
Bombas de gasolina fechadas são vistas em um posto de gasolina em Londres, Reino Unido, em 26 de março de 2026. (Xinhua/Li Ying)
Desde o início da guerra, os governos europeus vem defendendo amplamente a liberdade e a segurança da navegação no Estreito de Ormuz, resistindo à pressão para endossar a proposta dos EUA de fechá-lo.
Londres, 14 abr (Xinhua) – O Reino Unido e a França anunciaram nesta segunda-feira que coorganizarão uma reunião esta semana sobre segurança marítima no Estreito de Ormuz, à medida que cresce a preocupação europeia com o fechamento da hidrovia e suas consequências econômicas.
Na manhã de segunda-feira, o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, disse que o Reino Unido não apoia o bloqueio proposto pelo presidente dos EUA, Donald Trump, ao Estreito de Ormuz. Os acontecimentos reforçam uma posição europeia mais ampla que apoia a reabertura da hidrovia, embora não chegue a se alinhar completamente com a abordagem de Washington.
Apesar de "alguma pressão considerável", o Reino Unido não será "arrastado para uma guerra" que não seja do seu interesse nacional, disse Starmer à rede britânica de televisão BBC. O presidente francês, Emmanuel Macron, disse que a França e o Reino Unido convocarão os países dispostos a contribuir para uma missão pacífica e multinacional para restaurar a livre navegação, enfatizando que essa missão seria estritamente defensiva e independente das partes envolvidas no conflito.
As duas medidas são coerentes com a mensagem anterior da Europa. Desde o início da guerra, os governos europeus vem defendendo amplamente a liberdade e a segurança da navegação no Estreito de Ormuz, resistindo à pressão para endossar a proposta dos EUA de bloqueá-lo.
PREOCUPAÇÃO COMUM E LINHAS DIFERENTES
O Reino Unido procura traçar uma linha divisória entre o apoio defensivo e o envolvimento ofensivo. Starmer considera seu dever avaliar o interesse nacional britânico e descartou o apoio a ataques ofensivos ou a um bloqueio.
A França adotou uma postura jurídica e diplomática ainda mais incisiva. Desde o início do conflito, Paris diz não ter sido consultada e não fazer parte da ofensiva militar conjunta entre EUA e Israel. Macron declarou que o uso da força para "libertar" o Estreito era irrealista e não proporcionaria uma solução duradoura para a questão nuclear iraniana.
A Itália também se alinhou à posição europeia mais ampla. Roma defendeu a liberdade de navegação e a passagem comercial segura, mas insistiu na desescalada, no diálogo diplomático e em uma estrutura multilateral. O Ministério das Relações Exteriores italiano disse que qualquer participação em uma iniciativa mais ampla exigiria um mandato claro da ONU.
Portugal manifestou apoio à liberdade de navegação, a um cessar-fogo e aos esforços diplomáticos, mas evitou o envolvimento militar. Lisboa permitiu que os Estados Unidos utilizassem a Base Aérea de Lajes para apoio logístico, mas autoridades portuguesas dizem que o país não participará de ações militares no Oriente Médio nem se juntará a qualquer destacamento de combate.
A Holanda manteve suas opções em aberto, mas não se comprometeram com a abordagem de Washington. A ministra da Defesa holandesa, Dilan Yesilgoz-Zegerius, disse que seu país está trabalhando com aliados para examinar possíveis opções militares para ajudar a restabelecer a navegação, e que nenhuma decisão concreta foi tomada, e qualquer movimento dependerá de necessidades mais claras.
Do norte da Europa, o presidente finlandês, Alexander Stubb, disse na segunda-feira que não podia prever o resultado da guerra ou como a questão de Ormuz evoluiria, esperando que um cessar-fogo se mantenha.
O que emergiu não foi uma linha europeia única em todos os detalhes, mas uma relutância compartilhada em transformar a segurança marítima em apoio a um bloqueio liderado pelos EUA.

Homem abastece carro em um posto de gasolina em Villeneuve d'Ascq, norte da França, em 11 de março de 2026. (Foto de Sebastien Courdji/Xinhua)
MEDIAÇÃO DIPLOMÁTICA
A resposta preferida da Europa tem se concentrado na diplomacia, na coordenação multilateral e em acordos de segurança bem definidos. Iain Begg, professor da Escola de Economia e Ciência Política de Londres, disse à Xinhua que o Reino Unido vem buscando liderar os esforços diplomáticos para unir os países europeus e os estados do Golfo. Segundo ele, há uma "clara exasperação" com os Estados Unidos.
Ian Scott, especialista em política americana da Universidade de Manchester, disse que o Reino Unido parece estar na vanguarda dos esforços para manter os parceiros europeus em uma linha simples: o estreito deve ser reaberto porque seu fechamento prejudica a todos. Ele disse que isso "não é uma tarefa fácil", em um momento em que os governos europeus responderam de maneiras diferentes ao conflito.
