Não houve acordo nas negociações do fim de semana entre Estados Unidos e Irã-Xinhua

Não houve acordo nas negociações do fim de semana entre Estados Unidos e Irã

2026-04-14 13:08:50丨portuguese.xinhuanet.com

Analistas acreditam que a falta de sucesso nas negociações evidencia a persistência de profundas divisões estratégicas entre os dois lados, ressaltando que a lacuna não é meramente tática, mas estrutural.

Islamabad, 12 abr (Xinhua) -- As negociações de alto risco entre os EUA e o Irã em Islamabad terminaram sem um acordo no domingo. Washington citou "ampla flexibilidade" e "negociações de boa-fé", mas não houve consenso, enquanto Teerã culpou as "exigências excessivas" dos EUA por bloquearem o progresso rumo a uma estrutura e um acordo comuns.

O encontro ocorreu após um cessar-fogo de duas semanas que interrompeu quase 40 dias de intensas hostilidades e abriu brevemente uma pequena janela para a diplomacia. Realizadas no Paquistão, um importante mediador regional, as negociações representaram o encontro presencial de mais alto nível entre os Estados Unidos e o Irã desde 1979, uma relação há muito definida por décadas de sanções, confrontos periódicos e profunda desconfiança.

Analistas disseram que a falta de um acordo evidencia as divisões estruturais enraizadas entre os dois lados, embora o próprio fato de as negociações terem ocorrido sinalizarem um progresso diplomático limitado, porém significativo.

Eles acrescentaram que as pressões políticas internas, os riscos econômicos ligados à potencial instabilidade no Oriente Médio e os sinais de crescente desgaste da guerra podem continuar incentivando ambos os lados a manter os canais diplomáticos abertos, apesar do impasse atual.

Pessoas caminham em frente ao centro de imprensa das negociações entre os Estados Unidos e o Irã em Islamabad, Paquistão, em 11 de abril de 2026. (Xinhua/Wang Shen)

NENHUM ACORDO FOI ALCANÇADO

Em uma coletiva de imprensa realizada em Islamabad no domingo, o vice-presidente dos EUA, JD Vance, disse que retornaria "sem um acordo", acrescentando que o Irã não aceitou os termos americanos, apesar do que ele descreveu como "um engajamento de boa-fé".

Vance disse que o programa nuclear iraniano continua sendo o ponto central da disputa, reiterando que Washington exige um "compromisso afirmativo" de Teerã de não buscar armas nucleares nem a capacidade de desenvolvê-las rapidamente. O Irã, no entanto, tem mantido consistentemente que suas atividades de enriquecimento de urânio são um direito soberano e rejeitou as restrições impostas externamente.

Autoridades iranianas, por sua vez, atribuíram o impasse ao que descreveram como "exigências excessivas e irracionais" dos Estados Unidos, argumentando que as condições de Washington não respeitavam os "direitos legítimos" do Irã, incluindo as atividades de enriquecimento e um alívio significativo das sanções.

O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmail Baghaei, disse que, embora os dois lados tenham chegado a entendimentos sobre diversas questões, ainda divergem em dois ou três pontos-chave, o que impede um acordo final.

Apesar da falta de avanços, Teerã sinalizou que o diálogo pode continuar. Citado pela agência de notícias iraniana Mehr, Baghaei disse que seria irrealista esperar um acordo em uma única rodada de negociações, acrescentando que Teerã permanece "confiante de que os contatos entre nós, o Paquistão e nossos outros amigos na região continuarão".

O analista de segurança paquistanês Tughral Yamin observou que o Paquistão forneceu uma plataforma para o diálogo, e não um local para um acordo final, sugerindo que as negociações em Islamabad podem representar apenas um passo inicial em um processo diplomático mais longo.

Para o Paquistão, que facilitou as negociações, as autoridades indicaram que seu papel estava longe de terminar. O vice-primeiro-ministro e ministro das Relações Exteriores, Mohammad Ishaq Dar, disse que Islamabad continuaria desempenhando um papel construtivo no apoio ao diálogo entre o Irã e os Estados Unidos nos próximos dias.

O vice-presidente dos EUA, JD Vance, chega à base aérea de Nur Khan, em Rawalpindi, Paquistão, em 11 de abril de 2026. (Xinhua)

TESTANDO LINHAS VERMELHAS

Na madrugada de sábado, uma delegação iraniana de 71 membros, liderada pelo presidente do Parlamento, Mohammad Bagher Ghalibaf, e pelo ministro das Relações Exteriores, Abbas Araghchi, chegou a Islamabad. Mais tarde naquele dia, uma delegação americana muito maior, chefiada por Vance, também chegou à capital paquistanesa, com cerca de 300 pessoas.

