As negociações entre os EUA e o Irã, planejadas para sexta-feira na Suíça, foram adiadas, apenas um dia após a assinatura digital do memorando de entendimento (MoU, na sigla em inglês).
Cairo, 19 jun (Xinhua) -- As negociações entre os EUA e o Irã, planejadas para sexta-feira na Suíça, foram adiadas, apenas um dia após a assinatura digital do memorando de entendimento (MoU, na sigla em inglês).
O MoU, alcançado após mais de três meses de confrontos fatais, deve encerrar as operações militares em todas as frentes e iniciar um período de negociação de 60 dias.

Foto tirada em 18 de junho de 2026 mostra o primeiro-ministro paquistanês, Shehbaz Sharif, assinando um memorando de entendimento (MoU, na sigla em inglês) como mediador no acordo de paz entre os EUA e o Irã, em Islamabad, Paquistão. (Gabinete do Primeiro-Ministro do Paquistão/Divulgação via Xinhua)
Apesar do atraso nas negociações, a disposição de Washington e Teerã em permanecerem engajados parece aliviar os receios de uma escalada ainda maior, oferecendo um pouco de alívio a uma economia global já abalada pelo conflito.
No entanto, analistas dizem que o MoU é pouco mais do que uma estrutura para futuras negociações, em vez de uma garantia sólida de paz. Por trás de sua redação, as divergências fundamentais entre os dois lados continuam sem solução, e a paz no Oriente Médio ainda é um longo caminho a percorrer.
LONGE DE UM ACORDO
O Irã, os Estados Unidos e o Paquistão anunciaram na manhã de segunda-feira que o texto do MoU foi finalizado. No entanto, foi somente na quinta-feira, quando o presidente iraniano Masoud Pezeshkian e o presidente dos EUA, Donald Trump, assinaram o acordo, que o texto completo foi divulgado.
O MoU abrange diversas áreas-chave, incluindo a cessação das hostilidades, segurança marítima e navegação, reconstrução e assistência econômica, suspensão de sanções, compromissos relacionados ao programa nuclear e um mecanismo executivo.
O documento diz que o Irã e os Estados Unidos se comprometem a realizar negociações e chegar a um acordo final em um prazo máximo de 60 dias, prorrogável por mútuo consentimento.
Sobre a questão do cessar-fogo e dos acordos de segurança, o Irã e os Estados Unidos, juntamente com seus aliados, concordaram em encerrar a guerra e as operações militares em todas as frentes, incluindo o Líbano, e se comprometeram a "não iniciar qualquer guerra ou operação militar um contra o outro a partir de agora".

Foto tirada em 15 de junho de 2026 mostra pessoas deslocadas recolhendo suas bagagens para retornar às suas aldeias em Sidon, no sul do Líbano. (Foto de Ali Hashisho/Xinhua)
Em relação à segurança marítima e à navegação, Washington suspenderá o bloqueio naval contra o Irã, enquanto o Irã se compromete a facilitar a passagem segura e gratuita de navios comerciais, por apenas 60 dias, do Golfo Pérsico para o Mar de Omã e vice-versa.
Sobre assuntos relacionados à reconstrução do Irã, o MoU diz que os Estados Unidos se comprometem, juntamente com seus parceiros regionais, a desenvolver um plano definitivo e mutuamente acordado para a reconstrução e o desenvolvimento econômico do Irã, fornecendo pelo menos 300 bilhões de dólares americanos.
Quanto aos compromissos nucleares, o Irã reafirma seu compromisso de não desenvolver nem comprar armas nucleares, enquanto Teerã e Washington concordaram em resolver a questão do estoque iraniano de urânio enriquecido por meio de um mecanismo mutuamente acordado, com a metodologia mínima de diluição no local, sob a supervisão da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), de acordo com o texto.
