
Foto tirada em 30 de setembro de 2026 mostra uma vista da Praça Firdos, em Bagdá, no Iraque, onde uma estátua do ex-presidente iraquiano Saddam Hussein caiu em 9 de abril de 2003. (Xinhua/Khalil Dawood)
Bagdá, 30 set (Xinhua) -- A coalizão internacional liderada pelos EUA concluiu, na quarta-feira, sua missão militar de combate ao Estado Islâmico (EI) no Iraque, após a retirada da Base Aérea de Erbil. A saída coincidiu com o Dia da Soberania do Iraque, uma celebração da independência e da dignidade nacional.
A medida encerra duas décadas de uma presença militar americana turbulenta, marcada por invasão, ocupação, retirada e redistribuição de tropas, um ciclo que remodelou fundamentalmente o destino do Iraque, alimentou a instabilidade regional e cobrou um preço elevado da própria Washington.
Analistas veem a retirada como resultado de realinhamentos estratégicos dos EUA e de dinâmicas regionais em transformação, sinalizando o fim de uma era e o início de uma complexa reconfiguração geopolítica.
DA INVASÃO À RETIRADA
"A saída ordenada das forças e equipamentos da coalizão da Base Aérea de Erbil marca a conclusão bem-sucedida da missão militar que derrotou o EI no Iraque", disse o principal porta-voz do Pentágono em um comunicado na quarta-feira.
Embora a mídia tenha descrito a saída das forças americanas como discreta, especialistas ressaltam sua profunda repercussão histórica. Em 2003, Washington invadiu o Iraque sem autorização da ONU, sob o pretexto de buscar armas de destruição em massa, derrubando o regime de Saddam Hussein e mergulhando a nação no caos.
Quando as forças dos EUA se retiraram às pressas em 2011, sob pressão interna e diplomática, o vácuo de segurança resultante permitiu a propagação do terrorismo, levando à ascensão do EI em 2014, que tomou vastas áreas do território iraquiano. Washington então formou uma coalizão internacional e retornou ao Iraque. Apesar de o Iraque ter declarado vitória sobre o EI no final de 2017, milhares de soldados americanos permaneceram no país.
A crescente demanda pública e governamental por controle soberano levou a um acordo, em setembro de 2024, entre o Iraque e os Estados Unidos, formalizando o cronograma de retirada da coalizão.
Analistas observam que a retirada reflete considerações pragmáticas para ambos os lados. Para Bagdá, ela marca uma transição da dependência externa para a gestão soberana da segurança. Para Washington, a ameaça reduzida do EI, somada aos frequentes ataques de milícias pró-Irã contra tropas americanas, diminuiu a justificativa militar para a permanência. A retirada também se alinha aos compromissos eleitorais internos dos EUA de encerrar "guerras sem fim" e realocar recursos militares.

Veículos militares dos EUA escoltam ônibus de passageiros transportando detentos do Estado Islâmico (EI) do nordeste da Síria para o Iraque, em 8 de fevereiro de 2026. (Str/Xinhua)
TRAUMA E DESAFIOS
A invasão dos EUA deixou cicatrizes profundas. Segundo a Statista, uma base de dados estatísticos global, cerca de 209.000 civis iraquianos morreram em guerras e conflitos violentos entre 2003 e 2021. Aproximadamente 9,2 milhões de iraquianos tornaram-se refugiados ou foram forçados a deixar sua terra natal. Em Faluja, persistem altas taxas de câncer e malformações congênitas devido ao uso, no passado, de munições de urânio empobrecido e fósforo branco pelas forças dos EUA.
Embora o Iraque tenha apresentado a partida como um marco para o desenvolvimento nacional, desafios estruturais de segurança permanecem no país devastado pela guerra.
O Iraque sofre grande pressão da administração dos EUA para desarmar milícias xiitas apoiadas pelo Irã, muitas das quais desafiam os esforços do Estado para colocá-las sob controle, gerando potencial instabilidade no país, disse Jumaa Mohammed, professor de política da Universidade de Tikrit, no Iraque.
As preocupações também são intensas na região semiautônoma do Curdistão iraquiano, que tem enfrentado ataques recorrentes desde que os Estados Unidos e Israel iniciaram ações militares conjuntas contra o Irã, no final de fevereiro. As autoridades curdas temem que a situação de segurança se torne ainda mais crítica após a retirada dos EUA, uma vez que consideram as forças americanas um contrapeso vital para a segurança.
Além disso, a retirada física das tropas não significa o fim da influência de Washington. Ding Long, especialista chinês em assuntos do Oriente Médio da Universidade de Estudos Internacionais de Shanghai, observa que os Estados Unidos estão passando de uma ocupação militar direta para uma influência exercida por meio de acordos bilaterais de segurança, parcerias energéticas e mecanismos financeiros.
Vale ressaltar que as receitas do Iraque provenientes das exportações de petróleo têm sido depositadas em contas no Federal Reserve de Nova York (Fed, banco central dos Estados Unidos) desde 2003, conferindo a Washington uma influência econômica duradoura por meio do controle sobre a oferta efetiva de dólares americanos, disse Li Ruiheng, especialista do Centro de Estudos do Oriente Médio da Universidade de Beijing.
NOVA RECONFIGURAÇÃO REGIONAL
Analistas regionais consideram a retirada uma continuação da retração estratégica dos EUA no Oriente Médio, com repercussões geopolíticas duradouras.
A retirada das forças dos EUA poderia abrir espaço para que o Irã amplie sua influência regional. Há muito tempo, o Irã vê as bases militares americanas no Oriente Médio como uma grande ameaça à segurança. A retirada dos EUA do Iraque, país que faz fronteira com o Irã, reduzirá a capacidade de dissuasão militar americana nas imediações iranianas e, na prática, abrirá espaço para que o Irã amplie ainda mais sua influência.
Por outro lado, Washington poderá buscar uma cooperação mais estreita na área de segurança com a Síria, que aderiu à coalizão contra o Estado Islâmico no ano passado, concentrando-se no compartilhamento de inteligência e no combate ao terrorismo para restringir os corredores de abastecimento pró-Irã, segundo analistas.
Em última análise, a busca do Iraque por autonomia estratégica depende da governança interna e do equilíbrio regional. Conciliar facções políticas, atender às preocupações de segurança dos curdos, integrar milícias e impedir o ressurgimento do Estado Islâmico continuam sendo tarefas cruciais de longo prazo.
Especialistas dizem que, à medida que a região busca reduzir a interferência estrangeira, serão necessários um diálogo regional contínuo e uma diplomacia inclusiva para lidar com os desdobramentos geopolíticos e as lacunas de segurança deixados pelos Estados Unidos.

