* Analistas consideram cada vez mais os Estados Unidos como a principal fonte de incertezas dentro do G7.
* A cúpula do G7 terminou sem a emissão de um comunicado final, marcando o segundo ano consecutivo em que o bloco não produziu um documento final unificado, após um resultado semelhante sob a presidência do Canadá em 2025.
* As divisões internas do G7 apontam para um problema estrutural mais profundo: sua capacidade decrescente de representar e gerir assuntos globais em um mundo cada vez mais multipolar.
* Évian, França, 18 jun (Xinhua) -- A cúpula do G7, com duração de três dias, terminou na quarta-feira em Évian, França, em meio a divisões visíveis entre os Estados-membros, enquanto os líderes se esforçavam para superar as divergências sobre importantes questões internacionais e econômicas.
Embora a cúpula tenha produzido uma série de resultados temáticos, mais uma vez não conseguiu apresentar um comunicado final unificado, evidenciando os crescentes desafios à construção de consenso dentro do bloco.
UNIÃO FRAGMENTADA
Presidida pela França, a cúpula do G7 terminou sem a publicação de um comunicado final, marcando o segundo ano consecutivo em que o bloco não produziu um documento final unificado, após um resultado semelhante sob a presidência do Canadá em 2025.
Em vez disso, foram divulgados nove documentos temáticos, abrangendo áreas como geopolítica, economia global e saúde pública. Os organizadores da cúpula já haviam abandonado a ideia de um comunicado final durante a fase preparatória, optando por publicar documentos temáticos para mascarar as diferenças entre os Estados Unidos e seus aliados, informou a agência japonesa de notícias Kyodo News, citando fontes diplomáticas.
O presidente francês, Emmanuel Macron, descreveu a cúpula como "objetivamente um sucesso", embora tenha reconhecido as persistentes divergências entre os Estados Unidos e os outros seis membros em questões como mudanças climáticas e as Nações Unidas.
As tensões entre os Estados Unidos e seus aliados já eram evidentes antes mesmo do início da cúpula. O presidente dos EUA, Donald Trump, ameaçou na segunda-feira impor tarifas de até 100% sobre o vinho francês, exigindo que a França revogasse seu imposto sobre serviços digitais direcionado a empresas de tecnologia americanas. Macron rejeitou a exigência, enfatizando que essa tributação está dentro da estrutura legal europeia. "Os parceiros nunca devem impor tarifas uns aos outros ou criar instabilidade", disse ele.

Participantes posam para fotos na cúpula do G7 em Évian-les-Bains, França, em 16 de junho de 2026. (Ministério da Europa e dos Negócios Estrangeiros da França/Divulgação via Xinhua)
Divergências também surgiram na área de segurança. Persistiram os desacordos sobre como responder às tensões no Estreito de Ormuz. Embora os países europeus tenham demonstrado disposição para participar de operações de escolta marítima, Trump argumentou que a restauração da navegação não exigiria envolvimento externo.
Segundo o portal de notícias Politico, os líderes europeus buscaram evitar um confronto direto com Trump na cúpula, principalmente porque ele desviou o foco da crise com o Irã de volta para o conflito entre Rússia e Ucrânia.
Autoridades temem que, sem as restrições impostas pelas tensões no Oriente Médio, Trump possa tentar reafirmar o controle sobre os esforços de paz na Ucrânia, marginalizar a diplomacia europeia e minar a estratégia europeia de manter a máxima pressão sobre a Rússia, ao mesmo tempo em que apoia a Ucrânia.
As divergências se estenderam à esfera tecnológica. O primeiro-ministro canadense, Mark Carney, alertou antes da cúpula que a dependência excessiva de modelos de IA dos EUA representa riscos estratégicos. Macron criticou as restrições de Washington ao acesso a tecnologias de IA de ponta, classificando a medida como "ruim" e alertando que ela refletia uma abordagem excessivamente "nacionalista". Enquanto isso, o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, anunciou planos para proibir o uso de redes sociais por menores de 16 anos, uma medida que a CNN descreveu como "certamente enfureceria os aliados bilionários do setor de tecnologia ligados a Trump".
PARCEIRO INCERTO
Analistas consideram cada vez mais os Estados Unidos como a principal fonte de incertezas dentro do G7.
As tensões tornaram-se particularmente evidentes em meio às consequências do conflito no Oriente Médio. A guerra desestabilizou os mercados globais de energia, exacerbando as pressões inflacionárias em todo o mundo. Embora os Estados Unidos tenham absorvido parte do impacto econômico, as consequências foram muito mais severas para os países que dependem fortemente do Estreito de Ormuz.
Os aliados europeus estão ansiosos para ver a hidrovia totalmente reaberta e os volumes de transporte marítimo retornarem aos níveis pré-guerra. No entanto, especialistas observam que a remoção das minas navais lançadas pelo Irã após os ataques realizados por EUA e Israel em fevereiro levará tempo, atrasando a normalização completa.

