Clínicas precárias, desconfiança e insegurança sobrecarregam resposta ao ebola no leste da República Democrática do Congo-Xinhua

Clínicas precárias, desconfiança e insegurança sobrecarregam resposta ao ebola no leste da República Democrática do Congo

2026-05-25 10:09:10丨portuguese.xinhuanet.com

Profissionais de saúde desinfetam equipamentos antes do enterro de uma suposta vítima de ebola em Bunia, província de Ituri, República Democrática do Congo, em 21 de maio de 2026. (Str/Xinhua)

Nos corredores lotados do hospital central de Bunia, na província de Ituri, epicentro do mais recente surto de ebola na República Democrática do Congo (RDC), a doença é mais do que uma emergência médica, virou um teste de confiança.

Bunia, República Democrática do Congo, 23 mai (Xinhua) -- Nos corredores lotados do hospital central de Bunia, na província de Ituri, epicentro do mais recente surto de ebola na República Democrática do Congo (RDC), a doença é mais do que uma emergência médica, virou um teste de confiança.

Famílias aguardam ansiosamente notícias sobre pacientes suspeitos de ebola, trocando boatos sobre a doença, os mortos e os responsáveis ​​por realizar enterros seguros. Profissionais de saúde transitam entre as enfermarias sob crescente pressão em uma unidade já sobrecarregada e com recursos limitados.

Nesse contexto, o mais recente surto de ebola, declarado em 15 de maio, se expandiu para além de seu epicentro inicial em Ituri, atingindo as províncias de Kivu do Norte e Kivu do Sul, enquanto a vizinha Uganda também relatou casos importados confirmados.

O diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, disse na sexta-feira que a situação na RDC era "profundamente preocupante", mencionando 82 casos confirmados e sete mortes.

Profissional de saúde mede temperatura de um jornalista local em Bunia, província de Ituri, República Democrática do Congo, em 21 de maio de 2026. (Str/Xinhua)

No entanto, acredita-se que a escala seja significativamente maior, com quase 750 casos suspeitos e 177 mortes suspeitas, disse ele em postagens nas redes sociais, acrescentando que "esses números estão mudando à medida que os esforços de vigilância e os testes laboratoriais melhoram, mas a violência e a insegurança estão dificultando a resposta".

No hospital central de Bunia, que agora funciona como um centro improvisado de tratamento de ebola, os médicos disseram que 56 casos suspeitos estão sendo tratados, sobrecarregando uma unidade que já opera além de sua capacidade.

A pressão é evidente não apenas no número de pacientes, mas também na tensão que envolve cada etapa da resposta: isolamento, testes, rastreamento de contatos e sepultamentos seguros.

Parentes de um jovem que morreu de ebola se recusaram a permitir que a Cruz Vermelha fizesse seu sepultamento. Eles insistiram em enterrá-lo por conta própria, citando tradições culturais e honra familiar. Alguns ainda duvidavam da causa da morte.

"Já negociamos com a família. Compreendemos a dor, mas estas medidas são essenciais", disse Alphonse Leo, líder de uma equipe da Cruz Vermelha no local. "Um enterro inseguro colocaria dezenas de pessoas em perigo".

Luc Malembe, líder de opinião local em Bunia, disse que o impasse refletia falhas de comunicação mais profundas.

"O que aconteceu hoje no hospital de Bunia é resultado da comunicação deficiente em torno deste vírus", disse ele, apelando a uma maior sensibilização pública para evitar que os rumores preencham a falta de informação.

Um centro de isolamento para o ebola é incendiado na cidade de Rwampara, perto de Bunia, na província de Ituri, República Democrática do Congo, em 21 de maio de 2026. (Str/Xinhua)

RUMORES E RESISTÊNCIA

A resistência da comunidade emergiu como um dos obstáculos mais significativos para conter o surto.

O ministro da Saúde da RDC, Roger Kamba, disse no início desta semana que os alertas foram atrasados ​​em algumas áreas porque os residentes inicialmente acreditaram que a doença era "mística".

Jean-Jacques Muyembe, chefe do Instituto Nacional de Pesquisa Biomédica e um dos maiores especialistas mundiais em ebola, que descobriu o vírus na década de 1970, disse à Xinhua que a desconfiança em relação a pessoas de fora pode enfraquecer a resposta à crise.

"Quando as pessoas veem que as instruções e medidas são anunciadas por pessoas da sua própria região, elas acreditam. Se for alguém de Kinshasa, elas duvidam", disse Muyembe, enfatizando que construir confiança é a prioridade.

Em Rwampara, a zona de saúde mais afetada de Ituri, a desconfiança se tornou violenta na quinta-feira.

