
Foto de arquivo tirada em 19 de fevereiro de 2025 mostra o Estreito de Ormuz. (Xinhua/Wang Qiang)
"A China é líder em tecnologia em algumas áreas muito importantes da energia, sejam veículos, painéis solares ou processamento de minerais críticos. O que a China escolher fazer e o que ela for capaz de fazer terá uma influência enorme", observou Simon Henry, um veterano especialista do setor e ex-diretor financeiro da Shell.
Londres, 27 mai (Xinhua) -- Especialistas do setor disseram na terça-feira que, mesmo no cenário mais otimista, em que os Estados Unidos e o Irã cheguem rapidamente a um acordo para reabrir o Estreito de Ormuz, os mercados globais de energia ainda precisariam de cerca de seis meses para retornar às condições normais.
As previsões foram feitas à margem do lançamento do Relatório de Desenvolvimento da Indústria de Petróleo e Gás 2025, elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica e Tecnológica da Corporação Nacional de Petróleo da China (CNPC ETRI, na sigla em inglês), um dos principais centros de estudos do setor energético.
O evento, realizado em Londres, contou com a presença de cerca de 150 representantes de instituições nacionais e internacionais.
IMPACTO GENERALIZADO
Em entrevista à Xinhua, Dave Ernsberger, presidente da S&P Global Energy, disse que a crise em andamento no Estreito de Ormuz impôs uma pressão sem precedentes sobre os mercados globais de petróleo e gás natural.
"O atual conflito no Estreito de Ormuz surpreendeu a todos, porque passamos de uma situação em que era impossível imaginar o Estreito fechado para um mundo em que hoje é quase impossível imaginar como o Estreito poderá ser reaberto", disse ele.

Preços de gasolina em um posto de combustível em Londres, Reino Unido, em 26 de março de 2026. (Xinhua/Li Ying)
Ernsberger observou que cerca de 20% do fornecimento global de petróleo e gás que antes transitava pelo Estreito foi interrompido, enquanto os estoques globais estão sendo reduzidos a taxas historicamente altas, à medida que os mercados tentam se reequilibrar.
Ele explicou que o fechamento prolongado teve consequências de longo alcance em toda a cadeia de suprimentos de energia. A produção de petróleo bruto foi interrompida em algumas áreas, parte da produção de gás natural liquefeito foi suspensa e a produção de petróleo refinado em muitas refinarias do Golfo também foi interrompida.
"Quando o Estreito de Ormuz era fechado por apenas alguns dias, a produção se recuperava rapidamente e o transporte marítimo também era retomado rapidamente", disse ele. "Mas agora que o Estreito está fechado há quase três meses, a retomada da produção levará muito mais tempo".
Segundo sua análise, a retomada dessas operações poderia levar "de dois a três, talvez até quatro meses", com poços de petróleo em países como Kuwait, Iraque, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita necessitando de um tempo considerável para retornar à produção após longas paralisações.
Wang Jing, diretora do Departamento de Pesquisa de Mercado de Petróleo da CNPC ETRI, disse, ao interpretar o relatório, que algumas instalações de refino e petroquímicas no Oriente Médio já foram danificadas durante o conflito e precisarão de tempo para serem reparadas.
Enquanto isso, diversos projetos de expansão em andamento foram adiados, criando incerteza sobre o investimento futuro na capacidade de produção de petróleo regional, acrescentou ela.
RECUPERAÇÃO LENTA
Ernsberger disse que atualmente há dois cenários possíveis para a trajetória futura dos mercados globais de energia.
"O melhor cenário é que um acordo seja alcançado em breve e o Estreito seja reaberto sem problemas", disse ele. "O pior cenário é que o conflito se prolongue por muitos meses, talvez até o próximo ano. A realidade provavelmente ficará em algum ponto entre esses dois cenários".
Mesmo no cenário mais otimista, ele disse que os preços do petróleo devem permanecer bem acima de 100 dólares americanos por barril por pelo menos seis meses após a reabertura do Estreito.

Um petroleiro é visto no Porto de Nova York e Nova Jersey, nos Estados Unidos, em 29 de abril de 2026. (Xinhua/Zhang Fengguo)
"Será necessário um preço alto para incentivar a retomada da produção no mercado", disse ele.
Simon Henry, um veterano especialista do setor e ex-diretor financeiro da Shell, compartilhou uma avaliação semelhante. Ele disse à Xinhua que, mesmo que Washington e Teerã cheguem a um acordo rapidamente, as cadeias globais de suprimento de petróleo e gás ainda podem precisar de seis a doze meses para se normalizar.
"Houve alguns danos às instalações, principalmente no Catar e nos Emirados Árabes Unidos", disse Henry. "Instalações de refino, plantas de gás para líquidos, refinarias, petroquímicas e fábricas de fertilizantes podem levar um pouco mais de tempo".
Ao mesmo tempo, Henry enfatizou que os preços da energia frequentemente reagem antes das mudanças reais na oferta e na demanda.
"Assim que ficar claro que a oferta está se recuperando, e se houve alguma destruição da demanda com a consequente queda desta, então o preço cairá antecipadamente", disse ele. "O mercado antecipa mudanças na oferta e na demanda".
"Não há dúvida de que os preços do petróleo deste ano serão dominados pelo conflito geopolítico. Muito dependerá da rapidez com que o Estreito de Ormuz retorne à normalidade", disse Wu Mouyuan, vice-presidente da CNPC ETRI.
IMPLICAÇÕES A LONGO PRAZO
Em relação às implicações de longo prazo da crise, "talvez as preocupações com a segurança energética agora superem tudo. As cadeias de suprimentos estão valorizando a resiliência tanto quanto a eficiência", disse Wei Fang, presidente da CNPC Europe & North America Limited.
Da mesma forma, Ernsberger disse que o conflito remodelou fundamentalmente as discussões sobre segurança energética.
"No passado, as conversas sobre energia renovável se concentravam mais na sustentabilidade, nos impactos climáticos e na diversificação do fornecimento para as economias locais", disse ele. "Agora, se observarmos países como a Índia e países da Europa Ocidental, há uma análise muito mais rigorosa das estruturas de segurança em torno do fornecimento de energia".
Ele acredita que a crise pode levar a investimentos significativamente maiores em fontes de energia renováveis e alternativas, à medida que governos, formuladores de políticas e consumidores buscam evitar interrupções semelhantes no futuro.

Veículos elétricos são carregados em uma estação de recarga em Adis Abeba, Etiópia, em 16 de março de 2026. (Xinhua/Liu Fangqiang)
Henry também disse que as tendências já em andamento no lado da demanda podem se acelerar, incluindo a adoção de veículos elétricos e a expansão da energia solar e eólica onde essas tecnologias ainda forem competitivas.
"A China tem um papel fundamental a desempenhar nesse sentido", disse Henry, que já atuou como diretor independente da PetroChina.
"A China é líder tecnológica em algumas áreas muito importantes da energia, sejam veículos, painéis solares ou processamento de minerais críticos. O que a China escolher fazer e o que ela for capaz de fazer terá uma influência enorme", observou ele.
Ele acrescentou que a perspectiva da China sobre os mercados globais de energia ficou cada vez mais importante porque o país é agora o maior mercado mundial para muitas commodities importantes.
"É muito difícil administrar qualquer negócio de commodities hoje sem entender a China e, principalmente, sem trabalhar com a China", disse Henry.

