Beijing, 14 abr (Xinhua) -- Quando a ZXMOTO, cujo nome leva as iniciais de Zhang Xue, conquistou duas vitórias na rodada portuguesa do Campeonato Mundial de Superbike (WSBK) há cerca de duas semanas, derrubando décadas de domínio europeu e japonês, especialistas da indústria viram isso como um sinal revelador: as motocicletas chinesas estão evoluindo de "vendas globais" para "competir no mais alto nível".
A indústria de motocicletas do país está passando por uma mudança estrutural.
A China é o maior produtor e exportador de motos do mundo. De acordo com a Câmara de Comércio de Motocicletas da China, a produção e as vendas da indústria atingiram 22,11 milhões e 21,97 milhões de unidades em 2025, com aumentos de 10,6% e 10,2% ano a ano, respectivamente. Além disso, as exportações atingiram 13,37 milhões de unidades no mesmo ano, representando um aumento de 21,3%.
O Sudeste Asiático, a América Latina e a África continuam sendo os principais mercados para as motocicletas chinesas.
No Brasil, sete motos chinesas já têm chegada confirmada ao país em 2026, incluindo modelos da Voge e CFMoto, desde scooters, à customs, até trails. Com preços entre R$ 37 mil e R$ 53 mil, amplia-se ainda mais a presença das marcas chinesas no maior mercado de motocicletas da região, que tem crescido rapidamente nos últimos cinco anos.
Enquanto isso, a estrutura de exportação está mudando. Modelos abaixo de 150 cilindradas ainda representam mais de 60%, mas o crescimento mais rápido ocorre em produtos de médio a alto padrão.
"Nos últimos anos, as exportações de motocicletas com motores maiores cresceram mais de 50% ao ano", disse Wang Yao, vice-presidente de investimentos estratégicos do Zongshen Industrial Group, um líder do setor com décadas de história. Comparando com marcas globais como BMW e Yamaha, os preços dos produtos chineses equivalem a cerca de 70% de seus rivais, disse Wang, acrescentando que a vantagem de custo está se transformando em competitividade real.
A tendência também é visível nos mercados ocidentais. Zhang Xue, fundador da ZXMOTO, observou que o aumento dos gastos em pesquisa e desenvolvimento está dando frutos no design e desempenho dos produtos feitos na China. A ZXMOTO vendeu mais de 25 mil unidades em 2025, gerando 750 milhões de yuans (US$ 109,24 milhões) em valor de produção, com quase 70 milhões de yuans investidos em pesquisa e desenvolvimento. No entanto, ele reconheceu que as empresas chinesas ainda estão nos estágios iniciais de construção de marca e expansão global.
A atualização da indústria pode ser rastreada até 2002, quando uma equipe chinesa venceu o Campeonato Mundial de Endurance, mas dependeu de amortecedores importados da Itália e freios do Japão -- um modelo global de montagem que revelou uma cadeia de suprimentos incompleta.
Hoje em dia, a situação mudou fundamentalmente. "Hoje, os sistemas essenciais para motos chinesas podem ser desenvolvidos em grande parte de forma independente", disse Zhang. De motores e chassis a controles eletrônicos, as empresas nacionais agora possuem capacidades de fabricação em cadeia completa.
Isso é mais evidente em clusters industriais. A China construiu um ecossistema completo de fabricantes de veículos e componentes centrado em Chongqing. O município abriga mais de 50 grandes fabricantes de motocicletas e mais de 410 fornecedores de peças, com o suprimento local de motos movidas a combustível ultrapassando 80%.
"Quando clientes do exterior solicitam um modelo novo personalizado, podemos passar do design para a produção em massa em apenas três meses", disse Wang Yao. "Essa é a vantagem de eficiência de uma cadeia industrial completa."
Além da expansão em escala, a indústria está acelerando rumo ao nível premium. A demanda por modelos de grande cilindrada e esportivos está crescendo rapidamente à medida que as motocicletas passam de transporte utilitário para bens recreativos.
Chongqing designou motocicletas de alto padrão como uma de suas seis principais indústrias especializadas, buscando atualizações premium, elétricas e inteligentes. Graças à política governamental e à demanda do mercado, um número crescente de novos fabricantes de motocicletas está entrando no mercado.
Feng Xingwei, vice-gerente-geral executivo da China Surron Technology, uma dessas novas fabricantes de motocicletas, disse que, no segmento off-road, produtos nacionais podem igualar 80% ou mais do desempenho das marcas globais a preços muito mais amigáveis -- dando às marcas chinesas competitividade única no mundo todo.
Enquanto isso, a eletrificação está remodelando a indústria. "Motocicletas elétricas se tornarão uma parte fundamental dos sistemas de transporte urbano", disse Li Bin, vice-presidente executivo da Câmara de Comércio de Motocicletas da China. Com apoio de políticas e avanços tecnológicos, a indústria está se transformando para soluções mais verdes e inteligentes, por exemplo explorando o hidrogênio (como combustível) e outros novos caminhos tecnológicos.
Pesquisadores de mercado esperam que o mercado global de veículos elétricos de duas rodas ultrapasse US$ 100 bilhões até 2030. Nesse mercado, espera-se o domínio das motocicletas fabricadas na China.
Em junho do ano passado, a OMOWAY, uma empresa inovadora chinesa de tecnologia de mobilidade elétrica, fundada por um co-fundador da XPeng, uma das montadoras líder de veículos elétricos da China, lançou seu primeiro produto, a OMO X, a primeira motocicleta multi-forma do mundo, que chamou a atenção de diversos capitais líderes de risco logo após seu lançamento, obtendo dezenas de milhões de dólares americanos em investimento-anjo.
"Nos próximos cinco anos, as motos chinesas estão prestes a conquistar uma fatia muito maior do mercado global de grande cilindrada", disse Zhang Xue. Para compradores globais, as motocicletas chinesas não são mais apenas "opções mais baratas". Eles estão se tornando "opções mais competitivas", segundo Zhang.

