Destaque: Além das medalhas, a trajetória do wushu no Senegal chega ao palco olímpico-Xinhua

Destaque: Além das medalhas, a trajetória do wushu no Senegal chega ao palco olímpico

2026-11-05 10:46:25丨portuguese.xinhuanet.com

Mahib Amar compete na fase preliminar masculina de taijishan (taiji com leque), parte da prova combinada de taijiquan, na modalidade de wushu taolu, nos Jogos Olímpicos da Juventude 2026, em Diamniadio, no Senegal, em 2 de novembro de 2026. (Xinhua/Sun Fei)

Jovens atletas senegaleses de wushu fizeram sua estreia olímpica em casa, com o apoio de treinadores chineses, um marco no desenvolvimento da modalidade no país anfitrião.

Dacar, 3 nov (Xinhua) -- Um leque dobrável é aberto com um estalo. Um pé atinge o solo com uma batida vigorosa. Um bastão longo corta o ar antes de parar, vibrando.

Nos Jogos Olímpicos da Juventude 2026, em Dacar, os movimentos das artes marciais chinesas ganharam vida em um palco olímpico pela primeira vez.

Para Ousmane Sakho, técnico principal da seleção senegalesa de wushu, ver seus jovens atletas competindo em um evento olímpico em seu próprio país representa a realização de um sonho que, um dia, ele considerou impossível.

"Nunca na minha vida!", exclamou Sakho ao ser questionado se já havia imaginado um momento como esse. "No início, treinávamos com quase nada. Eu jamais teria imaginado levar jovens aos Jogos Olímpicos da Juventude aqui no Senegal".

Sua trajetória começou décadas antes, quando um filme de kung fu, assistido em uma fita de vídeo, apresentou-lhe as artes marciais chinesas.

"Fiquei imediatamente fascinado", relembrou ele.

O wushu logo se tornou mais do que uma prática esportiva. Ele o ensinou a controlar o corpo, enfrentar dificuldades e encontrar o que descreveu como "paz interior".

Aos 20 anos, Sakho decidiu se dedicar a promover a modalidade no Senegal, um país onde o futebol domina o cenário esportivo e onde o wushu, por muito tempo, lutou para conquistar reconhecimento.

Mas o entusiasmo não era suficiente para garantir um local de treinamento, equipamentos ou uma renda estável. Por mais de uma década, ele continuou ensinando, apesar dos recursos limitados, movido pela convicção de que o esporte é valioso para os jovens.

Então, surgiu uma oportunidade que ele jamais esperara: o wushu faria sua estreia como modalidade oficial com disputa de medalhas em Dacar 2026.

Nomeado treinador da equipe juvenil de wushu do Senegal, Sakho começou a preparar uma nova geração de atletas para a maior competição de suas vidas.

Entre eles estavam Mahib Amar e Woreye Ndiaye, ambos com 16 anos, que acabariam representando o país-sede nos Jogos.

Contudo, chegar ao palco olímpico exigia mais do que apenas determinação.

Diferentemente das modalidades de artes marciais que Sakho ensinara durante anos, o wushu competitivo exige a execução precisa de sequências padronizadas, com critérios rigorosos que regem a técnica, a direção, o grau de dificuldade e os movimentos.

Como tinham pouca experiência em competições internacionais de alto nível, o treinador senegalês e seus atletas ainda tinham muito a aprender.

Em abril de 2025, Sakho viajou para a China para participar de um curso de capacitação organizado pela Federação Internacional de Wushu, onde estudou o terceiro conjunto de sequências utilizadas em competições internacionais.

Mahib Amar (esquerda) e seu treinador chinês, Wu Yanan, conversam com repórteres na prova de wushu taolu nos Jogos Olímpicos da Juventude 2026. (Xinhua/Sun Fei)

O treinador chinês Zheng Jutian, que conheceu Sakho durante o curso, relembrou que, inicialmente, Sakho não estava familiarizado com alguns dos movimentos exigidos. As sessões de treinamento concentraram-se em corrigir técnicas e explicar detalhes minuciosos que, em competições internacionais, poderiam resultar em deduções de pontos.

Mais tarde, Sakho retornou à China com seus atletas, incluindo uma viagem a Tianjin para o Campeonato Mundial Juvenil de Wushu, em março de 2026, um importante evento classificatório para os Jogos de Dacar.

Em agosto, ele levou quatro jovens atletas de volta a Tianjin para um período de quase dois meses de treinamento intensivo na Escola Civil e Militar Huo Yuanjia, em Tianjin.

Lá, os treinadores chineses Zhao Qingjian, campeão no Torneio de Wushu de Beijing 2008, e Wu Yanan trabalharam com os atletas senegaleses aspectos como flexibilidade, condicionamento físico e execução precisa de movimentos complexos.

"Começamos ensinando cada movimento", relembrou Zhao, descrevendo as dificuldades que os atletas enfrentaram com técnicas como o chute com salto seguido de uma abertura de pernas, algo que exige uma flexibilidade considerável.