Antes do início das negociações formais, o primeiro-ministro paquistanês, Shehbaz Sharif, reuniu-se com a delegação iraniana, durante a qual Teerã apresentou diversas pré-condições para o diálogo com Washington, incluindo o desbloqueio de todos os ativos e contas iranianas no exterior e a suspensão imediata de todos os ataques, em particular os direcionados ao Líbano. Autoridades iranianas têm reiteradamente enfatizado que a suspensão dos ataques ao Líbano é um componente essencial de qualquer acordo de cessar-fogo mais amplo.

No entanto, o frágil cessar-fogo entre os Estados Unidos e o Irã foi ainda mais complicado pelos contínuos ataques israelenses contra o Hezbollah, grupo apoiado pelo Irã no Líbano.

Na noite de sábado, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, declarou que a eliminação do Hezbollah era uma condição prévia para qualquer acordo de cessar-fogo entre Israel e o Líbano.

As tensões também aumentaram durante mais de 20 horas negociações sobre os desdobramentos no Estreito de Ormuz.

Os Estados Unidos anunciaram no sábado que dois destróieres da Marinha americana atravessaram a via navegável estratégica, alegação negada pelo Irã, que disse que suas forças forçaram os navios a se retirarem.

Foto tirada em 12 de abril de 2026 mostra vista externa do Hotel Serena, um hotel cinco estrelas na Zona Vermelha, reservado exclusivamente para as delegações dos Estados Unidos e do Irã em Islamabad, Paquistão. (Foto de Wang Shen/Xinhua)

IMPASSE PERSISTENTE

Analistas acreditam que o fracasso das negociações evidencia a persistência de profundas divisões estratégicas entre os dois lados, ressaltando que a divergência não é meramente tática, mas estrutural.

As posições de ambos os países são extremamente divergentes, com demandas maximalistas que permanecem muito distantes e são ainda mais complicadas por uma profunda desconfiança, disse o ex-diplomata paquistanês, Masood Khalid.

Essa divergência se reflete em diversas questões centrais. Segundo Naghmana Hashmi, outra ex-diplomata paquistanesa, o impasse foca em várias áreas-chave: o controle do Estreito de Ormuz, a questão nuclear, onde ambos os lados mantêm posições intransigentes, os acordos militares, incluindo a exigência do Irã de uma retirada dos EUA da região, as reivindicações de indenização por danos sofridos pelo Irã, o alívio das sanções, principalmente o congelamento de ativos, e a situação no Líbano.

Lidar com essas complexidades continua sendo um desafio formidável, como disse Mohamed Benaya, especialista em assuntos iranianos e do Golfo na Universidade Al-Azhar, no Egito: "superar essas divergências será difícil sem concessões recíprocas e graduais".

Manifestante segura cartazes em frente à Casa Branca, em Washington, D.C., Estados Unidos, em 7 de abril de 2026. (Xinhua/Li Rui)

SINAIS DE ESPERANÇA

Apesar desses obstáculos significativos, analistas acreditam que a mera ocorrência dessas negociações já representa um progresso.

Hashmi observou que a disposição de ambas as partes em permanecer à mesa de negociações indica uma "mentalidade positiva" focada na busca de uma solução, acrescentando que a prioridade agora é manter o ímpeto diplomático.

Khalid concordou com esse sentimento, sugerindo que, no atual clima de alta tensão, o simples fato de o diálogo ter ocorrido já é uma conquista.

Olhando para o futuro, analistas disseram que uma combinação de pressões internas e globais pode impulsionar a continuidade do diálogo, apesar do impasse.

Aizaz Ahmad Chaudhry, ex-embaixador do Paquistão nos Estados Unidos, observou que, para o presidente americano Donald Trump, os riscos de um confronto militar prolongado e suas potenciais consequências nas próximas eleições de meio de mandato criam um forte incentivo para a diplomacia.

Além disso, especialistas disseram que os riscos econômicos de longo prazo, especificamente a ameaça de instabilidade no Oriente Médio que pode interromper os mercados globais de energia e os fluxos comerciais, fortaleceram os apelos internacionais por uma desescalada.

A dinâmica do campo de batalha também pode estar moldando os cálculos diplomáticos. Said Nazir, analista de defesa paquistanês, apontou para o crescente "cansaço da guerra" em ambos os lados após semanas de confrontos e demonstrações de capacidade militar, dizendo que isso poderia levar Washington e Teerã a evitar um conflito custoso e sem prazo definido, mantendo os canais diplomáticos abertos.

(Repórteres de vídeo: Hu Yousong, Zhang Jingyao, Wan Houde e Tang Binhui; edição de vídeo: Hong Liang, Zhu Cong e Zhang Yueyuan)

Fale conosco. Envie dúvidas, críticas ou sugestões para a nossa equipe através dos contatos abaixo:

Telefone: 0086-10-8805-0795

Email: portuguese@xinhuanet.com