
Legumes com placas de preços em euros e lev búlgaro em um mercado em Sófia, Bulgária, em 31 de dezembro de 2025. (Xinhua/Peng Ziyang)
Em grandes redes de supermercados, os clientes eram constantemente lembrados da mudança iminente. Juliana Golcheva, dona de um restaurante na cidade de Sandanski, no sudoeste do país, disse à mídia local: "Com certeza precisaremos de um tempo para nos adaptar".
Sófia, 1º jan (Xinhua) -- Em um supermercado pouco iluminado, um idoso estava no caixa, suas mãos enrugadas procurando moedas de lev na carteira. Quando o caixa entregou as novas e brilhantes moedas de euro, ele as olhou cuidadosamente, com uma mistura de curiosidade e apreensão no rosto. À meia-noite de 1º de janeiro de 2026, a Bulgária entrou oficialmente na zona do euro.
A partir de 8 de agosto de 2025, os comerciantes foram obrigados por lei a exibir os preços em lev e euro, sob pena de multas em caso de descumprimento. Em grandes redes de supermercados como Kaufland e Lidl, os clientes eram constantemente lembrados da mudança iminente.
Um anúncio gravado ecoava pelos corredores: "A partir de 1º de janeiro de 2026, o euro estará em uso. Agora temos a exibição de preços em ambas as moedas, conforme exigido por lei". Grandes placas nas entradas das lojas reforçavam a mensagem. Em toda a capital, as estações de metrô estavam cheias de cartazes promocionais com o tema do euro, cobrindo assentos e escadas rolantes.
Recentemente, longas filas se formavam diariamente em casas de câmbio, incluindo os centros de atendimento do Banco Nacional da Bulgária. As máquinas de troca de moedas instaladas em supermercados frequentemente quebravam devido ao uso intenso.

Foto tirada em 27 de julho de 2023 mostra símbolo do euro em Frankfurt, Alemanha. (Xinhua/Zhang Fan)
Nas semanas que antecederam a transição, muitos estrangeiros, assim como búlgaros, evitaram completamente os pagamentos em dinheiro, especialmente as transações que exigiam troco.
Isso foi um desafio para os pequenos comércios de rua que operavam exclusivamente com dinheiro vivo. Os operadores de máquinas de venda automática de café e comida enfrentaram dificuldades particulares. De acordo com a Associação Búlgara de Máquinas de Venda Automática, o país possui mais de 30.000 máquinas de venda automática de alimentos e bebidas, das quais só uma pequena parte aceita pagamentos com cartão. Devido a restrições legais, as máquinas só foram reprogramadas após a entrada oficial do euro em circulação.
Nos primeiros dias do ano novo, muitas dessas máquinas parariam de funcionar, um transtorno significativo em pequenas cidades onde os moradores dependiam delas diariamente.
O período de Natal e Ano Novo foi um dos mais caóticos. Os consumidores carregavam tanto lev quanto euro em suas carteiras. Os bancos alertaram que o sistema financeiro passaria por uma transição entre 31 de dezembro de 2025 e 2 de janeiro de 2026, com uma interrupção prevista de quatro horas. Nesse período, as máquinas de cartão parariam de funcionar, os serviços bancários on-line seriam suspensos e os caixas eletrônicos ficariam fora de serviço.
Juliana Golcheva, dona de um restaurante na cidade de Sandanski, no sudoeste do país, disse à imprensa local: "Com certeza precisaremos de um tempo para nos adaptar. Não acho prudente que essa mudança entre em vigor imediatamente após a meia-noite. É véspera de Ano Novo, causará confusão e transtornos".

