Perigoso retorno do Japão ao militarismo e por que devemos lembrar seu passado-Xinhua

Perigoso retorno do Japão ao militarismo e por que devemos lembrar seu passado

2026-01-12 13:56:48丨portuguese.xinhuanet.com

Cartazes com reivindicações políticas são fotografados durante protesto em frente à residência oficial da primeira-ministra japonesa em Tóquio, Japão, em 21 de novembro de 2025. (Xinhua/Jia Haocheng)

A fusão do controle totalitário interno, da agressão militar estrangeira e do alinhamento com as potências fascistas europeias criou uma fase curta e frenética do fascismo japonês. Sua expansão desenfreada provocou, em última análise, uma resposta unida e feroz da aliança antifascista mundial, levando inexoravelmente à sua derrota.

Por Zhang Yuebin e Xu Shijia

Nos últimos anos, o Japão vem reconstruindo seu poderio militar de forma constante e reescrevendo as regras que o restringiram por tanto tempo. Essa mudança atingiu um novo e preocupante tom quando a primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, insinuou que o Japão poderia intervir militarmente no Estreito de Taiwan. Para entender por que isso é tão alarmante, é necessário relembrar como o militarismo japonês se enraizou, como se justificou e os custos devastadores que impôs à Ásia e ao resto do mundo.

Ao longo da história do Leste Asiático, o militarismo japonês teve uma existência peculiar. Moldado por uma trajetória histórica e cultural específica e reforçado pelo relativo isolamento geográfico do Japão, ele se transformou em uma ideologia que alimentou um império que abrangia grande parte do Leste Asiático.

RAÍZES DA SUPREMACIA MILITAR

A ascensão do militarismo japonês moderno remonta a 1192, quando Minamoto Yoritomo se tornou Seii Taishogun e estabeleceu um xogunato, uma forma de autocracia militar que durou quase 700 anos.

O governo dominado pelos samurais, baseado na crença na primazia da força armada, incutiu uma mentalidade persistente nas elites japonesas de que a expansão agressiva era uma solução legítima para as crises nacionais.

Por exemplo, Yoshida Shoin argumentou que as perdas para as potências ocidentais deveriam ser compensadas pela conquista de territórios no nordeste da China e na península coreana, uma ideologia que moldou profundamente os líderes da Restauração Meiji.

ESTADO MILITARISTA ALÉM DO CONTROLE CIVIL

Sob o sistema imperial moderno do Japão, os militares receberam poderes institucionais extraordinários, operando de forma independente por meio de mecanismos-chave:

Acesso direto ao imperador: o quartel-general militar (ou seja, as instituições e a liderança militar japonesas do período pré-guerra) tinha o “direito de audiência direta com o imperador para apresentar memoriais”, permitindo contornar o gabinete e se reportar diretamente ao imperador.

A exigência de ministros militares: os ministros do Exército e da Marinha eram obrigados a ser oficiais da ativa. Ao indicar ou reter candidatos, o quartel-general militar podia manipular o gabinete.

Autonomia de comando em tempo de guerra: o “Regulamento sobre o Quartel-General em Tempo de Guerra” de 1893 estipulava que todos os membros do quartel-general deveriam ser oficiais da ativa, excluindo completamente os funcionários civis.

Em essência, os militares podiam interferir nos assuntos do governo civil, mas o governo não tinha autoridade sobre assuntos militares. Consequentemente, o quartel-general militar foi elevado acima tanto do governo quanto da Dieta, assegurando sua supremacia no aparato estatal.

APRENDENDO AS LIÇÕES ERRADAS

O militarismo japonês foi ainda mais reforçado pela adoção seletiva de ideias ocidentais. A Prússia virou um modelo particular. A Missão Iwakura estudou os sistemas militar e político da Alemanha, observando que “a fundação e o desenvolvimento da Alemanha apresentam semelhanças impressionantes com o Japão. Estudar a política e os costumes sociais deste país trará benefícios muito maiores do que aprender com o Reino Unido e a França”.

O encontro com Otto von Bismarck, que defendia uma visão de mundo segundo a qual “os fortes oprimem os fracos e os grandes intimidam os pequenos”, solidificou a crença de que “a força faz o direito” como uma verdade universal.

Essa ideologia, disseminada por toda a sociedade, gradualmente deu origem a um sistema militarista. Economicamente, a revolução industrial japonesa foi impulsionada pela exploração implacável de seu próprio povo e pela pilhagem agressiva de outros países. A invasão da Península Coreana e da China não apenas lançou as bases para a revolução industrial japonesa, como também estimulou seu desenvolvimento. Esse modelo de capitalismo, construído sobre a agressão e a pilhagem, formou a base socioeconômica do militarismo japonês.