Segundo o MoU, os Estados Unidos também concordaram em suspender todas as sanções contra o Irã, conceder isenções para a exportação de petróleo bruto iraniano, liberar fundos e ativos iranianos congelados e retirar suas forças militares de áreas próximas ao Irã em até 30 dias após o acordo final.
CONCESSÕES E DIVISÕES
Do cessar-fogo de 8 de abril à assinatura do MoU, os Estados Unidos e o Irã, com a mediação do Paquistão e de outros países, conduziram mais de dois meses de árduas negociações antes de chegarem ao atual acordo-quadro.
Analistas dizem que o documento reflete concessões arduamente conquistadas por ambos os lados. Contudo, em diversos pontos centrais de divergência entre os Estados Unidos e o Irã, ele não traz soluções claras.
Para alcançar o acordo, ambos os lados fizeram "concessões significativas, porém desiguais", disse Jumaa Mohammed, professor de ciência política da Universidade de Tikrit, no Iraque.
Os Estados Unidos cederam no bloqueio naval, nas exportações de petróleo, no congelamento de ativos, em um plano de reconstrução de 300 bilhões de dólares e na suspensão total das sanções, o que equivale a um reconhecimento implícito de que seu plano de "pressão máxima" fracassou, observou Mohammed.
Para o Irã, disse ele, houve concessões no enriquecimento nuclear ao concordar com a diluição no local sob supervisão da AIEA e na gestão do Estreito de Ormuz por meio do diálogo com os estados do Golfo.
Khaled Al-Hroub, professor de ciência política e conflitos internacionais da Universidade Northwestern no Catar, concorda com esse ponto de vista.
O MoU significa que "ambas as partes concluíram que a continuidade do confronto é muito custosa e que uma transição para a avaliação das intenções políticas é necessária", disse Al-Hroub..
Apesar das concessões, analistas observaram que o acordo não aborda as diferenças enraizadas entre os Estados Unidos e o Irã, nem estabelece um caminho claro para resolvê-las.
"Diversas questões foram adiadas para negociações futuras, principalmente os detalhes do programa nuclear e os mecanismos para lidar com urânio altamente enriquecido", disse o analista político e escritor iraniano, Ali Qassem Najm.

Mulher caminha por uma rua em Teerã, Irã, em 8 de junho de 2026. (Xinhua)
Na visão de Abdul Majid Suwailim, analista político baseado em Ramala, o acordo é vago não apenas sobre o futuro enriquecimento de urânio do Irã, incluindo sua escala e limites, mas também sobre a futura gestão do Estreito de Ormuz e o processo específico para o levantamento das sanções americanas.
"O principal problema é que o acordo adia, em vez de resolver fundamentalmente, essas questões, de modo que o futuro das negociações poderá enfrentar obstáculos significativos", disse Mokhtar Ghobashy, vice-presidente do Centro Árabe de Estudos Políticos e Estratégicos, com sede no Cairo.
TENSÕES INICIAIS
Os Estados Unidos e o Irã deveriam se reunir na Suíça na sexta-feira para discutir a implementação do acordo, mas a Casa Branca informou na quinta-feira que a viagem do vice-presidente americano, JD Vance, para as negociações foi adiada.

Foto tirada em 14 de junho de 2026 mostra a Casa Branca em Washington, D.C., Estados Unidos. (Xinhua/Li Rui)
"Os planos para as próximas negociações técnicas ainda não foram finalizados, e a delegação americana está preparada para partir na primeira oportunidade disponível", disse um porta-voz da Casa Branca. "Esperamos iniciar as negociações técnicas o quanto antes".
Apesar do acordo para encerrar as operações militares em todas as frentes, Israel continuou sua agressão contra o Líbano. Horas depois da assinatura do acordo entre as duas partes, Israel atacou o sul do Líbano, matando três pessoas, informou a mídia estatal libanesa.
Entretanto, as forças armadas de Israel anunciaram a morte de um de seus soldados na noite anterior, em um incidente no sul do Líbano que também deixou outros sete feridos.