Os treinadores também os auxiliaram na escolha de músicas para as apresentações, na compreensão dos critérios de pontuação e na familiarização com os procedimentos das competições.

Wu reconheceu que, inicialmente, havia uma lacuna significativa no nível técnico dos atletas.

"No início do treinamento, percebi que o nível dos atletas senegaleses estava bem abaixo do que eu esperava", disse ele.

No entanto, o progresso veio por meio da repetição e da persistência. Os atletas ganharam confiança gradualmente, enquanto Sakho observava atentamente os métodos dos treinadores chineses, com o objetivo de aplicar o que aprendeu ao retornar ao seu país.

"O treinamento na China trouxe um benefício imenso aos nossos atletas", disse El Hadji Ndiogou Gueye, presidente da Federação Senegalesa de Wushu.

"Eles evoluíram na técnica, no preparo físico e na disciplina. A capacidade de realizar movimentos complexos também apresentou uma melhora significativa".

Em 1º de novembro, anos de preparação deram, finalmente, lugar à competição olímpica.

Woreye Ndiaye, do Senegal, compete na fase preliminar feminina de taijishan (taiji com leque), parte da prova combinada de taijiquan, na modalidade de wushu taolu, nos Jogos Olímpicos da Juventude 2026, em Diamniadio, no Senegal, em 1º de novembro de 2026. (Xinhua/Sun Fei)

Ndiaye, que participou do juramento dos atletas na cerimônia de abertura, competiu na fase preliminar feminina de taijishan, apresentando uma coreografia com leque que combinava movimentos controlados com súbitas explosões de força.

Em uma coletiva de imprensa realizada naquele dia, ela deixou uma mensagem simples para os outros competidores: "Aproveitem a competição, aproveitem o momento".

No entanto, sua estreia olímpica terminou em decepção. Uma lesão sofrida durante a competição a obrigou a abandonar a disputa da fase preliminar no dia seguinte.

Seu colega de equipe, Amar, completou as rodadas preliminares de taijiquan e taijishan na prova combinada masculina, mas não ficou entre os oito melhores para avançar à final.

Apesar de não ter se classificado, o jovem acredita que seu desempenho refletiu o progresso que alcançou.

"Treinamos muito para chegar a esta competição", disse Amar. "Fomos à China duas vezes e concluímos nossa preparação com uma concentração final de treinamento em Guereo".

"Depois de dois anos de preparação, precisávamos dar tudo de nós e tentar melhorar nossas pontuações para nos classificarmos", acrescentou ele.

Amar, natural da aldeia de Bayakh, na região de Thiès, no Senegal, e praticante de wushu desde 2020, disse que suas apresentações haviam melhorado desde o Campeonato Mundial Juvenil.

Suas ambições permanecem intactas.

"Meu sonho é me tornar um campeão olímpico", disse ele, acrescentando que pretende continuar treinando e se preparando para futuras competições.

Para Sakho, os Jogos trouxeram tanto orgulho quanto decepção.

"Amar evoluiu e continuará evoluindo. Ele se esforçou muito", disse Sakho. "Já a Ndiaye se machucou no pior momento possível. O esporte pode ser cruel".

Wu Yanan (esquerda) orienta Mahib Amar em uma escola de wushu em Tianjin, no norte da China, em 22 de setembro de 2026. (Xinhua/Sun Fanyue)

Wu, que também ofereceu orientação técnica à equipe senegalesa durante os Jogos como parte de um projeto de cooperação chinês, disse que a experiência proporcionou lições que vão além dos resultados das competições.

Embora a vitória continue sendo o objetivo, ele ressaltou: "o esporte também ensina os jovens a lidar com o fracasso; o que mais importa é como eles reagem, quais escolhas fazem e se encontram forças para continuar".

Para o wushu senegalês, a importância dos Jogos vai além do desempenho dos dois jovens atletas.

Segundo Gueye, mais de 10 mil pessoas praticam wushu no Senegal, com mais de 400 clubes espalhados pelo país. Foram criadas organizações regionais em 11 das 14 regiões administrativas do país.

"Lutamos por muitos anos para que o wushu se tornasse parte da família olímpica", disse Gueye.

Ele espera que os Jogos deixem um legado duradouro, por meio de melhores equipamentos, mais oportunidades de treinamento e um maior reconhecimento para uma modalidade que enfrentou dificuldades para se consolidar no Senegal.

Até o dia 2 de novembro, a participação dos atletas senegaleses no wushu havia terminado, sem que nenhum deles chegasse a uma final. Mas, para Sakho, a experiência nunca se resumiu apenas a medalhas.

"Voltamos ao clube e recomeçamos os treinos. É só isso", disse ele.

Após anos ensinando artes marciais sem receber grandes recompensas materiais, o treinador mede o sucesso pelo que o esporte proporciona aos seus alunos.

"Quando vejo esses jovens encontrarem um rumo na vida e aprenderem a manter a cabeça erguida por meio do wushu, isso vale mais do que todas as medalhas", disse ele.

"Continuarei aqui enquanto eles continuarem treinando".

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