Rio de Janeiro, 17 abr (Xinhua) -- Cientistas brasileiros descobriram que ondas ultrassônicas de alta frequência, semelhantes às usadas em exames médicos de rotina, podem eliminar os vírus da COVID-19 e da gripe H1N1 sem danificar as células humanas, informou a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) nesta sexta-feira.
A descoberta, publicada na revista "Scientific Reports", abre uma nova via terapêutica contra doenças virais e também pode ser aplicada a outras, como dengue, zika e chikungunya, patologias que afetam milhões de pessoas em todo o mundo.
O fenômeno, chamado ressonância acústica, causa alterações estruturais nas partículas virais até sua ruptura completa e inativação. Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) descreveram como ondas sonoras de alta frequência podem romper a membrana protetora do vírus sem afetar os tecidos do paciente, segundo relatório da Fapesp.
"Neste estudo, comprovamos que a energia das ondas sonoras causa uma alteração morfológica nas partículas virais a ponto de elas explodirem, em um fenômeno comparável ao que acontece com a pipoca", explicou o professor Odemir Martinez Bruno, do Instituto de Física da USP e coordenador do estudo.
Segundo Bruno, à medida que a estrutura do patógeno se degrada, a membrana protetora do vírus se rompe e se deforma, impedindo que o agente infeccioso invada as células humanas.
Esse mecanismo representa uma alternativa promissora ao desenvolvimento convencional de medicamentos antivirais, um processo que costuma ser longo, caro e com resultados incertos. O professor Flávio Protásio Veras, da Universidade Federal de Alfenas (Unifal), em Minas Gerais (sudeste do Brasil), e pesquisador de pós-doutorado financiado pela FAPESP, afirmou que essa é uma estratégia "promissora" contra vírus envelopados em geral, "já que o desenvolvimento de antivirais químicos é complexo e difícil de se alcançar".
"Além disso, é uma solução 'verde', pois não gera resíduos, não causa impacto ambiental e não promove resistência viral", acrescentou.
A descoberta surpreendeu a comunidade científica porque contradiz as teorias da física clássica, que afirmam que o comprimento de onda do ultrassom é muito maior que o tamanho do vírus, teoricamente impedindo qualquer interação entre os dois.
A pesquisa reuniu físicos teóricos, acústicos e virologistas de diversas instituições brasileiras e contou também com a colaboração de Charles Rice, professor da Universidade Rockefeller, nos Estados Unidos, e ganhador do Prêmio Nobel de Medicina de 2020, que contribuiu com vírus fluorescentes para visualização em tempo real.
Ao contrário do ultrassom de baixa frequência, já utilizado para descontaminar equipamentos cirúrgicos e odontológicos, que destrói qualquer material biológico por meio de um fenômeno chamado cavitação, a ressonância acústica opera em altas frequências, entre 3 e 20 megahertz.
A ação dessa ressonância é seletiva, pois apenas o vírus absorve a energia e é desestabilizado, sem risco para o tecido humano.
A equipe continua com testes in vitro contra dengue, chikungunya e Zika, doenças com alto impacto em regiões tropicais e subtropicais do mundo.

