
Foto tirada em 4 de março de 2025 exibe demonstração de um robô humanoide no Congresso Mundial de Telefonia Móvel 2025 em Barcelona, Espanha. (Xinhua/Zhao Dingzhe)
Em 2025, a UE ajustou sua abordagem sob pressão dos EUA e em meio ao crescente reconhecimento da fragilidade digital da Europa. Agora a questão é como o bloco manterá sua ambição de "soberania digital" diante dos desafios em 2026.
Por Ding Yinghua e Zhang Xinwen
Bruxelas, 8 jan (Xinhua) -- Após um ano de disputas entre a União Europeia (UE) e os Estados Unidos sobre regulamentações tecnológicas, a Europa entra em 2026 enfrentando crescente pressão transatlântica e uma lacuna de capacidade e infraestrutura interna.
Com Washington encerrando 2025 impondo restrições de visto a pioneiros europeus defensores da soberania digital, o desafio para a UE é transformar a regulamentação em vantagem real no novo ano.
DISPUTAS TECNOLÓGICAS TRANSATLÂNTICAS DE "TOMA-LÁ-DÁ-CÁ"
Antes da véspera de Natal de 2025, o Departamento de Estado dos EUA lançou uma bomba diplomática, impondo restrições de visto a cinco indivíduos da UE e do Reino Unido. Entre eles estava o ex-comissário europeu Thierry Breton, que o lado americano descreveu como "o mentor da Lei de Serviços Digitais (DAS, na sigla em inglês)". Breton, que deixou a Comissão em 2024, posteriormente condenou a ação americana como uma "caça às bruxas".

Thierry Breton, comissário europeu para o Mercado Interno, discursa em coletiva de imprensa na sede da UE em Bruxelas, Bélgica, em 19 de fevereiro de 2020. (Xinhua/Zheng Huansong)
Essa recente escalada de tensões ocorreu poucas semanas depois de a Comissão Europeia emitir sua primeira decisão de não conformidade com a DSA em 5 de dezembro de 2025. A Comissão multou a plataforma de mídia social X em 120 milhões de euros (cerca de 141 milhões de dólares americanos) pelo design enganoso de seu selo azul, pela falta de transparência em seu repositório de anúncios e por não fornecer aos pesquisadores acesso a dados públicos.
A DSA, juntamente com a Lei dos Mercados Digitais (DMA, na sigla em inglês) e outros regulamentos, compõe o núcleo das regras da UE destinadas a controlar as grandes empresas de tecnologia por meio de maior responsabilização e transparência.
Conforme a UE acelerou a implementação das regras nos últimos dois anos, uma disputa transatlântica sobre conformidade também ganhou força. Além de multar a X, a Comissão Europeia abriu duas investigações antitruste contra o Google e a Meta, aplicando ao Google uma multa de 2,95 bilhões de euros e à Apple uma penalidade de 500 milhões de euros.

Novo celular da Apple é fotografado em Cupertino, Califórnia, Estados Unidos, em 9 de setembro de 2025. (Xinhua/Wu Xiaoling)
Embora o presidente dos EUA, Trump, tenha ameaçado retaliar com tarifas adicionais caso a UE mantenha o que ele chama de regras digitais "discriminatórias" e multas direcionadas a empresas de tecnologia americanas, a disputa transatlântica sobre soberania digital não havia se tornado pessoal, até agora.
"Estamos em uma competição de ‘toma-lá-dá-cá’ que não vai parar durante o governo Trump", disse Nicolas Petit, professor de Direito da Concorrência no Departamento de Direito do Instituto Universitário Europeu.
CALCANHAR DE AQUILES DIGITAL DA EUROPA
A ameaça de retaliação dos Estados Unidos é apenas metade da história. A UE entrou nessa disputa em uma posição de dependência, com controle insuficiente de sua própria economia digital e infraestrutura subdesenvolvida.
Miguel De Bruycker, diretor do Centro de Cibersegurança Bélgica Europa, comentou recentemente que é "atualmente impossível" armazenar dados integralmente na Europa porque as empresas americanas dominam a infraestrutura digital. "Perdemos toda a nuvem. Perdemos a internet, sejamos honestos", disse ele ao jornal inglês Financial Times.
De acordo com um relatório de 2025 do Synergy Research Group, uma empresa de inteligência de mercado, os provedores europeus de infraestrutura em nuvem representam apenas 15% do seu próprio mercado. A Synergy disse que a enorme escala de investimentos de gigantes da tecnologia dos EUA, como Amazon, Microsoft e Google, fez delas as principais beneficiárias do crescimento da computação em nuvem, deixando para as concorrentes europeias "uma tarefa impossível".