Moradores incendiaram um centro de tratamento de ebola após exigirem a devolução do corpo de um morador da comunidade que morreu depois de ser internado no centro. A polícia e as autoridades locais disseram que a multidão se reuniu nos portões logo após o anúncio da morte, acusando os profissionais de saúde de reterem o corpo, alegando descumprimento dos protocolos de segurança contra o ebola.

Profissionais de saúde fazem desinfecção antes do sepultamento de uma vítima suspeita de ebola na cidade de Rwampara, perto de Bunia, na província de Ituri, República Democrática do Congo, em 21 de maio de 2026. (Str/Xinhua)

Jean-Claude Mukendi, um oficial superior da polícia que interveio com sua equipe, disse que duas tendas de quarentena com oito leitos foram incendiadas.

"Encontramos danos no local", disse ele, acrescentando que um corpo que seria sepultado também foi atingido pelas chamas.

O ataque obrigou pacientes e casos suspeitos a fugirem das instalações, aumentando os receios de que indivíduos sob observação possam ter desaparecido nos bairros vizinhos.

Mbata Kura Zamindo, chefe do grupo Rwampara, apelou para seu regresso. "Vamos comprar megafones e percorrer todos os bairros de Rwampara para pedir aos que fugiram que voltem", disse ele. "O local está seguro agora".

Fontes de saúde locais disseram que Rwampara continua sendo o epicentro do surto, com cerca de 50 casos suspeitos admitidos e entre duas e quatro mortes relatadas diariamente.

CONFLITO AFETA RESPOSTA

Para além da emergência sanitária, a insegurança continua sendo um dos maiores desafios enfrentados pelos trabalhadores humanitários e pelos residentes.

Em Goma, capital da província de Kivu do Norte, que está sob o controlo do grupo rebelde Movimento 23 de Março (M23), os residentes expressaram dúvidas sobre se a resposta ao ebola funcionaria de forma eficaz em meio ao conflito em andamento.

Equipe médica desinfeta sala de quarentena em um centro de tratamento de ebola em Bunia, província de Ituri, República Democrática do Congo, em 21 de maio de 2026. (Str/Xinhua)

"Tememos que a guerra complique ainda mais as coisas", disse Zawadi Clarisse, um comerciante na região central de Goma. "Muitos médicos especializados no combate ao ebola não estão mais aqui por causa da situação atual. Os hospitais não funcionam como antes. Como isso vai funcionar nessas condições?".

Uma funcionária de uma organização de saúde local, que pediu anonimato, disse que o ebola sempre gerou medo e resistência em Kivu do Norte, mas a atual situação política pode enfraquecer ainda mais a resposta.

"Muitas pessoas hesitarão até mesmo em ir aos centros de saúde", disse ela. "As autoridades terão dificuldade em rastrear os contatos e conscientizar adequadamente a população".

A preocupação é particularmente aguda em Mongwalu, uma cidade mineradora na província de Ituri, onde vários casos foram detectados em meio à violência repetida de grupos armados. Fontes humanitárias alertaram que a insegurança pode dificultar o rastreamento de contatos, o envio de equipes médicas e as campanhas de conscientização da comunidade.

O conflito mais amplo entre as forças governamentais e o M23 também sobrecarregou a logística em todo o leste da RDC. O aeroporto internacional de Goma permanece fechado para voos humanitários, aumentando as preocupações com a entrega adequada de suprimentos médicos, equipamentos de laboratório e pessoal especializado.

Um centro de isolamento para o ebola é incendiado na cidade de Rwampara, perto de Bunia, na província de Ituri, República Democrática do Congo, em 21 de maio de 2026. (Str/Xinhua)

Na quinta-feira, o M23, que controla Bukavu, capital de Kivu do Sul, confirmou um caso de ebola. Segundo o grupo, o paciente, um homem de 28 anos que viajou de Kisangani, capital da província de Tshopo, morreu antes que seu diagnóstico fosse confirmado.

Tshopo não relatou oficialmente nenhum caso, mas Kisangani é um dos centros de transporte mais movimentados do país, aumentando as preocupações de que o vírus tenha se espalhado sem ser detectado antes de ser identificado.

Este surto de Ebola é causado pela cepa Bundibugyo, uma variante mais rara do vírus, detectada pela primeira vez em Uganda em 2007. Ao contrário da cepa Zaire, responsável por surtos anteriores na República Democrática do Congo, a cepa Bundibugyo não possui vacina aprovada nem tratamento específico. Vacinas candidatas estão em discussão, mas autoridades da OMS dizem que as doses ainda levarão meses para estarem disponíveis, na melhor das hipóteses.

Anais Legand, técnica da OMS especializada em febres hemorrágicas virais, declarou na quarta-feira que, embora os preparativos para possíveis testes clínicos continuem, a prioridade é estabelecer centros de tratamento seguros e otimizados, criar fluxos de encaminhamento de pacientes e garantir que todos os casos suspeitos sejam detectados e tratados precocemente.

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