Beijing, 21 abr (Xinhua) -- Mais marcas chinesas estão chegando à América Latina. No caso das redes de alimentação e bebidas, o movimento já não se resume a vender produtos ou atender comunidades chinesas no exterior. O foco agora é outro: entrar no mercado local, disputar o consumidor comum e operar de forma cada vez mais enraizada.
A estreia da Mixue no Brasil é um exemplo claro dessa mudança. Em 11 de abril, a rede chinesa, conhecida na China por sorvetes e bebidas de baixo preço, abriu sua primeira loja no país. A inauguração repercutiu rapidamente nas redes sociais brasileiras. Vídeos da abertura e imagens do cardápio circularam em plataformas de vídeo curto e em perfis de visitas a lojas. Em muitos comentários, consumidores já perguntavam quando a marca chegaria a outras cidades.
Em resposta por escrito à Xinhua, a empresa disse que quer entrar de forma natural no cotidiano dos brasileiros e se aproximar dos espaços de convivência e consumo do dia a dia.
A entrada no Brasil não foi improvisada. A rede lançou um sorvete de açaí voltado ao mercado local e passou a oferecer diferentes níveis de açúcar, numa adaptação ao paladar brasileiro. Ao explicar a aposta no país, a empresa citou o tamanho do mercado: o Brasil é a maior economia da América Latina, tem mais de 210 milhões de habitantes, forte presença de consumidores jovens e um segmento de bebidas preparadas na hora em expansão.
A estratégia de preço, marca registrada da Mixue, foi mantida. A primeira loja começou a operar com cerca de 20 itens. O sorvete fresco custa 3 reais. A limonada gelada sai por 6 reais. Segundo a empresa, os valores são competitivos no mercado brasileiro.
Até o fim de 2025, o Grupo Mixue tinha cerca de 60 mil lojas na China e no exterior. Desse total, cerca de 4.500 estavam fora do mercado chinês, distribuídas em mais de dez países.
A empresa afirmou que continuará aprofundando sua vantagem na cadeia de suprimentos e, ao mesmo tempo, avançará na adaptação local. Além da abertura de uma segunda loja, informou que pretende comprar, nos próximos três a cinco anos, café, frutas e outros insumos no valor total de pelo menos 4 bilhões de yuans, enquanto inicia a construção de uma cadeia de abastecimento local.
Para Chen Hongbo, fundador da plataforma chinesa Hongcan, especializada no setor de alimentação, a lógica da internacionalização das marcas chinesas mudou. No início, o principal era levar o produto para fora. Agora, o diferencial está na exportação do sistema de operação como um todo, incluindo gestão de suprimentos, padrões operacionais, ferramentas digitais e formação de equipes.
Na avaliação dele, o Sudeste Asiático e a América do Norte eram os destinos mais comuns da expansão internacional das marcas chinesas. Agora, a América Latina começa a ganhar relevância. O critério para escolher onde entrar também mudou: a presença de comunidades chinesas perdeu centralidade, enquanto o potencial de mercado e o planejamento estratégico ganharam mais importância.
Chen diz que, se uma marca chinesa conseguir se firmar em um mercado como o latino-americano, marcado por hábitos de consumo e preferências alimentares bem diferentes, isso reforçará a capacidade de adaptação internacional do modelo chinês de redes de alimentação.
Zhou Zhiwei, diretor-executivo do centro de estudos brasileiros e diretor do departamento de relações internacionais, ligados ao Instituto da América Latina da Academia Chinesa de Ciências Sociais, avalia que a saída de marcas chinesas para o exterior é resultado de um processo longo, que agora se acelerou. Segundo ele, essa expansão se apoia na combinação de qualidade, preço, avanço industrial, desenvolvimento do setor de serviços, progresso tecnológico e economia digital.
Para Zhou, a conexão entre mercados consumidores e estilos de vida aproxima países de forma mais direta. Embora Brasil e China estejam longe um do outro, produtos e serviços voltados ao consumo cotidiano ajudam a encurtar essa distância e a criar vínculos mais concretos entre as sociedades.
Ele afirma que esse tipo de produto entra com mais facilidade na vida diária das pessoas e, por isso, permite ao consumidor brasileiro perceber de forma mais concreta aspectos da vida contemporânea e da modernização chinesa. No longo prazo, acrescenta, consumo e serviços tendem a se tornar um novo ponto de crescimento da cooperação econômica e comercial entre China e Brasil, e também entre a China e outros mercados.

