
Preços da gasolina são exibidos em um posto de gasolina em Londres, Reino Unido, em 26 de março de 2026. Os ataques lançados pelos Estados Unidos e por Israel contra o Irã desencadearam um aumento acentuado nos preços globais do petróleo. (Xinhua/Li Ying)
A crise no Estreito de Ormuz está interrompendo os fluxos globais de energia e o comércio, elevando os preços e expondo as divisões entre as principais potências, além de aumentar o risco de consequências econômicas e geopolíticas mais amplas.
Beijing, 3 abr (Xinhua) -- Uma reunião virtual liderada pelo Reino Unido sobre o Estreito de Ormuz foi concluída na quinta-feira com a participação de mais de 30 países, embora os Estados Unidos estivessem notavelmente ausentes.
Com a contínua alta dos preços globais do petróleo e as cadeias de suprimentos ainda pressionadas, nações do mundo todo estão adotando diferentes estratégias para lidar com a crise.
IMPASSE CARO
O Estreito de Ormuz, que antes registrava a passagem de cerca de 130 embarcações por dia, agora tem aproximadamente 20.000 marinheiros retidos a bordo de 2.000 navios em suas águas, segundo a Organização Marítima Internacional.
A Lloyd's List Intelligence, empresa de dados e inteligência marítima, revelou que apenas 292 navios transitaram pelo estreito entre 28 de fevereiro e 31 de março, sendo que 71% deles pertenciam ao Irã ou tinham alguma conexão com o país.
Os preços do petróleo dispararam na quinta-feira, enquanto investidores avaliavam por quanto tempo o conflito no Oriente Médio impediria o transporte de petróleo bruto pelo estreito, informou o canal americano de televisão CNBC.
A emissora acrescentou que os contratos futuros de junho para o petróleo Brent, referência internacional, subiram mais de 6%, para 107,35 dólares americanos por barril.
A partir de 17 de abril, a Amazon imporá uma sobretaxa de 3,5% sobre os custos de combustível e logística para vendedores nos Estados Unidos e no Canadá.
O ganhador do Prêmio Nobel de Ciências Econômicas, Paul Krugman, argumentou na quarta-feira que o aumento dos custos pode afetar os consumidores americanos com mais força, por meio de preços mais altos para alimentos e produtos de uso diário.
O governo federal da Alemanha disse na terça-feira que os preços da gasolina no país têm oscilado até 22 vezes por dia, devido à guerra e às interrupções no fornecimento de petróleo, que elevaram os custos.
Cerca de 16% dos postos de gasolina na França estão enfrentando escassez, impulsionada por compras em pânico e aumentos de preços ligados à guerra com o Irã, informou na quinta-feira o The Connexion, principal veículo de comunicação em inglês da França.

Embarcações da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã são vistas em uma cerimônia marcando o Dia Nacional do Golfo Pérsico, no Golfo Pérsico, perto de Bushehr, Irã, em 29 de abril de 2024. (Xinhua/Shadati)
ESTRATÉGIAS DIFERENTES
Enquanto atores globais tomam medidas, o Reino Unido liderou conversas virtuais na quinta-feira. Embora nenhuma solução concreta tenha sido acordada, a reunião foi considerada um primeiro passo, já que discussões mais detalhadas podem envolver planejadores militares nas próximas semanas, de acordo com a revista americana Foreign Policy.
O Conselho de Segurança das Nações Unidas deve votar na sexta-feira um projeto de resolução do Bahrein que autorizaria medidas defensivas para garantir a segurança do Estreito.
A França divulgou um texto alternativo mais conciliatório, enquanto diplomatas aguardam para ver se os dois projetos podem ser conciliados, de acordo com a agência britânica de notícias Reuters.
