 escolas secundárias.
Para a reitora da Universidade de Cabo Verde, Astrigilda Pires Rocha Silveira, a cooperação educativa é uma das áreas mais profundas e duradouras das relações entre os dois países ao longo das últimas cinco décadas.
Segundo a reitora, a construção do novo campus da Universidade de Cabo Verde, com apoio da China, não apenas melhorou as infraestruturas da instituição, como também criou novas condições para a modernização do ensino superior, o reforço da capacidade científica e a internacionalização da universidade.
Astrigilda Silveira afirmou que o Instituto Confúcio da Universidade de Cabo Verde tem desempenhado um papel positivo no ensino da língua chinesa e na promoção da cultura chinesa, constituindo também uma plataforma importante para o intercâmbio cultural, linguístico e acadêmico entre os dois países.
Ela destacou ainda o potencial de cooperação entre a Universidade de Cabo Verde e instituições chinesas em áreas como educação digital, inteligência artificial, energias renováveis, economia azul, agricultura inteligente, saúde digital, mudanças climáticas e formação de funcionários bem qualificados.

