
Estudantes aprendem a escrever caracteres chineses durante aula em uma escola em Sanaa, Iêmen, em 10 de fevereiro de 2020. (Foto de Mohammed Mohammed/Xinhua)
Por Murad Abdo
Áden, Iêmen, 19 abr (Xinhua) -- No Iêmen, onde a vida há muito tempo é moldada por conflitos e incertezas, pouca coisa permanece constante. As cidades mudam, os planos são interrompidos e o futuro muitas vezes parece frágil.
No entanto, em meio a essa realidade instável, encontrei algo inesperado: uma conexão com uma língua e uma cultura que me ensinaram não apenas a perseverar, mas também a ter esperança. É uma jornada que começou em meio à turbulência e continua se desenrolando com determinação inabalável.
Em 2011, quando o Iêmen estava à beira da instabilidade, essa jornada começou silenciosamente.
Ainda me lembro de entrar na sucursal da Xinhua em Sanaa, a agência de notícias estatal chinesa. Foi meu primeiro contato real com colegas chineses. Eu tinha muita ambição e curiosidade por tudo ao meu redor. Naquele momento, senti como se tivesse entrado em um ritmo de vida diferente, um ritmo moldado pela disciplina, respeito mútuo e uma confiança silenciosa que não precisava ser dita, mas podia ser sentida em cada gesto.
A partir daquele momento, comecei a trabalhar para a Xinhua em Áden, a cidade portuária do sul. Na época, eu já tinha aprendido algumas palavras em chinês. Pareciam modestas, quase insignificantes, mas carregavam uma promessa silenciosa, como se pertencessem a um futuro que eu ainda não tinha alcançado. Eu acreditava que continuaria e que esse caminho se desenrolaria naturalmente.
Mas a história, e talvez o destino, chegou de repente, e tudo mudou.

Homens armados leais ao grupo Houthi participam de uma manifestação tribal armada em apoio à retomada dos ataques contra navios israelenses, em Sanaa, Iêmen, em 11 de março de 2025. (Foto de Mohammed Mohammed/Xinhua)
No mesmo ano, o Iêmen entrou em um período de convulsão. Protestos, instabilidade e, posteriormente, caos remodelaram o país. Universidades fecharam. Oportunidades desapareceram. Como jovem jornalista, me vi no meio dos acontecimentos, documentando as mudanças à medida que se desenrolavam, muitas vezes correndo grande risco pessoal.
Em 2015, o conflito interno havia chegado a Áden. Como muitos outros, fui deslocado internamente. Naqueles anos, a vida se tornou uma série de decisões urgentes. Os sonhos não desapareceram, mas foram deixados de lado, à espera de tempos mais tranquilos que pareciam nunca chegar.
Os anos se passaram e o Iêmen continuou enfrentando desafios crescentes, afundando cada vez mais em um conflito prolongado, amplamente considerado uma das piores crises humanitárias do mundo. Nessas circunstâncias, as aspirações de longo prazo muitas vezes ficam em segundo plano.
Ainda assim, a conexão perdurou, o caminho que eu vislumbrara permanecia, e a ponte que eu começara a construir ainda estava de pé, à espera.

Edifício destruído nos conflitos entre as forças governamentais do Iêmen e o grupo Houthi é visto nos arredores de Áden, Iêmen, em 11 de agosto de 2025. (Foto de Murad/Xinhua)
Em 2024, tomei uma decisão que me pareceu ao mesmo tempo simples e profunda: voltei a aprender chinês, comprometendo-me com aulas regulares e intensivas na Universidade de Áden.
Naquele ano, o chinês foi ensinado pela primeira vez em Áden, uma cidade devastada pela guerra, não como um curso acadêmico formal, mas por meio de uma série de cursos intermitentes de um mês de duração.
As aulas são dadas em condições desafiadoras. Os materiais didáticos continuam limitados e o acesso a professores nativos de chinês é quase inexistente.
Temos a sorte de contar com uma professora nativa dedicada, uma chinesa que ainda vive em Áden, que assume a responsabilidade de nos guiar. Por vezes, ela demonstra claramente estar sobrecarregada, mas sua persistência reflete um compromisso silencioso que inspira os seus estudantes a continuarem.
À minha volta, está um pequeno, mas determinado grupo de quase 30 jovens iemenitas que dividem a mesma aspiração.
Estudamos em salas de aula frequentemente abafadas, especialmente durante as longas horas de cortes de energia que Áden enfrenta regularmente. Nesses momentos, até o simples ato de escrever vira um desafio, pois as gotas de suor caem sobre os cadernos, borrando os caracteres chineses que formamos cuidadosamente durante os exercícios de ditado.
Estudamos por um curto período, depois fazemos uma pausa de meses devido a circunstâncias fora do nosso controle, antes de retomarmos quando as condições o permitem.

