Presidente francês, Emmanuel Macron, (esquerda, frente) cumprimenta presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, no Palácio do Eliseu em Paris, França, no dia 26 de março de 2025. (Xinhua/Gao Jing)
Líderes europeus mostraram forte apoio à Ucrânia em uma cúpula em Paris na quinta-feira, mas o consenso sobre as principais iniciativas se mostrou ilusório, com alguns países receosos em ir longe demais sem o apoio dos EUA.
Paris, 28 mar (Xinhua) -- Uma cúpula convocada em Paris na quinta-feira reuniu líderes europeus para reforçar o apoio à Ucrânia. No entanto, apesar de se apresentarem como uma "coalizão dos dispostos", nem todos os estados pareciam estar na mesma página, com alguns receosos em ir longe demais sem o apoio dos EUA.
COALIZÃO FRANCO-BRITÂNICA
O presidente francês, Emmanuel Macron, revelou várias iniciativas para apoiar a Ucrânia na cúpula de quinta-feira, em meio à crescente incerteza sobre a assistência contínua dos EUA.
Em uma coletiva de imprensa após a cúpula da "coalizão dos dispostos", Macron anunciou um plano franco-britânico conjunto para enviar uma equipe à Ucrânia a fim de ajudar a moldar a futura estrutura do exército ucraniano. Macron disse que ele e o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, "liderariam em conjunto" os esforços de coordenação da coalizão internacional de aliados da Ucrânia.
Ele também deu a ideia de implantar "forças de garantia" de alguns estados-membros da União Europeia dispostos para locais estratégicos na Ucrânia, caso um acordo de paz seja alcançado com a Rússia. A implantação potencial seria um impedimento e faria parte das garantias de segurança de longo prazo para a Ucrânia. No entanto, "não há consenso sobre isso", reconheceu Macron.
A cúpula seguiu o anúncio de Macron na quarta-feira de que a França forneceria 2 bilhões de euros adicionais (cerca de 2,2 bilhões de dólares americanos) em ajuda à Ucrânia. O pacote inclui uma variedade de armas, como mísseis antitanque, sistemas de defesa aérea e mísseis terra-ar.
Sebastien Lignier, chefe do departamento político da revista semanal Valeurs Actuelles, expressou ressalvas sobre a ajuda contínua à Ucrânia: "Estamos nos aproximando de 30 bilhões de euros em apoio total à Ucrânia, e ainda há incertezas: para onde esse dinheiro está indo? O que me alarma é que não sabemos aonde tudo isso está levando".
MUITAS INICIATIVAS E POUCOS ACORDOS
A cúpula de Paris gerou várias propostas, mas poucos compromissos firmes. Enquanto os líderes europeus expressaram forte apoio à Ucrânia, o consenso sobre as principais iniciativas se mostrou ilusório.
Além da promessa da França de cerca de 2 bilhões de euros em nova ajuda, incluindo aviões de guerra e mísseis, nenhum compromisso concreto de financiamento foi anunciado na frente financeira.
Sobre a implantação de "forças de garantia", muitos líderes mostraram incerteza.
O chanceler alemão, Olaf Scholz, continuou cauteloso sobre a proposta apresentada por Macron e Starmer de enviar tropas europeias para a Ucrânia após um futuro cessar-fogo. Ele disse que a Alemanha estava "focando no que está imediatamente à mão" ao continuar o apoio militar ao exército ucraniano.
A primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, que sempre expressou ressalvas sobre tropas adicionais, também reiterou a recusa de Roma em enviar forças para impor qualquer acordo de paz.
Starmer disse que a reunião de Paris fez progresso "em termos de números e intenção", mas admitiu que ainda não poderia dizer quantos países estavam dispostos a contribuir com tropas ou se algum progresso foi feito para garantir o apoio dos EUA para a iniciativa.
Até o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, reconheceu que "há muitas dúvidas" e "poucas respostas até o momento" sobre a força proposta, principalmente sobre quem a lideraria e seu mandato.
MAIS DISTÂNCIA?
A reunião de quinta-feira seguiu relatos da Casa Branca de que a Rússia e a Ucrânia concordaram com os contornos de um possível cessar-fogo no Mar Negro durante conversas paralelas com autoridades dos EUA na Arábia Saudita.
Os líderes europeus, no entanto, estavam unidos em sua posição de que as sanções contra a Rússia não deveriam ser flexibilizadas, mas intensificadas, marcando uma clara divergência da abordagem mais conciliatória do presidente dos EUA, Donald Trump.
As tensões vêm aumentando há meses. Em fevereiro, o vice-presidente dos EUA, JD Vance, criticou a abordagem da Europa à democracia e à imigração durante um discurso em Munique. Em um bate-papo privado no grupo Signal, Vance teria demonstrado desdém pela Europa mais uma vez.
Alguns líderes europeus ainda esperam uma mudança na posição dos EUA sobre o envolvimento militar. Meloni disse que esperava que os Estados Unidos participassem da próxima reunião europeia sobre a Ucrânia.
Macron também enquadrou a cúpula de quinta-feira como complementar aos esforços paralelos de Washington com Kiev e Moscou e ressaltou a importância do apoio americano contínuo para qualquer potencial implantação europeia. No entanto, a Europa tem preocupações crescentes de que a Casa Branca possa, em último caso, deixá-la fora de qualquer acordo futuro, de acordo com o POLITICO Europe.
Mary Dejevsky, comentarista do jornal on-line britânico The Independent, comentou: "A cúpula da ‘Coalizão dos Dispostos’ em Paris provou que os EUA e a Europa estão a um oceano de distância".
"O que está ficando cada vez mais claro", concluiu Dejevsky, "é uma forte fenda entre os dois lados do Atlântico, que pode ficar intransponível".