Participante manipula cabeça de seu robô humanoide na 4ª edição do Robofest, um festival de tecnologia, na Universidade Politécnica de Bucareste, em Bucareste, Romênia, em 1º de novembro de 2025. (Foto de Cristian Cristel/Xinhua)
Em relação à inteligência artificial (IA), a Europa também está ficando para trás na corrida global. Charlotte de Montpellier, economista sênior do ING, disse que o continente abriga apenas alguns modelos de IA e permanece muito atrás dos Estados Unidos e, em menor grau, da China, em inovação e implementação.
A mesma lacuna existe para os chips. O Tribunal de Contas Europeu disse, em um relatório de abril de 2025, que é "muito improvável" que a UE atinja sua meta da Década Digital de alcançar pelo menos 20% da produção global de semicondutores de ponta e sustentáveis até 2030. Embora a Lei de Chips da UE de 2022 tenha dado novo impulso ao setor de microchips, os investimentos gerados pela lei mostraram que a meta da UE está longe de ser alcançada, disse o relatório.
"A Europa tem uma posição muito limitada na maioria das camadas da infraestrutura digital", comentou Angela Garcia Calvo, professora assistente da Escola de Negócios Henley, da Universidade de Reading. "Ela pode promulgar regulamentos, mas é improvável que defina o padrão em áreas nas quais depende de outros".
CAMINHO ÁRDUO EM 2026
Em 2025, a UE ajustou sua abordagem sob pressão dos EUA e em meio ao crescente reconhecimento da fragilidade digital da Europa. Agora a questão é como o bloco manterá sua ambição de "soberania digital" diante dos desafios em 2026.
A expansão da capacidade vira a prioridade máxima. A Comissão Europeia deve lançar propostas no início de 2026 para estabelecer "gigafábricas de IA" da UE, um passo fundamental nos planos de construir até cinco grandes centros de computação para o desenvolvimento e treinamento de modelos de IA de última geração em todo o bloco.

Maquete de cidade inteligente é vista no Congresso Mundial da Exposição de Cidades Inteligentes 2025 em Barcelona, Espanha, em 4 de novembro de 2025. (Foto de Joan Gosa/Xinhua)
A Europa também busca maior controle no setor de computação em nuvem. A Comissão Europeia planeja propor uma Lei de Desenvolvimento de Nuvem e IA em 2026, com o objetivo de triplicar a capacidade de data centers da UE em cinco a sete anos.
Petit disse que a UE percebeu que a soberania digital não pode ser alcançada apenas por meio de regulamentação, mas requer capacidades tecnológicas nacionais e uma economia impulsionada pela inovação. Ele alertou, no entanto, que: "É muito difícil concretizar essa visão de uma indústria tecnológica competitiva porque não temos os instrumentos e os recursos econômicos necessários".
Simplificar as regras para impulsionar o setor também está na agenda. Em novembro, a Comissão Europeia propôs alterações na Lei de IA da UE por meio de um "pacote digital", parte de um pacote mais amplo para reduzir a burocracia.
O pacote foi bem recebido pela indústria europeia como uma reformulação orientada para a competitividade. Embora alguns analistas tenham interpretado isso como um sinal da disposição da UE em estabilizar as relações com os Estados Unidos, muitos argumentam que esses esforços de desescalada dificilmente resolverão a disputa transatlântica subjacente.
"Cada vez que a UE agir contra uma empresa americana, o governo Trump usará isso como moeda de troca para obter algo. Cada multa imposta por Bruxelas será recebida com protestos e usada como justificativa para sanções contra a Europa por meio de tarifas, controles de exportação ou controles de importação", disse Petit.
O caminho da UE rumo à soberania digital provavelmente continuará com obstáculos. (1 euro = 1,17 dólar americano)


