
Soldados americanos patrulham ruas de Bagdá em busca de armas ilegais, em 23 de maio de 2003. (Foto Xinhua/Han Chuanhao)
Por Jamal Hashim
Bagdá, 26 jan (Xinhua) -- Enquanto figuras políticas influentes e analistas renomados do mundo todo debatem sobre o que uma América mais intervencionista significará para o planeta, nós, iraquianos, já sabemos a resposta muito bem.
Em 18 de janeiro, o Iraque anunciou a retirada completa das forças da coalizão liderada pelos EUA das áreas controladas pelo governo federal iraquiano.
Em um mundo consumido por matérias que especulam se os Estados Unidos tomarão medidas militares contra o Irã ou tentarão anexar a Groenlândia, essa notícia poderia ter passado despercebida.
Contudo, para o povo iraquiano, esse anúncio marcou o início de uma nova era, um fardo pesado que oprimia os mais de 40 milhões de iraquianos há mais de 20 anos finalmente foi aliviado.
Ainda me lembro da madrugada de 20 de março de 2003 como se fosse ontem. Eu era um jovem correspondente da Xinhua, sentado ansiosamente no meu escritório em Bagdá, telefone via satélite na mão, esforçando-me para captar cada som e movimento do lado de fora da janela.
A tensão era palpável, enquanto meus colegas e eu concluíamos que, depois de todas as ameaças e avisos, os Estados Unidos estavam prestes a lançar sua campanha militar contra o Iraque.
Às 5h33 da manhã, uma explosão ecoou com um estrondo ensurdecedor. "A invasão americana começou!", gritei no telefone via satélite, com a voz trêmula. Quase simultaneamente, a Xinhua divulgou a primeira notícia do mundo sobre a invasão americana do Iraque.

Aeronaves iraquianas patrulham durante a cerimônia de entrega do Campo Echo em Diwaniya, Iraque, em 14 de dezembro de 2011. (Xinhua/Zhang Ning)
Em poucos minutos, mísseis começaram a cair. Explosões estrondosas ecoaram pela cidade. As explosões iluminaram o céu ao amanhecer, lançando um brilho avermelhado sobre o Rio Tigre.
Um dos meus colegas, Musa Jaafar, morava a poucos metros da residência do então líder Saddam Hussein. Quando o bombardeio começou, uma bomba explodiu perto da casa de Jaafar, destruindo sua cozinha.
Enquanto nossas vidas eram dilaceradas pelos horrores da guerra, uma parte de mim, como a de muitos iraquianos, ainda se agarrava a uma tênue, quase ingênua esperança: sob a intervenção americana, poderíamos nos libertar das amarras da pobreza imposta por anos de sanções e entrar em uma nova era de liberdade, democracia e prosperidade, exatamente como os Estados Unidos prometeram antes de desencadear a máquina de guerra.
Mas os anos seguintes não trouxeram uma nova era, e sim uma longa e escura noite de promessas quebradas.
Centenas de milhares de iraquianos, quase 80% deles civis, perderam a vida durante a intervenção americana. Saddam foi enforcado, mas nossas vidas mergulharam em um abismo ainda mais profundo. Em vez da estabilidade e prosperidade prometidas, fomos arrastados para um turbilhão de violência sectária e caos que desfez o próprio tecido da nossa sociedade.
Em Bagdá, a morte e a constante ameaça de ataques terroristas tornaram-se parte integrante da vida. Uma caminhonete carregada de batatas poderia, a qualquer momento, se transformar em um veículo do terror, com alguém dentro disparando uma metralhadora indiscriminadamente contra a multidão.
Certa manhã, um homem-bomba detonou seu veículo a meros 100 metros de onde eu estava, na rua principal que levava ao meu escritório. Assisti horrorizado enquanto as chamas consumiam os carros próximos, corpos se espalhavam pela rua e o ar se enchia de gritos de angústia.
"O caos desencadeado pela invasão não apenas produziu violência e terrorismo. Tornou-os sem fronteiras e implacáveis", disse-me o jornalista veterano Hashim al-Shammaa.
Mortes e explosões destruíram nossas esperanças em relação aos Estados Unidos e nos despertaram da ilusão de que estrangeiros poderiam ajudar a realizar nossos sonhos de progresso e paz.
Cada vez mais iraquianos, inclusive eu, vêm se conformando com a dura realidade de que a liberdade e a democracia prometidas pelos Estados Unidos eram apenas uma fachada para promover seus próprios interesses geopolíticos. Quando Washington bombardeou os próprios alicerces de nossas vidas, agarrar-se ao conto de fadas americano não passava de um ato de autoengano.

Mulher vota em um centro de votação em Bagdá, Iraque, em 11 de novembro de 2025. (Xinhua/Duan Minfu)
Mas o preço de aprender essa lição foi ruinosamente alto. Hoje, mesmo após a retirada das forças americanas, o Iraque ainda não se curou das feridas da invasão.
Aqueles que perderam entes queridos na guerra continuam vivendo com seu luto. As forças terroristas que se instalaram após o conflito ainda ameaçam nossa segurança diária. Crianças nascidas muito tempo depois da invasão sofrem de doenças causadas pela contaminação a longo prazo deixada pelas munições de urânio empobrecido e fósforo branco.
Agora, com a saída das últimas forças americanas das áreas controladas pelo governo, o pesadelo finalmente acabou? Talvez não, pelo menos não tão rapidamente. Mas ele nos oferece algo não menos precioso: um vislumbre de possibilidade, a possibilidade de recuperar nosso próprio destino, reconstruir o país com nossas próprias mãos e realizar do nosso jeito o sonho de prosperidade.
Na manhã em que as tropas americanas se retiraram, caminhei até a Ponte al-Sarafiya depois de terminar meu relatório sobre a retirada. De 20 de março de 2003 a 18 de janeiro de 2026, senti como se também tivesse concluído uma missão que durou 23 anos.
Uma brisa soprou e, por um instante, senti um pouco de tranquilidade que não sentia há muito tempo. Sob a ponte, o Rio Tigre fluía, constante e sereno, suas águas murmurando como se proferissem uma verdade atemporal testemunhada pelo rio há séculos: estrangeiros podem vir e ir, mas somente os descendentes desta terra podem fazê-la prosperar.


