Duas celebrações, um espírito - uma história do Ramadã e da Festa da Primavera no Cairo-Xinhua

Duas celebrações, um espírito - uma história do Ramadã e da Festa da Primavera no Cairo

2026-03-12 09:51:54丨portuguese.xinhuanet.com

Dançarinos executam o Tanoura, uma dança folclórica tradicional egípcia, no mês sagrado do Ramadã no complexo Sultan Al-Ghuri, no Cairo, Egito, em 25 de fevereiro de 2026. (Xinhua/Ahmed Gomaa)

Este ano, no Cairo, percebi que essas duas grandes festas compartilham mais do que uma coincidência no calendário. Compartilham uma alma: ambos construímos nossas comemorações em torno do compartilhamento do que temos, ambos as centramos na família e na comunidade e ambos transmitimos nossas esperanças para o futuro às gerações mais jovens.

Por Xu Haofu

Cairo, 10 mar (Xinhua) -- Este ano, os relógios celestes do Oriente e do Oriente Médio protagonizaram uma convergência incomum e linda. Nas ruas movimentadas do Cairo, a lua crescente do Ramadã e as lanternas da Festa da Primavera Chinesa surgiram quase simultaneamente.

Como correspondente chinês baseado localmente, inicialmente senti um aperto no coração com a chegada de fevereiro. No entanto, essa rara coincidência rapidamente transformou minha missão em uma lição pessoal sobre o quanto nossas culturas compartilham em sua essência: as festas não são apenas datas em um calendário, mas também pontes.

Tudo começou com cumprimentos simples. Meu "Ramadan Kareem" (Tenha um Ramadã generoso) para amigos egípcios era frequentemente respondido com um receptivo "Chun Jie Kuai Le!" (Feliz Festa da Primavera). Essas pequenas trocas abriram portas. Meus amigos perguntavam sobre nossas tradições, eu aprendia sobre as deles.

Uma compreensão mais profunda do que tínhamos em comum surgiu à mesa de jantar. Na noite de 20 de fevereiro, meu amigo Ahmed Gomma me convidou para um Iftar público, a refeição que quebra o jejum diário.

As fawaneez (lanternas tradicionais egípcias do Ramadã) iluminavam com luz âmbar quente as longas mesas cheias de tâmaras, frutas e doces como kunafa. As pessoas começavam com uma tâmara e água, depois oravam antes de comer.

"Na minha casa", eu disse a Gomma, "nossas mesas de Ano Novo também são cheias de doces, nozes e frutas secas. Não são apenas petiscos. São votos de um ano doce e próspero".

Gomma assentiu, com um sorriso que demonstrava compreensão. "Aqui é muito parecido", disse ele. "O Ramadã nos ensina a compartilhar nossas bênçãos. Esses doces são para todos: família, vizinhos, qualquer pessoa necessitada".

Naquele momento, eu não era mais um observador de um costume estrangeiro. Eu fazia parte de um ritual universal: usar a comida para mostrar esperança e unir uma comunidade.

Lua crescente é vista sobre a Cidadela de Saladino no segundo dia do mês sagrado do Ramadã, no Cairo, Egito, em 20 de fevereiro de 2026. (Xinhua/Ahmed Gomaa)

Alguns dias antes, visitei uma loja de chá com leite ao estilo chinês perto da Cidadela de Saladino. Lá, conheci Aya Mohamed El Wardany, cofundadora da loja com seu sócio chinês. Quando o assunto da Festa da Primavera surgiu, ela brincou: "Espero que meu sócio chinês me dê um ‘hongbao’ (envelope vermelho) este ano!".

Quando expliquei que esses envelopes vermelhos são mais do que apenas dinheiro, mas também uma forma dos mais velhos transmitirem proteção e sorte às crianças, seus olhos brilharam. "Temos ‘Eidi’!", disse ela, referindo-se aos presentes ou dinheiro que as crianças egípcias recebem no Ramadã.

O paralelo é impressionante. Seja um envelope de papel vermelho em Beijing ou uma nota de banco novinha em folha no Cairo, o significado é o mesmo: um investimento na felicidade da próxima geração.

Além da comida e dos presentes, descobri uma conexão mais forte: o anseio pelo reencontro.

Em um animado mercado da Festa da Primavera, no centro do Cairo, encontrei Mohamed Zakary em meio ao alegre caos da caligrafia e dos trajes tradicionais chineses. Ele estava demonstrando um programa de software desenvolvido por ele para aprendizado de chinês, baseado em inteligência artificial.

Convidada mostra caligrafia de seu nome chinês em um evento de gala da Festa da Primavera no Cairo, Egito, em 8 de fevereiro de 2026. (Xinhua/Xin Mengchen)

"Durante o Ramadã, não importa a distância entre as pessoas da família, elas se reúnem", disse ele, em pé sob um dossel de lanternas carmesim. "Isso é muito semelhante à ênfase da Festa da Primavera no reencontro".

Esse impulso de compreender e se conectar talvez fosse mais visível no Museu Egípcio. Lá, encontrei Han Shu, um professor de literatura da China, que explicava cuidadosamente uma estátua para seu filho pequeno.

Han não veio só para tirar fotos, ele me contou que se preparou lendo Naguib Mahfouz, o ganhador egípcio do Prêmio Nobel, cuja obra captura a vida e os ritmos do Cairo. "As descrições dele sobre o Cairo antigo durante o Ramadã são belíssimas", disse ele. "Quero entender a alma do lugar, não apenas ver sua fachada".

Pessoas visitam o festival de lanternas para comemorar o Ano Novo Chinês no Parque da Família, no Cairo, Egito, em 14 de fevereiro de 2026. (Xinhua/Ahmed Gomaa)

Conforme as festas acontecem, o espírito de compreensão mútua parece se fortalecer. Um professor me perguntou seriamente sobre o "Deus da Riqueza" na China; um vizinho perguntou se o Ano Novo Chinês começa na lua nova; e estudantes universitários, segurando dísticos vermelhos e o caractere "Fu" (boa sorte), pediram conselhos sobre onde pendurá-los adequadamente em suas casas.

Este ano, no Cairo, percebi que essas duas grandes festas compartilham mais do que uma coincidência no calendário. Compartilham uma alma: ambos construímos nossas comemorações em torno do compartilhamento do que temos, ambos as centramos na família e na comunidade e ambos transmitimos nossas esperanças para o futuro às gerações mais jovens.

Agora, quando ouço saudações de "Ramadan Kareem" ou "Chun Jie Kuai Le", elas não me soam mais estranhas. Sinto como se fossem um reconhecimento compartilhado, uma história comum de alegria e esperança que não precisa de tradução, apenas de um coração aberto para ouvi-la.

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