
Uma profissional de saúde trata um paciente infectado em um centro de tratamento de ebola em Bunia, capital da província de Ituri, na República Democrática do Congo (RDC), em 18 de outubro de 2026. (Xinhua)
Em um centro de tratamento de ebola no leste da República Democrática do Congo (RDC), salvar vidas começa, por vezes, convencendo pacientes aterrorizados a não fugir.
Bunia, República Democrática do Congo, 24 out (Xinhua) -- Em um centro de tratamento de ebola no leste da República Democrática do Congo (RDC), salvar vidas começa, por vezes, convencendo pacientes aterrorizados a não fugir.
Para o psicólogo clínico Theophraste Tetunabu, o medo pode ser um obstáculo tão formidável quanto a própria doença. Alguns pacientes temem morrer; outros sofrem com o isolamento de suas famílias; e há aqueles cuja angústia é tão intensa que resistem ao tratamento destinado a salvá-lo.
"Quando os pacientes recebem a notícia de que testaram positivo, eles temem a morte. Alguns podem até decidir ir embora ou fugir", disse Tetunabu à Xinhua.
À medida que a epidemia continua se espalhando pelo país e além de suas fronteiras, profissionais de saúde mental como Tetunabu travam uma batalha mais silenciosa contra o medo, o desespero e o estigma social, fatores que podem comprometer o tratamento e deixar cicatrizes duradouras nos sobreviventes e em suas famílias.
O MEDO DO ISOLAMENTO
Para muitos pacientes, o isolamento é um dos aspectos mais angustiantes do tratamento contra o ebola.
Profissionais de saúde realizam um trabalho de desinfecção em um centro de tratamento de ebola em Bunia, capital da província de Ituri, na República Democrática do Congo (RDC), em 18 de outubro de 2026. (Xinhua)
Nas comunidades congolesas, a doença, tradicionalmente, leva os familiares a se reunirem ao lado do leito do paciente. No entanto, pacientes com ebola precisam ser separados de seus entes queridos para evitar novas transmissões, privando-os de uma fonte habitual de conforto e piorando o sofrimento causado pela doença.
"Em nossa cultura, quando alguém adoece, geralmente há dois ou três familiares ao lado do leito", explicou Tetunabu. "Mas, ao chegarem aqui, precisam ser isolados, longe de suas famílias".
Essa separação repentina, somada aos medos que cercam a doença, pode desencadear ansiedade intensa, depressão e resistência ao tratamento.
Tetunabu, que supervisiona os serviços de saúde mental no centro, disse que o apoio psicológico começa assim que os pacientes chegam para a triagem, explicando os procedimentos de tratamento, ouvindo as preocupações dos pacientes e fazendo um esforço adicional para tranquilizá-los quanto à adequação do atendimento recebido.
Para alguns pacientes, o fardo vai além de sua própria saúde. Um pai em isolamento pode se preocupar com os filhos deixados em casa, com as despesas domésticas ou com o aluguel não pago.
"Se um paciente não estiver psicologicamente preparado nem receber o apoio necessário, a situação se torna difícil, mesmo com o tratamento médico", disse Tetunabu, ressaltando a importância da cooperação entre médicos, enfermeiros, nutricionistas e especialistas em saúde mental.

Um profissional de saúde observa uma criança infectada em um centro de tratamento de ebola em Bunia, capital da província de Ituri, na República Democrática do Congo (RDC), em 18 de outubro de 2026. (Xinhua)
Alguns pacientes desenvolvem sofrimento psicológico grave, incluindo sintomas depressivos, agitação ou comportamento agressivo. Nesses casos, psicólogos trabalham em conjunto com psiquiatras e outros profissionais de saúde para oferecer um cuidado adicional.
Esperance, enfermeira no centro de tratamento, testemunhou como um diagnóstico positivo pode devastar os pacientes emocionalmente.
"Quando alguém recebe a confirmação do diagnóstico, pensa que vai morrer", disse ela. "Por isso, recorremos aos psicólogos para apoiar, encorajar e dar forças para que esses pacientes não percam a esperança".
BATALHA CONTRA O ESTIGMA
O sofrimento psicológico não termina, necessariamente, quando os pacientes se recuperam. Para alguns sobreviventes, deixar o centro de tratamento significa enfrentar uma nova batalha: contra a desconfiança, a rejeição e a discriminação dentro de suas próprias comunidades.

Profissionais de saúde examinam um paciente infectado em um centro de tratamento de ebola em Bunia, capital da província de Ituri, na República Democrática do Congo (RDC), em 18 de outubro de 2026. (Xinhua)
Tetunabu disse que famílias que perderam parentes devido ao ebola podem acabar sendo rejeitadas pelos vizinhos e até abandonadas por outros familiares.
"Quando uma pessoa morre de ebola, ocorre uma rejeição social. A comunidade a afasta e, às vezes, até os próprios familiares deixam de visitá-la", disse Tetunabu.
Ideias equivocadas e boatos sobre o ebola também alimentam a desconfiança, desencorajando alguns pacientes a procurar tratamento até que seu quadro clínico se agravasse.
Por isso, psicólogos trabalham para restabelecer o contato entre os pacientes e suas famílias durante o período de isolamento, além de acompanhar os sobreviventes em seu retorno às comunidades, ajudando a combater o medo e a discriminação.
Segundo as autoridades de saúde da RDC, até 20 de outubro, o país havia registrado 9.704 casos confirmados de ebola, incluindo 4.687 mortes, e o surto já havia atingido oito províncias.
A Organização Mundial da Saúde informou que cerca de 11.300 pessoas receberam apoio psicossocial e de saúde mental em centros de tratamento e de trânsito durante o surto atual.
Para Tetunabu, ver um paciente antes aterrorizado deixar o centro de tratamento está entre os momentos mais gratificantes de seu trabalho. "É uma alegria enorme", disse ele, enfatizando que a recuperação também deve significar ajudar os sobreviventes a reconquistarem seu lugar na sociedade.
"Saúde mental é sinônimo de esperança", disse Tetunabu.




