
Participantes são fotografados durante manifestação em uma rua de Tóquio, Japão, em 15 de agosto de 2025. (Xinhua/Jia Haocheng)
Por Daryl Guppy
Há um fio condutor que atravessa a Ásia. Em Cingapura, ele é como uma praça vazia na periferia da movimentada Chinatown, um reconhecimento silencioso do massacre de Sook Ching. Na Malásia, é mais frequentemente encontrado na literatura que busca equilibrar cooperação e obrigação. Na Coreia do Sul, está presente na luta de décadas para superar a vergonha da escravidão sexual forçada. Ao longo do arquipélago indonésio, é uma história não falada, deliberadamente suprimida para deixar os fantasmas das marchas da morte intocados. Para alguns visitantes estrangeiros, é uma jornada de lembrança, uma homenagem ancestral com o objetivo de reconciliação, ou uma tentativa de compreender as infames pontes sobre os rios tailandeses.
Para todos na Ásia, essas pontes são, por vezes, lembretes nada sutis da exploração da Ásia pelo Japão Imperial. Na China, as verdades sobre o Massacre de Nanjing, as atrocidades da Unidade 731 e a linguagem exata da agressão e da subjugação permanecem vivas na memória.
Para muitos no mundo ocidental, até mesmo a memória do 80º aniversário da derrota do Japão na Segunda Guerra Mundial permaneceu enterrada na história, mal reconhecida e sem qualquer indício de que lições foram aprendidas. Com indiferença casual, presumem que a Ásia, assim como eles, esqueceu ou perdoou.

Cerimônia nacional em memória das vítimas do Massacre de Nanjing é realizada no Memorial das Vítimas do Massacre de Nanjing pelos Invasores Japoneses em Nanjing, capital da Província de Jiangsu, no leste da China, em 13 de dezembro de 2025. (Xinhua/Ji Chunpeng)
As palavras têm o poder da lembrança. A Alemanha não fala mais do conceito de "Lebensraum", espaço vital, que fundamentou seus ataques na Europa Oriental, porque a Europa ficaria horrorizada com a lembrança e a intenção implícita.
A primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, reviveu o equivalente japonês de "Lebensraum" com seu recente uso do termo "situação de risco de sobrevivência" em relação a Taiwan. O ex-ministro das Relações Exteriores de Cingapura, George Yeo, observou que essa foi exatamente a linguagem política que justificou os ataques do Japão à China e, posteriormente, à região asiática em geral.
A resposta da China é robusta porque reconhece a ressonância histórica. "Situação de risco de sobrevivência" era o termo político que justificava o "casus belli" ou causa de guerra do Japão. Sua ressurreição mais recente não pode ser descartada como um erro casual. Ela sinaliza uma mudança de política.
A resposta da China deixa os Estados Unidos e seus aliados ocidentais perplexos, porque eles desconsideram a influência de uma história que não escreveram. Os tremores da história genuína reverberaram com mais desconforto na China, mas não passaram despercebidos em outras partes da região.
A diferença entre as percepções asiáticas e europeias da declaração de Takaichi está enraizada em diferentes experiências de guerra contra o Japão.
Para os Estados Unidos, a batalha do Pacífico diz respeito, em grande parte, à proteção e à expansão final de seus interesses nas Filipinas e nas ilhas dispersas do Pacífico. Para as potências coloniais europeias, o teatro de operações do Extremo Oriente tratava da reconquista de impérios e da proteção da supremacia e do comércio europeus.
Na Ásia, porém, é lembrado que, ao restaurar essas ordens coloniais, os europeus rapidamente recrutaram e rearmaram o inimigo japonês, recentemente derrotado, transformando-o em milícias para impor o retorno europeu.
Os interlocutores ocidentais contemporâneos na Ásia não compreendem a profundidade da antipatia em relação a um Japão militarizado. Há uma geografia inalterável em jogo, que nada tem a ver com cadeias de ilhas, tão centrais para o pensamento estratégico dos EUA. A China é central para a Ásia. É um alicerce cultural que tece fios históricos em todas as interações políticas da Ásia. É a trama e a urdidura do Extremo Oriente, incluindo o Japão.
Contudo, a China não aspirou à dominação militar da Ásia e do Extremo Oriente como um todo. Somente sob o controle da Dinastia Yuan (1271-1368) é que a entidade política se estendeu pelas planícies da Ásia Central.

Pessoas passam por um pôster do filme "Evil Unbound" no Salão de Exposições de Evidências dos Crimes Cometidos pela Unidade 731 do Exército Imperial Japonês em Harbin, capital da província de Heilongjiang, no nordeste da China, em 18 de setembro de 2025. (Foto por Zhang Dawei/Xinhua)
O Japão é a única nação asiática a tentar impor domínio militar em toda a região. Foi uma agressão tão incomum, tão singular, na história da Ásia, que não pode ser convenientemente esquecida. A brutalidade, ainda não reconhecida pelo Japão, contribui para a persistência da memória.
As nações ocidentais subestimam a profundidade da lembrança, do medo e da apreensão que impulsionam a resposta à remilitarização do Japão. Isso estabelece uma abordagem para a região que diverge da cooperação comercial que se desenvolveu após a derrota em 1945.
A ideia ocidental de que a Ásia aceitará de bom grado um Japão militarmente ressurgente é profundamente falha, enraizada em uma compreensão deficiente da história regional vivida.
O pensamento ocidental é que o Japão é um baluarte contra a China. Para muitos na Ásia, a sensação é de que a China é um baluarte contra as ambições militares ressurgentes do Japão.
Em sua ânsia de deter o progresso da China, alguns no Ocidente estariam dispostos a acreditar que a política de "situação de risco de sobrevivência" contém apenas intenções benignas, porque a militarização do Japão serve aos seus próprios propósitos de contenção da China.
O temor mais profundo e crescente na Ásia é que a compreensão deficiente do Ocidente sobre a Ásia traga a guerra para a região. O fio condutor vermelho-sangue que atravessa a Ásia não está desgastado nem rompido.
Nota da edição: Daryl Guppy é ex-membro do conselho nacional do Conselho Empresarial Austrália-China (ACBC, na sigla em inglês) e ex-presidente da filial do ACBC no Território do Norte.
As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente as posições da Agência de Notícias Xinhua.