Na sexta-feira, as Forças de Defesa de Israel disseram ter realizado ataques durante toda a noite e continuam atacando alvos do Hezbollah e infraestruturas em diversas áreas do sul do Líbano. O Centro de Operações de Emergência de Saúde Pública do Ministério da Saúde libanês informou que pelo menos 18 pessoas morreram e 33 ficaram feridas em uma série de ataques aéreos israelenses contra áreas residenciais no sul do Líbano.
Além das divergências não resolvidas entre EUA e Irã, analistas apontam Israel como uma grande incógnita. Embora não seja signatário do MoU, Israel está presente em todas as cláusulas.
É improvável que o MoU elimine todas as preocupações israelenses, "já que Israel há muito acredita que a questão se estende ao papel regional mais amplo do Irã", disse o especialista sudanês Husam Al-Din Al-Sadiq.
Baris Doster, especialista em relações internacionais da Universidade de Marmara, na Turquia, disse que Israel "agora percebe que não tem chance de sucesso militar contra o Irã sem a presença direta das forças americanas no campo de batalha", e que seu papel principal será "provocar, incitar e pressionar os Estados Unidos a retornarem ao conflito".
Israel não é parte direta do MoU, mas seus cálculos estratégicos influenciarão as perspectivas para o acordo final, disse o analista palestino Suwailim.
INCERTEZAS À FRENTE
Para analistas regionais, o caminho à frente está cheio de incertezas.
O analista político sudanês, Abdul-Raziq Ziyada, disse que o MoU abordou as questões mais urgentes, mas não resolveu as principais questões em disputa há décadas.
Concordando com Ziyada, Al-Sadiq disse que o MoU "não representa uma solução definitiva para as disputas entre EUA e Irã, mas sim uma estrutura para gerenciá-las".
Os detalhes da suspensão das sanções foram adiados para o acordo final, o que significa que "disputas técnicas e jurídicas podem se transformar em disputas políticas posteriormente", disse ele.
Para Mohammed, professor de ciência política da Universidade de Tikrit, no Iraque, o sucesso do MoU "depende da tradução dessas manchetes genéricas em detalhes verificáveis dentro de dois meses".
"Qualquer impasse pode reacender as tensões", alertou ele.
O que agrava essas preocupações é o histórico de compromissos não cumpridos. Por exemplo, o acordo nuclear com o Irã de 2015 foi abandonado unilateralmente pelos Estados Unidos em maio de 2018, um histórico que, como observou Ziyada, "permanece vivo na memória do Irã".
"Qualquer mudança política em Washington pode afetar a continuidade dos entendimentos. Portanto, a crise de confiança, que é cerne do conflito entre EUA e Irã, persiste apesar deste MoU", disse ele.
Enquanto isso, o acordo pode ter um grande impacto no desempenho dos republicanos nas eleições de meio de mandato de novembro, dado o forte aumento nos preços da gasolina nos EUA.
"O grande desafio do acordo será quanto tempo levará para o Estreito reabrir e o petróleo voltar a circular", disse Darrell West, pesquisador sênior da Instituição Brookings. "Pode levar um tempo até que os preços da gasolina caiam... O caminho para as eleições de meio de mandato provavelmente continuará complicado para os republicanos".
Analistas também observaram que o MoU deixa a região em uma trégua frágil, oferecendo uma oportunidade para remodelar seu ambiente de segurança, mas ainda não uma garantia, e que ainda é muito cedo para falar em paz abrangente no Oriente Médio.
"O acordo é avaliado não como um passo significativo rumo a uma paz duradoura, mas como uma trégua temporária e transacional, resultado de uma necessidade tática", disse Doster.
"Ainda não é correto falar em paz no Oriente Médio", disse Ziyada. "Paz não é meramente a ausência de guerra entre dois Estados, é a construção de uma ordem regional estável que aborde as causas acumuladas de tensão e conflito".








