
Pessoas com cartazes participam de protesto "Fora ICE para Sempre" contra o Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE, na sigla em inglês) em Washington, D.C., Estados Unidos, em 11 de janeiro de 2026. (Foto de Li Yuanqing/Xinhua)
Washington, 12 jan (Xinhua) -- O assassinato a tiros de uma mulher americana por um agente do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE, na sigla em inglês) em Minneapolis continua repercutindo nos Estados Unidos, desencadeando protestos em dezenas de grandes cidades.
Com autoridades federais e locais apresentando versões drasticamente diferentes do tiroteio, observadores disseram que o caos crescente poderia acirrar ainda mais as tensões partidárias e destacar a crescente indignação pública com as táticas de fiscalização da imigração.
NARRATIVAS CONFLITANTES
Na quarta-feira, em Minneapolis, Renee Nicole Good, cidadã americana de 37 anos, foi baleada e morta por um agente do ICE durante uma operação federal de fiscalização envolvendo seu veículo.
O tiroteio gerou ampla controvérsia em todo o país, com relatos bastante divergentes de autoridades federais e locais, evidenciando as tensões partidárias em relação à fiscalização da imigração.
A secretária de Segurança Interna, Kristi Noem, o presidente, Donald Trump, e o vice-presidente, JD Vance, defenderam o agente do ICE envolvido, alegando que a mulher tentou atropelar os agentes.
"A mulher que dirigia o carro estava muito desordeira, obstruindo e resistindo, e então, violentamente, intencionalmente e cruelmente, atropelou o agente do ICE, que parece ter atirado nela em legítima defesa", escreveu Trump na rede social X, poucas horas depois.
"Ela tentou atropelar alguém com o carro, e o homem se defendeu", disse Vance em uma coletiva de imprensa na Casa Branca na quinta-feira, acusando a mídia de "mentir sobre o ataque".
Enquanto os republicanos enfatizam a necessidade da atuação do ICE e os riscos enfrentados pelos agentes, pedindo apoio federal adicional, os democratas, por outro lado, criticam o que consideram uso excessivo da força, pressionam por limites à autoridade do ICE e exigem uma investigação transparente.
O prefeito de Minneapolis, Jacob Frey, e o governador de Minnesota, Tim Walz, exigiram que o ICE deixe a cidade e o estado imediatamente, argumentando que a presença do ICE está causando caos.

Pessoas participam de protesto contra o Serviço de Imigração e Alfândega (ICE, na sigla em inglês) em Pasadena, Condado de Los Angeles, Califórnia, Estados Unidos, em 10 de janeiro de 2026. JUNTO COM "Dezenas de protestos contra o ICE são realizados em toda a Califórnia, EUA" (Xinhua)
"Temíamos este momento desde os estágios iniciais da presença do ICE em Minneapolis", disse Frey. "Um agente federal usou o poder de forma imprudente, e isso resultou na morte de alguém".
A deputada democrata, Ilhan Omar, disse à rede de televisão americana CBS no domingo que é "inaceitável" que Trump e outras autoridades tenham emitido declarações públicas condenando as mulheres baleadas "sem uma investigação completa".
Em meio à disputa partidária, o FBI assumiu o controle total do caso, limitando o acesso das autoridades de Minnesota às provas, uma medida que o governador Walz criticou por minar a transparência e a imparcialidade, argumentando que "pessoas em posições de poder já emitiram um julgamento".
AUMENTO DAS TENSÕES
Em meio às divergências contínuas entre o governo federal liderado pelos republicanos e as autoridades locais lideradas pelos democratas, os protestos em todo o país continuaram, tensionando ainda mais as relações entre as comunidades locais e as autoridades federais.
Na manhã de quinta-feira, em frente ao Edifício Federal Bishop Henry Whipple, em Minneapolis, as manifestações foram de confronto quando centenas de manifestantes gritaram palavras de ordem contra agentes do ICE, com os policiais usando gás lacrimogêneo e prendendo alguns manifestantes.
Na noite de sexta-feira, no centro de Minneapolis, cerca de 30 pessoas foram detidas depois que uma marcha bloqueou ruas e causou pequenos danos. Enquanto isso, protestos em todo o país eclodiram em grandes cidades, incluindo Nova York, Washington, D.C., Boston, Filadélfia, Chicago e Seattle, exigindo mudanças na aplicação das leis federais de imigração e o fim das operações do ICE.
"Francamente, este é o resultado previsível da militarização das forças policiais, da contratação de bandidos mascarados e armados até os dentes, e da rotulação grotesca de qualquer pessoa que discorde deste governo como ‘inimigo’", disse à Xinhua, Greg Cusack, ex-membro da Câmara dos Representantes de Iowa.
PREOCUPAÇÕES COM A APLICAÇÃO DAS LEIS DE IMIGRAÇÃO
Desde o início do segundo mandato de Trump, o governo federal intensificou drasticamente as prisões e deportações e endureceu as leis de imigração legal por meio de diversas medidas.
Em 5 de novembro, a Casa Branca publicou um resumo dizendo que "desde que assumiu o cargo, o governo Trump prendeu mais de 150.000 imigrantes ilegais, deportou mais de 139.000 imigrantes ilegais e liberou apenas nove imigrantes ilegais nos EUA".
No entanto, analistas e pesquisas de opinião mostram que a maioria dos eleitores republicanos e alinhados ao movimento MAGA apoia políticas de imigração mais rigorosas.

Pessoas participam de protesto contra o Serviço de Imigração e Alfândega (ICE, na sigla em inglês) em Pasadena, Condado de Los Angeles, Califórnia, Estados Unidos, em 10 de janeiro de 2026. JUNTO COM "Dezenas de protestos contra o ICE são realizados em toda a Califórnia, EUA" (Xinhua)
O artigo observou que muitos americanos acreditam que o governo agiu com muita pressa e cometeu inúmeros erros, desaprovam o uso de máscaras em vez de uniformes por agentes do ICE durante as operações, não gostam da forma como os centros de detenção estão sendo usados e apoiam o direito dos imigrantes de contestar a deportação na justiça.
Trump "lidou com as deportações de maneira muito dura, e há muitas imagens de agentes mascarados em veículos descaracterizados prendendo pessoas nas ruas", disse à Xinhua anteriormente, Darrell West, pesquisador sênior da Instituição Brookings. "Isso preocupa muitas pessoas devido à sua brutalidade e crueldade".
Segundo uma pesquisa do Centro de Pesquisa Pew divulgada em dezembro, 53% dos americanos dizem que o governo está exagerando na deportação de imigrantes que vivem ilegalmente nos Estados Unidos, um aumento em relação aos 44% registrados em março.
"A forma como Trump está lidando com as deportações é impopular... As deportações agressivas que temos visto, muitas vezes contra pessoas sem antecedentes criminais ou mesmo com situação legal nos Estados Unidos, estão muito aquém do que os eleitores indecisos esperavam", disse à agência de notícias Xinhua, Christopher Galdieri, professor de ciência política da Faculdade Saint Anselm, no estado de New Hampshire, nordeste dos EUA.

