Tentativa de Trump de incluir acordo com o Irã nos Acordos de Abraão enfrenta duras realidades-Xinhua

Tentativa de Trump de incluir acordo com o Irã nos Acordos de Abraão enfrenta duras realidades

2026-05-30 13:14:01丨portuguese.xinhuanet.com

O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmaeil Baghaei, fala em uma coletiva de imprensa semanal em Teerã, Irã, em 11 de maio de 2026. (Xinhua/Shadati)

Jerusalém, 28 mai (Xinhua) -- À medida que as negociações entre Washington e Teerã entram em uma fase essencial sobre um acordo de cessar-fogo, o presidente dos EUA, Donald Trump, apresentou uma visão mais ampla: expandir os Acordos de Abraão para diversos países árabes e muçulmanos.

O Paquistão rejeitou publicamente a proposta, enquanto nenhum dos outros países listados por Trump, sendo Arábia Saudita, Catar, Turquia, Egito e Jordânia, reagiu à sua exigência.

Analistas dizem que a pressão dos EUA reflete tanto ambições geopolíticas quanto cálculos políticos, mas as tensões regionais profundamente enraizadas, especialmente em relação à questão palestina, levantam dúvidas sobre a viabilidade da visão de Trump.

ACORDO DIPLOMÁTICO

Os chamados Acordos de Abraão, lançados por Trump em seu primeiro mandato, levaram à normalização das relações entre Israel e os Emirados Árabes Unidos (EAU), Bahrein e Marrocos em 2020. O presidente americano há muito tempo espera uma expansão dos acordos.

Analistas observaram que a mais recente pressão de Trump, ao vincular um possível acordo com o Irã a um alinhamento regional mais amplo em torno de Israel, ocorreu em um momento em que ele enfrentava crescente pressão interna devido à guerra com o Irã.

Harel Chorev, especialista em Oriente Médio do Centro Moshe Dayan da Universidade de Tel Aviv, disse que a política interna continua sendo uma consideração importante por trás dessa pressão.

"Trump quer que os eleitores vejam que ele não apenas encerrou uma guerra, mas também criou um acordo regional mais amplo", disse Chorev à Xinhua, observando que pressionar os estados árabes rumo à normalização também poderia ajudar a amenizar as críticas de republicanos linha-dura e grupos pró-Israel, que acreditam que o potencial acordo de Trump com o Irã poderia envolver "concessões" excessivas.

Roee Kibrik, chefe de pesquisa do think tank israelense Mitvim, disse que Trump quer "se apresentar internamente como alguém que não apenas encerrou uma crise envolvendo o Irã, mas também promoveu a paz no Oriente Médio".

Observadores argumentam que ampliar os Acordos de Abraão poderia ajudar Trump a retratar um "acordo limitado com o Irã" como um sucesso diplomático muito maior, tanto interna quanto externamente.

Ali Vaez, diretor do projeto Irã do think tank International Crisis Group, disse que Trump parece querer vender um acordo com o Irã como "uma continuação dos Acordos de Abraão", favorável a Israel, benéfico para a região e politicamente aceitável em Washington. Mas, alertou ele, isso pode substituir "uma ilusão (com o Irã) por outra".

Para o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, argumentam analistas, uma expansão dos acordos representaria um ganho político. Uma maior normalização com os estados árabes também poderia se tornar capital político para Netanyahu em meio a especulações sobre possíveis eleições antecipadas, disse Chorev.

Pessoas participam de protesto em Teerã, Irã, em 29 de abril de 2026. (Xinhua/Shadati)

DESEJO IRREALISTA

Apesar da exigência de Trump, analistas acreditam que é improvável que os países da região respondam positivamente.

A Arábia Saudita continua sendo o país que Trump mais deseja conquistar para os acordos. A normalização entre Riad e Tel Aviv remodelaria significativamente a geopolítica regional. No entanto, autoridades sauditas disseram repetidamente que a normalização com Israel depende de progressos críveis em direção à criação de um Estado palestino.

Uma fonte saudita disse à Al Arabiya TV que a posição do país sobre a questão palestina permanece inalterada após as declarações de Trump.

Abdulaziz Alshaabani, pesquisador do Centro Al Riyadh para Estudos Políticos e Estratégicos, disse que a redução das tensões com o Irã pode criar um ambiente mais favorável para a diplomacia regional, mas que as duas questões não devem ser diretamente vinculadas.

"A questão do Irã diz respeito à segurança e a cálculos estratégicos, enquanto os Acordos de Abraão envolvem legitimidade política, ordem regional e a questão palestina", explicou ele.

O Catar, outro país pressionado por Trump a assumir a liderança assinando os acordos, também parece improvável de aderir nas circunstâncias atuais. Como mediador-chave nos esforços de cessar-fogo em Gaza, Doha argumenta há muito tempo que o diálogo com Israel deve contribuir para a resolução da questão palestina, em vez de ignorá-la.

A posição do Paquistão é mais explícita. Islamabad tem mantido consistentemente que não reconhecerá Israel antes do estabelecimento de um Estado palestino independente com Jerusalém Oriental como sua capital.

A Turquia é um caso diferente. Embora tenha estabelecido relações diplomáticas com Israel em 1949, os laços entre os dois países se deterioraram acentuadamente desde que Israel lançou sua operação militar em larga escala em Gaza.

Em 2024, a Turquia anunciou o rompimento de todas as relações com Israel. Analistas veem pouca chance de uma melhora significativa nas relações entre os dois países em um futuro próximo.

Foto mostra a Casa Branca em Washington, D.C., Estados Unidos, em 11 de maio de 2026. (Xinhua/Li Rui)

MUDANÇAS NO CENÁRIO REGIONAL

O recente conflito entre EUA, Israel e Irã remodelou o cenário regional e abalou as perspectivas de segurança dos países afetados, tornando as perspectivas para a iniciativa dos EUA ainda mais sombrias.

A confiança nas garantias de segurança dos EUA entre os estados do Golfo, envolvidos na guerra com o Irã devido à presença militar americana em seus territórios, parece estar diminuindo.

Analistas acreditam que os futuros acordos de segurança no Oriente Médio podem se tornar mais diversificados, com os atores regionais dando maior ênfase à flexibilidade estratégica em vez do alinhamento com uma única potência externa.

O esforço de Trump para condicionar um acordo com o Irã à ampliação da normalização das relações com Israel ressalta o desejo contínuo de Washington de moldar a ordem de segurança da região a seu próprio gosto, argumentam alguns analistas.

Os desafios que o Oriente Médio enfrenta vão muito além do reconhecimento diplomático ou da normalização, observou Alshaabani, acrescentando que estão profundamente interligados com queixas históricas, rivalidades antigas, conflitos políticos não resolvidos, além de sensibilidades religiosas e sociais.

"Simplesmente ampliar esses acordos (Acordos de Abraão) dificilmente abordará as causas subjacentes da instabilidade ou resolverá as tensões estruturais mais profundas da região", disse ele.

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