Cidadão segura nota em lev búlgaro durante pagamento em Sófia, Bulgária, em 31 de dezembro de 2025. (Xinhua/Peng Ziyang)
Os donos de restaurantes que permaneceram abertos naquela noite incentivaram os clientes a pagar com cartão. Após a meia-noite, no entanto, os estabelecimentos foram obrigados a dar o troco em euros, mesmo que os clientes pagassem em levs.
"No início, dar troco será complicado, não nos enganemos", disse Atanas, caixa de um supermercado. "Não estou preocupado com a operação em si, mas sim se os clientes entenderão o método de pagamento, principalmente os idosos".
Durante meses, o euro dominou os noticiários da Bulgária. Programas de TV em horário nobre e sites de debateram se os preços subiriam, frequentemente citando experiências de outros países da zona do euro. Economistas enfatizaram repetidamente que, para a integração ao mercado único da UE, a adoção de uma moeda comum era a única opção viável.
Se exemplos como Portugal e Áustria tinham o objetivo de tranquilizar, a Croácia, que ingressaria na zona do euro em 2023, gerou preocupação. Ana Knezevic, presidente da Associação Croata de Proteção ao Consumidor, declarou à mídia búlgara: "Os preços já estão fora de controle e continuam subindo. As pessoas reclamam do euro, simplesmente não conseguem acompanhar".
Pesquisas oficiais indicavam que a Bulgária estava preparada, com pouco mais de 51% da população apoiando a adoção do euro. No entanto, essa pequena margem evidenciou uma profunda divisão social. Uma pesquisa da agência Gallup Internacional nos Balcãs mostrou que quase 60% dos búlgaros temiam que o euro aumentasse o custo de vida.

Cliente escolhe Martenitsa em uma loja em Sófia, Bulgária, em 1º de março de 2025. (Xinhua/Lin Hao)
Os apoiadores do euro estavam concentrados principalmente em Sófia e outras grandes cidades, especialmente os jovens e bem-sucedidos. Profissionais com formação superior, atuando em indústrias modernas e muitos com experiência de estudo ou trabalho no exterior.
"Estou muito feliz por estarmos caminhando rumo à zona do euro", disse a arquiteta Yordanka Kamburova, de Sófia. "É um caminho lógico que nosso país segue há muito tempo. Estou tranquila e orgulhosa por estarmos nos tornando membros plenos deste mundo financeiro".
Grandes empresas integradas às cadeias de suprimentos europeias previram benefícios imediatos, enquanto as microempresas se mostraram mais cautelosas. Nina, dona de uma pequena padaria em Sófia, disse: "Quando vejo os preços já subindo, é difícil acreditar que eles vão cair depois da introdução do euro". "É como uma família contra a outra, a economia da UE contra a nossa. Não sei se realmente somos uma só família".
O grupo mais apreensivo continuava sendo o dos moradores de pequenas cidades e vilarejos, muitas vezes idosos. Muitos guardavam moedas de lev debaixo de colchões ou tábuas do assoalho, o que exigiu explicações pacientes dos funcionários do banco.
"É triste me despedir do lev búlgaro", disse Ivan Tsenkov, engenheiro aposentado de 80 anos. "Ele está ligado à nossa dignidade. Aderir a uma União Europeia em declínio parece um erro".
George Nikolov, dono de uma gráfica e colecionador de moedas em Sófia, traçou a história da moeda búlgara desde os tempos otomanos até os dias atuais. "O lev é uma moeda muito bonita", disse ele com nostalgia.

Visitantes na Feira Internacional de Alimentos de 2025 em Sófia, Bulgária, em 12 de novembro de 2025. (Foto de Marian Draganov/Xinhua)
Kits iniciais de moedas de euro, com inscrições em cirílico búlgaro e temas nacionais, esgotaram no primeiro dia. Embora diferentes das moedas em circulação, elas se mostraram tão populares que os caixas dos bancos trabalharam em regime de horas extras até a véspera de Natal.
"O euro é um instrumento financeiro", disse Katarina Nikolic, sócia de uma sorveteria em Sófia. "Isso não mudará nossa identidade cultural. Os búlgaros manterão sua cultura. Acredito na Europa e, atualmente, um continente unido importa muito".

