
Uma criança palestina fica sobre os escombros após um ataque aéreo israelense no campo de refugiados de Nuseirat, no centro da Faixa de Gaza, em 19 de maio de 2024. (Agência de Notícias da Palestina/Divulgação via Xinhua)
Embora o reconhecimento tenha recebido reações mistas na Europa, a posição do continente em relação a Israel mudou gradualmente, especialmente porque mais de 35.000 palestinos foram mortos desde 7 de outubro do ano passado. A mudança expôs as crescentes divergências entre os Estados Unidos e a Europa.
Beijing, 23 mai (Xinhua) -- Noruega, Irlanda e Espanha decidiram nesta quarta-feira reconhecer a Palestina como um Estado, marcando uma mudança significativa na política europeia mais de sete meses após o início do atual conflito israelense-palestino.
No entanto, o conselheiro de segurança nacional dos EUA, Jake Sullivan, descartou a medida das três nações como "reconhecimento unilateral" em uma coletiva de imprensa na quarta-feira, afirmando que o presidente Joe Biden acredita que a solução de dois estados deve ser alcançada "por meio de negociações diretas entre as partes".
Como Israel e o Hamas não conseguiram chegar a um acordo de cessar-fogo durante as negociações no Cairo no início deste mês, mediadas pelo Egito, Catar e Estados Unidos, a oposição dos EUA ao reconhecimento destacou a expansão das divisões transatlânticas.

Captura de tela de vídeo fornecida pelo governo norueguês mostra o primeiro-ministro norueguês Jonas Gahr Store (d) e o ministro das Relações Exteriores Espen Barth Eide participando de uma coletiva de imprensa em Oslo, capital da Noruega, em 22 de maio de 2024. (Governo da Noruega/Divulgação via Xinhua)
ONDA DE RECONHECIMENTO
Nos anúncios coordenados de quarta-feira, a Noruega foi a primeira a agir. O primeiro-ministro norueguês, Jonas Gahr Store, declarou em uma coletiva de imprensa que "um Estado palestino é um pré-requisito para alcançar a paz no Oriente Médio".
A Irlanda o seguiu rapidamente. Em Dublin, o primeiro-ministro irlandês Simon Harris disse que a decisão não deveria esperar "indefinidamente" quando é "a coisa certa a fazer". Ele expressou confiança de que mais países dariam esse importante passo nas próximas semanas.
A Espanha aderiu logo em seguida. O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, disse que a Espanha reconhece a Palestina "pela paz, pela justiça e pela coerência", pedindo que ambas as partes dialoguem para chegar a uma solução de dois Estados.
Na semana passada, vários outros países europeus, incluindo Malta e Eslovênia, também sinalizaram sua intenção de seguir o exemplo. O primeiro-ministro belga, Alexander De Croo, disse na quarta-feira que a Bélgica estava aguardando o "momento certo".
Shada Islam, uma comentarista de Bruxelas sobre assuntos da UE, sugeriu que o reconhecimento pela Noruega, Irlanda e Espanha "quase certamente" será seguido pela Bélgica, Malta e Eslovênia nas próximas semanas.
Alguns dos aliados tradicionais dos Estados Unidos estão considerando o reconhecimento. O ministro das Relações Exteriores da França, Stephane Sejourne, disse que o reconhecimento não é um tabu, embora tenha enfatizado o momento, dizendo que as condições ainda não foram atendidas. A ministra das Relações Exteriores da Alemanha, Annalena Baerbock, fez uma declaração semelhante.
O reconhecimento de quarta-feira provocou a ira de Israel, que anunciou a retirada de seus enviados aos três países.

Pessoas recebem ajuda alimentar na cidade de Rafah, no sul da Faixa de Gaza, em 19 de maio de 2024. (Foto poe Khaled Omar/Xinhua)
AMPLIAÇÃO DAS DIVERGÊNCIAS ENTRE EUA E EUROPA
Embora o reconhecimento tenha recebido reações mistas na Europa, a posição do continente em relação a Israel mudou gradualmente, especialmente porque mais de 35.000 palestinos foram mortos desde 7 de outubro do ano passado. A mudança expôs as crescentes divergências entre os Estados Unidos e a Europa.
Store também revelou que a Noruega apoia a concessão do status de membro pleno da Palestina nas Nações Unidas. Os Estados Unidos, no entanto, vetaram um projeto de resolução em abril, recomendando que a Assembleia Geral admitisse a Palestina nas Nações Unidas, o que provocou uma decepção generalizada.
O Reino Unido e a Suíça se abstiveram da votação, enquanto os demais membros do Conselho de Segurança da ONU votaram a favor.
Dias antes, os Estados Unidos demonstraram apoio a Israel ao denunciar um pedido do Tribunal Penal Internacional (TPI) para prender duas autoridades do governo israelense, incluindo o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, e três líderes do Hamas.
Biden chamou o pedido de "ultrajante", dizendo em uma declaração que "sempre estaremos ao lado de Israel contra ameaças à sua segurança". Em abril, Biden também aumentou a ajuda dos EUA a Israel ao assinar um projeto de lei de assistência à segurança que incluía aproximadamente US$ 14,1 bilhões em financiamento para apoiar Israel.
O governo Biden está considerando possíveis sanções contra o TPI por causa do pedido de prisão, disse na terça-feira o secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken. Os Estados Unidos e Israel não são membros do TPI.
Em contrapartida, o Ministério das Relações Exteriores da França declarou seu apoio ao TPI, dizendo que apoia "a luta contra a impunidade em todas as situações". A ministra de Relações Exteriores da Bélgica, Hadja Lahbib, chamou o pedido do TPI de "um passo importante na investigação da situação na Palestina".
O chefe da política externa da UE, Josep Borrell, afirmou que "todos os Estados que ratificaram os estatutos do TPI são obrigados a executar a decisão do Tribunal".
Como as agências da ONU continuaram a alertar sobre as terríveis consequências em Gaza, incluindo fome e epidemias, os líderes da UE pediram unanimemente em março "uma pausa humanitária imediata que leve a um cessar-fogo sustentável" em Gaza.
Apesar disso, os Estados Unidos mantiveram sua posição de trégua em troca de reféns, embora sua linguagem tenha se tornado mais ambígua sob pressão.
Em 22 de março, o Conselho de Segurança da ONU rejeitou um projeto de resolução proposto pelos EUA sobre um cessar-fogo em Gaza. Nabil Kahlouche, especialista em estudos estratégicos do Instituto Nacional de Estudos Estratégicos Globais, sediado em Argel, argumentou que vincular um cessar-fogo à libertação dos detentos israelenses contradiz a sequência lógica dos eventos e que "a libertação dos detentos deve seguir a cessação da agressão, e não o contrário".
A declaração da UE também pediu "a libertação incondicional de todos os reféns", sem vinculá-la a um cessar-fogo.
"Acredito que é importante que, em questões de tamanha importância moral e geopolítica, os governos nacionais da UE possam tomar decisões com base em seus próprios valores e interesses, independentemente do que dizem seus parceiros da UE e da posição adotada pelos EUA", disse Islam à Xinhua.