A China e o Paquistão divulgaram recentemente uma iniciativa conjunta de cinco pontos para restaurar a paz e a estabilidade no Golfo e no Oriente Médio em geral, que inclui a proteção da soberania e da segurança dos Estados do Golfo, o fim dos ataques contra civis e alvos não militares e a garantia da segurança das rotas marítimas.
Os países do Golfo estão estudando opções dispendiosas, incluindo a expansão da capacidade dos oleodutos e o desenvolvimento de novos terminais de exportação na costa do Mar Vermelho, para contornar o gargalo e continuar exportando petróleo e gás, informou o jornal inglês Financial Times na quinta-feira.
Sob intenso escrutínio internacional, Teerã disse estar elaborando um protocolo para "monitorar o trânsito" pelo Estreito de Ormuz e que negociará um acordo conjunto com Omã, informou a agência de notícias russa Sputnik na quinta-feira.
O tráfego de petroleiros "deve ser supervisionado e coordenado" com o Irã e Omã, disse o vice-ministro das Relações Exteriores do Irã para Assuntos Jurídicos e Internacionais, Kazem Gharibabadi, citado pela Sputnik.
Esses requisitos seriam válidos após o conflito em curso "para facilitar e garantir a passagem segura e fornecer melhores serviços aos navios que transitam por essa rota", disse o funcionário.
Essa medida aumentou as esperanças de que o Estreito recupere parte de sua capacidade sem a necessidade de força militar, aliviando ligeiramente os preços do petróleo de suas máximas diárias.

Navios são vistos no Golfo de Suez, Egito, em 11 de março de 2026. (Xinhua/Ahmed Gomaa)
PRESSÃO CRESCENTE
A crise destacou a interconexão do mercado global. Os países estão tomando medidas com base na noção de que ninguém pode se isolar completamente de uma interrupção prolongada do Estreito de Ormuz.
O Estreito é essencial não apenas para o petróleo, mas também para o comércio de alguns dos recursos mais vitais do mundo, como diesel, combustível de aviação, fertilizantes e plásticos, de acordo com Krugman.
A Organização das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento alertou na quarta-feira que, se as interrupções persistirem, a situação poderá evoluir para uma crise em cascata com consequências de longo alcance para o desenvolvimento.
A escassez de combustível que atinge a Ásia em breve se espalhará para o oeste, enquanto a Europa provavelmente enfrentará preços crescentes para garantir o abastecimento e corre o risco de falta de diesel nas próximas semanas, segundo um artigo da empresa Bloomberg publicado na segunda-feira.
À medida que a crise se espalha, partes da África já enfrentam interrupções no fornecimento, e pressões semelhantes são esperadas na América Latina, acrescentou a reportagem.
"Para mim, está claro que, se a crise durar mais de três ou quatro meses, ela se tornará um problema sistêmico para o mundo", disse à Bloomberg, Patrick Pouyanne, CEO da TotalEnergies.
A recessão econômica é agravada pela pressão política, especialmente para muitos líderes europeus, que enfrentam tensões crescentes com Washington.
Após os aliados da OTAN se recusarem a ajudar no Estreito de Ormuz, Trump insinuou a possibilidade de se retirar da aliança em uma entrevista publicada na quarta-feira no jornal britânico The Telegraph.
O efeito cumulativo de comentários semelhantes tensionou ainda mais as relações transatlânticas, e analistas sugerem que a ruptura piorou, talvez a um ponto sem retorno.
"Mesmo que Trump não concretize sua ameaça, ele já abriu novos caminhos simplesmente por tê-la feito", escreveu Rajan Menon, professor emérito de relações internacionais do City College de Nova York, em um artigo de opinião publicado na sexta-feira na revista americana Time.
Trevor Taylor, pesquisador de ciências militares do Royal United Services Institute, do Reino Unido, disse ao jornal americano The New York Times que a Europa está cada vez mais cética quanto à "confiabilidade dos Estados Unidos como aliado, e até mesmo questionou se o país deveria ser visto, em muitos aspectos, como uma ameaça".