A França vem acompanhando esse esforço com uma abordagem diplomática mais ampla. Na semana passada, Macron pediu uma solução "forte e duradoura" em um telefonema com o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, instando a intensificação da diplomacia e dizendo que nenhum esforço deve ser poupado para se chegar a um acordo duradouro.
O debate francês também refletiu uma mudança política mais ampla. Sylvie Kauffmann, colunista do jornal francês Le Monde, escreveu que a recusa da Europa em se unir a Washington na atual guerra do Oriente Médio demonstra que a cisão transatlântica é agora mais profunda do que durante a crise do Iraque em 2003. Na visão dela, a reação da Europa não é apenas técnica ou militar, mas profundamente política.
O governo holandês disse estar trabalhando com aliados, incluindo Reino Unido, França e Alemanha, em maneiras de ajudar a restabelecer a navegação no estreito. A linguagem enfatiza a cautela: restabelecer a circulação, não endossar a escalada.
Portugal apoiou os esforços de cessar-fogo e acolheu a mediação. Após o cessar-fogo temporário entre os Estados Unidos e o Irã, Lisboa aplaudiu o desenvolvimento e agradeceu às partes mediadoras, incluindo o Paquistão. O historiador português Rui Lourido disse que a divergência parcial da Europa em relação a Washington é consistente com uma longa tradição diplomática baseada no multilateralismo, no equilíbrio e no objetivo de "manter a ordem".

Foto tirada em 4 de agosto de 2022 mostra a Casa Branca e uma placa de pare em Washington, D.C., Estados Unidos. (Xinhua/Liu Jie)
NÃO SEGUINDO WASHINGTON
Se a retórica europeia tem se concentrado na liberdade de navegação, sua contenção reflete um conjunto mais amplo de preocupações, principalmente de ordem econômica.
Begg disse que o Reino Unido, assim como outros países europeus, está consternado com as restrições à navegação pelo estreito, mas vê a questão principalmente como econômica, dado o risco de uma nova inflação impulsionada pelo aumento dos preços da energia.
Essa preocupação se estende por todo o continente.
Na Itália, a primeira-ministra Giorgia Meloni alertou que, se o Irã obtiver a capacidade de impor taxas de trânsito adicionais pelo estreito, o resultado poderá ser "consequências econômicas imprevisíveis". O Instituto de Assuntos Internacionais (Istituto Affari Internazionali), com sede em Roma, disse que um confronto prolongado entre Irã e Israel poderia elevar os preços do petróleo e do gás a níveis sem precedentes, tornando a retomada da diplomacia uma prioridade estratégica e econômica urgente para a Europa.
Na Bósnia e Herzegovina, o analista econômico Admir Cavalic descreveu o choque como "principalmente uma questão energética e, consequentemente, econômica". O aumento dos preços do petróleo alimentaria a inflação, reduziria o padrão de vida e a competitividade econômica, disse ele à Xinhua.
Outro fator é a cautela jurídica e estratégica.
John Bryson, professor da Universidade de Birmingham, disse que Starmer não quer ver o Reino Unido envolvido em ações que possam ser interpretadas como operações militares ofensivas. O acesso às águas internacionais, disse ele, deve permanecer protegido e aberto a todos.
Bryson também relacionou a crise a uma reavaliação mais ampla do Reino Unido. Em sua opinião, o conflito expôs a vulnerabilidade britânica a interrupções no fornecimento de petróleo e gás e a anos de subinvestimento em defesa, incluindo a Marinha Real.
Há também uma dimensão política na cautela europeia: muitas capitais não querem ser arrastadas para um conflito que não ajudaram a moldar e que pode não servir aos seus interesses.
Begg disse que os Estados Unidos e Israel iniciaram a guerra sem consultar os parceiros da OTAN, mas Washington posteriormente esperou que o Reino Unido ajudasse a resolver a questão de Ormuz. Ele disse ser difícil imaginar como um bloqueio americano resolveria o problema, embora o Reino Unido venha demonstrando uma disposição limitada para auxiliar na desminagem.
Nenad Stekic, pesquisador sênior do Instituto de Política e Economia Internacional da Sérvia, disse que a postura da Europa reflete uma tensão entre os valores declarados e os interesses materiais, e que sua divergência de Washington é parcial, e não completa.
Em sua visão, a Europa não se alinhou totalmente aos Estados Unidos devido à pressão da segurança energética, ao risco geopolítico e à interdependência econômica. Ele argumentou que a Europa não pode absorver o impacto da interrupção do fornecimento de petróleo iraniano a baixo custo, teme uma instabilidade mais ampla em sua fronteira sul e possui interesses comerciais no Irã afetados pelas sanções americanas.