Menino deslocado enche galões com água potável em um campo de deslocados temporário nos arredores de Áden, no Iémen, em 11 de agosto de 2025. (Foto de Murad/Xinhua)
O legado da guerra continua moldando a realidade. Grande parte da infraestrutura educacional foi afetada, e partes do campus principal da Universidade de Áden ainda carregam as cicatrizes dos ataques aéreos realizados durante o conflito de 2015. Às vezes, até mesmo conseguir uma sala de aula é um desafio, já que as instalações da universidade permanecem superlotadas com estudantes de outras áreas acadêmicas.
Comparado com a maioria dos estudantes, enfrento um caminho mais complicado. Estudo em meio a uma vida que pode mudar a qualquer instante, conciliando meu trabalho como estudante. Sou jornalista e acompanho minhas aulas, frequentando as salas com a câmera sempre à mão.
Não posso me dar ao luxo de focar a atenção em um só lugar. Escuto não apenas meu professor, mas também o som distante das sirenes das ambulâncias após explosões, a vibração repentina do meu celular com alertas urgentes da Guarda Costeira sobre ataques a navios no Golfo de Áden ou no Mar Vermelho, ou mensagens breves e inquietantes de moradores relatando novos ataques em outras partes do Iêmen.
Para continuar meus estudos durante os intervalos entre as aulas, recorri a cursos de chinês on-line, por conta própria. Até essa forma de aprendizado não é isenta de dificuldades, já que conexões de internet instáveis e infraestrutura precária frequentemente interrompem o processo.
Contra todas as expectativas, aprender chinês se tornou mais do que uma busca por conhecimento, virou um ato de perseverança. É uma maneira de recuperar o foco, restaurar um senso de continuidade e me lembrar de que o progresso ainda é possível, mesmo nos momentos mais incertos.
Cada caractere chinês exige paciência, cada tom requer precisão. Cada palavra que aprendi foi conquistada com esforço, cada frase formada com dedicação. Há momentos de frustração, mas também avanços silenciosos que me impulsionam.
Um antigo ditado árabe diz: "Busque conhecimento, mesmo que seja até a China". Para mim, a distância mencionada tem menos a ver com geografia do que com determinação, a perseverança em continuar, mesmo quando a jornada é difícil.
Nesta jornada, descobri algo importante: a linguagem não é apenas uma ferramenta de comunicação, é uma ponte entre civilizações.

O professor iemenita Mohammed al-Ansi escreve em um quadro enquanto ensina chinês a estudantes em uma escola em Sanaa, Iêmen, em 10 de fevereiro de 2020. (Foto de Mohammed Mohammed/Xinhua)
O chinês, falado por mais de um bilhão de pessoas, conecta culturas, histórias e perspectivas. Abre portas para a compreensão de uma civilização que perdurou e evoluiu ao longo de milhares de anos. Cria oportunidades não apenas para indivíduos, mas também para regiões que buscam parcerias em um mundo em rápida transformação.
Para o Oriente Médio, essa conexão importa mais do que nunca.
Frequentemente marcado por conflitos, o Oriente Médio busca estabilidade, desenvolvimento e oportunidades. É nesse contexto que a China surge não apenas como parceira, mas como um ponto de partida, oferecendo um modelo de visão de longo prazo e progresso constante. Sua abordagem diplomática, fundamentada no respeito mútuo, no benefício compartilhado e na cooperação sem contrapartidas políticas, atende diretamente às necessidades da região após anos de instabilidade.
Conforme as sociedades do Oriente Médio se concentram na reconstrução da infraestrutura, na diversificação de suas economias, na criação de empregos e na restauração da confiança, a trajetória do desenvolvimento aponta cada vez mais para a China como uma amiga e parceira fundamental na construção do futuro.
Nesse cenário, sonho em um dia cursar o ensino superior na China, para aumentar meu conhecimento do idioma e da cultura, além de compreender melhor as forças que impulsionam seu desenvolvimento.
Este ano, dei meu primeiro passo ao me candidatar a uma bolsa de estudos do governo chinês. Agora, aguardo com esperança e determinação. Como muitos estudantes em todo o Oriente Médio, me apego a este momento, acreditando que ele pode abrir as portas para um recomeço há muito esperado.
Na véspera do Dia Internacional da Língua Chinesa das Nações Unidas, celebrado anualmente em 20 de abril, vejo essa data não apenas como uma celebração global, mas também como um lembrete pessoal.
Um lembrete de que, mesmo em lugares marcados por dificuldades, o aprendizado pode continuar.
Um lembrete de que o contato com outras culturas e civilizações pode inspirar novas perspectivas, de forma discreta, porém significativa.
E um lembrete de que o futuro não é simplesmente algo que esperamos, mas algo que construímos, passo a passo, por meio de nossas escolhas.
Minha jornada ainda está se desdobrando, entre os ecos do conflito e a cadência de um novo idioma.