Educacionalmente, o governo japonês promulgou os “Grandes Princípios da Educação” em 1879 e o “Rescrito Imperial sobre Educação” em 1890. Centrados na lealdade ao imperador e no xintoísmo estatal, esses documentos inspiraram a ideologia do culto ao imperador, o conceito de um “Estado militar” e a crença em uma “nação divina”. A educação militarista tornou-se, portanto, um pilar central do sistema.

Sob esse sistema militarista, o Japão anexou Ryukyu, invadiu Taiwan (na China) e a Península Coreana, declarou guerra à China em 1894, provocou a Guerra Russo-japonesa e lucrou enormemente com a Primeira Guerra Mundial, emergindo como uma suposta “potência mundial”. O caminho do Japão para a modernização foi, desde o início, um caminho de expansão agressiva e de colonialismo.

DESCIDA AO FASCISMO

Após a Primeira Guerra Mundial, esse militarismo evoluiu para sua forma mais extrema: o fascismo. Fascistas civis e militares lutaram pela “transformação nacional” e pela “Restauração Showa” para tomar o poder do Estado e estabelecer um regime poderoso dedicado à expansão ultramarina e à construção de um império global.

O Incidente de 26 de fevereiro de 1936 foi um conflito interno entre a facção Kodo e a facção Tosei dentro das forças armadas, que levou ao estabelecimento de um sistema fascista de cima a baixo, conhecido como “estado de defesa nacional reforçada”.

Sob a organização direta dos militares, o Japão entrou em uma sequência rápida e agressiva: provocou o Incidente da Ponte Lugou em julho de 1937, promulgou a Lei de Mobilização Nacional em abril de 1938, assinou o Pacto Tripartite com a Alemanha e a Itália em setembro de 1940, estabeleceu a Associação de Assistência ao Regime Imperial, uma organização fascista, em outubro de 1940 e, por fim, lançou a Guerra do Pacífico em dezembro de 1941.

A fusão do controle totalitário interno, da agressão militar estrangeira e do alinhamento com as potências fascistas europeias criou uma fase curta e frenética do fascismo japonês. Sua expansão desenfreada acabou por provocar uma resposta unida e feroz da aliança antifascista mundial, levando inexoravelmente à sua derrota. Em 15 de agosto de 1945, o militarismo japonês foi compelido a anunciar a rendição incondicional.

LEGADO DE HORROR

As guerras de agressão do Japão infligiram perdas catastróficas de vidas e destruição, causando muito sofrimento aos povos da Ásia. Estima-se que o número de mortos em toda a Ásia Oriental (excluindo o Japão) tenha ultrapassado 19 milhões. O próprio Japão sofreu pesadas perdas: mais de 2 milhões de soldados e 800 mil civis morreram.

De acordo com um levantamento da Agência de Reabilitação Pós-Guerra do Japão, 119 cidades foram destruídas por bombardeios aéreos, 2,4 milhões de casas foram incendiadas e 8,8 milhões de pessoas foram deslocadas. Na fase final da guerra, muitos soldados recrutados à força morreram devido a doenças, desnutrição e fome, ou em “ataques especiais” suicidas e naufrágios.

As guerras de agressão do Japão também foram marcadas por atrocidades sistemáticas que constituem um dos capítulos mais sombrios da história moderna, deixando traumas indeléveis em toda a região. Na China, o Massacre de Nanjing, o bombardeio implacável de Chongqing, as extensas “valas comuns” e os grotescos experimentos humanos da Unidade 731 representam crimes de barbárie indescritível. No Sudeste Asiático, a Marcha da Morte de Bataan, a construção da “Ferrovia da Morte” Tailândia-Birmânia e os massacres em Manila e Cingapura expuseram a brutal essência do militarismo japonês.

Durante a construção da ferrovia, os militares japoneses recrutaram 61.000 prisioneiros de guerra aliados e 200.000 trabalhadores do Sudeste Asiático, submetendo-os a condições impiedosas. A taxa de mortalidade resultante atingiu 20% entre os prisioneiros de guerra e impressionantes 50% entre os trabalhadores, com uma média de mais de 250 mortes por quilômetro de trilho construído.

Nota da edição: Os autores são pesquisador e pesquisador assistente do Instituto de História Mundial da Academia Chinesa de Ciências Sociais.

As opiniões expressas neste artigo são da autoria e não refletem necessariamente as posições da Agência de Notícias Xinhua.

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