Logotipo da cúpula do G7 é visto no Centro Internacional de Mídia da cúpula do G7 em Publier, França, em 15 de junho de 2026. (Xinhua/Wu Huiwo)
Os líderes europeus têm procurado manter Trump engajado nas atividades do G7, apesar da crescente divergência. Trump, que deixou a cúpula do ano passado no Canadá mais cedo, há muito demonstra pouco entusiasmo pelo grupo. A rede de televisão CNN observou que que ele "parecia meio entediado" enquanto Macron destacava os objetivos da cúpula deste ano.
Em um aparente esforço para evitar outra partida prematura, Macron organizou um jantar luxuoso para Trump no Palácio de Versalhes após a cúpula.
No entanto, o jornal francês La Tribune criticou Macron por priorizar a presença de Trump, mesmo à custa de remover questões climáticas e de gênero da agenda.
"O que estamos vendo cada vez mais é que os europeus começam a pensar em uma vida com menos Estados Unidos", disse Victor Cha, chefe de geopolítica e política externa do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais em Washington.
Uma pesquisa recente publicada pelo Conselho Europeu das Relações Exteriores destaca uma mudança acentuada na opinião pública: apenas 11% dos europeus agora veem os Estados Unidos como um aliado, contra 16% há seis meses e 22% em novembro de 2024. Quase metade dos entrevistados considera os Estados Unidos apenas um "parceiro necessário", enquanto cerca de um quarto os vê como um rival, refletindo uma erosão significativa da confiança nas relações transatlânticas.
Sébastien Jean, membro do Conselho Francês de Análise Econômica, argumentou que Trump se tornou o maior desafio enfrentado pelo G7, levantando dúvidas sobre se os Estados-membros ainda podem se engajar uns com os outros como verdadeiros aliados.

Manifestantes participam de grande protesto contra a Cúpula do Grupo dos Sete (G7) em Genebra, Suíça, 14 de junho de 2026. (Xinhua/Lian Yi)
RELEVÂNCIA GLOBAL REDUZIDA
As divisões internas do G7 apontam para um problema estrutural mais profundo: sua capacidade decrescente de representar e gerir assuntos globais em um mundo cada vez mais multipolar.
Fundado há meio século, o grupo já serviu como uma plataforma central para coordenar políticas econômicas e geopolíticas entre as economias avançadas. No entanto, sua coesão enfraqueceu significativamente nos últimos anos.
O economista Christian de Boissieu argumentou que, com a ascensão de economias emergentes como os países do BRICS, o G7 não representa mais adequadamente a economia global. Sem uma participação mais ampla, fica cada vez mais difícil abordar os principais desafios globais de forma eficaz.
Sébastien Jean observou ainda que, embora o G7 outrora se apresentasse como o "comitê diretivo" da economia e do sistema financeiro globais, já não pode reivindicar esse papel com credibilidade.
Jian Junbo, diretor do Centro de Relações China-Europa da Universidade de Fudan, disse que, em questões que vão desde a governança econômica global e a estabilidade da cadeia de suprimentos até as mudanças climáticas, a segurança e o desenvolvimento, o G7 sozinho está cada vez mais incapaz de apresentar soluções eficazes.
Embora o bloco tenha reconhecido suas limitações e buscado uma participação mais ampla, continua relutante em compartilhar genuinamente sua liderança com países não ocidentais em pé de igualdade, acrescentou ele.
Essa falta de representatividade também se reflete na definição de sua agenda. O jornal francês La Tribune observou que, embora a França tenha incluído a "redução dos desequilíbrios econômicos globais" na agenda da cúpula, negligenciou outras questões críticas, incluindo a extrema concentração de riqueza e os sistemas tributários internacionais obsoletos.
Da mesma forma, o veículo de comunicação suíço Beobachter argumentou que o G7 já não reflete as realidades geopolíticas atuais, criticando a remoção das mudanças climáticas da agenda para acomodar os Estados Unidos como uma "grande omissão".

