Rupturas transatlânticas aumentam em meio a tensões no Oriente Médio-Xinhua

Rupturas transatlânticas aumentam em meio a tensões no Oriente Médio

2026-04-05 13:32:30丨portuguese.xinhuanet.com

Pessoas seguram cartaz em um protesto contra os ataques dos EUA e de Israel ao Irã, na Praça do Parlamento, no centro de Londres, Reino Unido, em 28 de fevereiro de 2026. (Xinhua/Li Ying)

As fissuras dentro da aliança transatlântica estão se manifestando em decisões operacionais: espaço aéreo fechado, acesso a bases negado e pedidos recusados.

Madri, 3 abr (Xinhua) -- Cinco semanas após o início dos ataques dos EUA e de Israel contra o Irã, as fissuras dentro da aliança transatlântica não são mais uma questão de atrito diplomático. Elas estão se manifestando em decisões operacionais: espaço aéreo fechado, acesso a bases negado e pedidos recusados.

O padrão é impressionante: os países europeus não seguiram automaticamente os Estados Unidos nesta guerra.

MÉTODOS DIFERENTES E REJEIÇÃO IGUAL

A Espanha foi a mais direta. Madri fechou seu espaço aéreo para aeronaves militares americanas envolvidas em operações contra o Irã e negou autorização para o uso das bases de Rota e Morón de la Frontera. As restrições se aplicam apenas a operações relacionadas ao conflito.

A ministra da Defesa espanhola, Margarita Robles, declarou ao parlamento que os Estados Unidos e Israel "não podem ser os que decidem quais regras são válidas no mundo". Ela descreveu a campanha militar contra o Irã como contrária ao direito internacional. "Não podemos aceitar que dois países tenham decidido arrastar o mundo para a guerra deles", disse ela.

A Itália traçou sua linha por meio de procedimentos. Roma bloqueou o uso da base aérea de Sigonella, na Sicília, pelos EUA, após descobrir que bombardeiros americanos apresentaram um plano de voo somente depois que as aeronaves já estavam no ar, sem notificação ou autorização prévia. As autoridades italianas determinaram que os voos estavam fora do escopo dos acordos bilaterais. O governo declarou que as atividades ligadas ao conflito com o Irã exigem autorização parlamentar explícita.

A França estabeleceu limites firmes para a cooperação que permitirá. Paris confirmou que não alterou sua política de sobrevoo em resposta à acusação do presidente dos EUA, Donald Trump, de que a França estava sendo "muito pouco prestativa". Algumas aeronaves americanas podem usar bases militares francesas, mas apenas sob a condição de que não desempenhem papel em operações contra o Irã. O presidente, Emmanuel Macron, disse que os ataques militares contra o Irã foram conduzidos "fora do direito internacional" e não podem ser endossados ​​pela França.

Em Portugal, a pressão interna gerou um debate. As críticas aumentaram em relação ao suposto uso da Base Aérea de Lajes, nos Açores, para operações relacionadas ao Irã, com partidos da oposição questionando se a autorização adequada foi concedida de acordo com o Acordo de Cooperação em Defesa Portugal-EUA. Mais de 8.000 pessoas assinaram uma petição pedindo a proibição do uso da base para essa finalidade.

Pessoas participam de protesto contra os ataques dos EUA e de Israel ao Irã, em Nova York, Estados Unidos, em 7 de março de 2026. (Xinhua/Zhang Fengguo)

PREÇO DO UNILATERALISMO

A amplitude das recusas europeias aponta para algo mais fundamental do que uma mera discordância sobre um único conflito.

Washington lançou sua campanha militar contra o Irã sem consultar os aliados da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), sem um mandato do Conselho de Segurança das Nações Unidas e diante de objeções explícitas de governos de todo o continente europeu. Em seguida, exigiu o uso de bases e espaço aéreo que esses governos não concordaram em disponibilizar para operações ofensivas, fazendo isso sem notificações prévias.

"Uma questão fundamental para os países europeus é a legalidade", disse Kamil Zwolski, pesquisador em terrorismo e estudos de conflito no Royal United Services Institute, o principal think tank de defesa e segurança do Reino Unido. "O que os europeus querem dizer quando afirmam que esta guerra não tem fundamento legal é que as Nações Unidas não a aprovaram, não houve resolução. Eles também querem dizer que não é uma guerra de autodefesa, porque não havia evidências de um ataque iminente do Irã contra os EUA ou Israel".

"No mínimo, o que eles também querem dizer é que a guerra não foi acordada pelos aliados da OTAN. Eles não foram consultados", disse Zwolski ao canal americano de televisão CNN.

As consequências foram além do aspecto político. O preço do petróleo Brent disparou após o início dos ataques, e os mercados de energia europeus foram abalados pelo risco de interrupção no fornecimento que transita pelo Estreito de Ormuz, uma rota que movimentava cerca de um quinto do comércio global de petróleo e gás natural liquefeito (GNL) antes do início da campanha militar contra o Irã. As consequências econômicas de um conflito que a Europa não ajudou a iniciar estão sendo sentidas pelas famílias e indústrias europeias.

O chanceler alemão, Friedrich Merz, foi enfático: "A questão não é se vamos participar. Não vamos participar". Sobre a OTAN, ele acrescentou: "É uma aliança defensiva, não uma aliança intervencionista".

ALIANÇA UNILATERAL?

Em resposta às posições europeias, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, disse que os Estados Unidos "precisam reavaliar" sua relação com a OTAN, após os aliados se recusarem a apoiar operações contra o Irã.

De acordo com uma entrevista publicada pelo jornal britânico Daily Telegraph na quarta-feira, Trump está "considerando seriamente" a retirada dos Estados Unidos da OTAN após essas recusas.

Por sua vez, durante uma visita ao Japão, Macron disse que a Europa oferece "previsibilidade e estabilidade", ao contrário de "alguns países" que podem tomar decisões sem informar os aliados e correr o risco de prejudicá-los, declarações amplamente interpretadas pela mídia como uma referência aos Estados Unidos. Seus comentários trouxeram à tona as preocupações europeias sobre consulta, previsibilidade e o processo de tomada de decisões dentro da aliança.

As declarações dos lados europeu e americano refletem uma crescente divergência nas expectativas sobre como as decisões são tomadas e como o apoio é definido. A guerra evidenciou ainda mais essa divergência. Um abismo está surgindo entre a expectativa de apoio de Washington e a ênfase da Europa no cálculo estratégico.

Nenhum governo europeu busca deixar a OTAN ainda. No entanto, os países europeus não estão mais agindo em sintonia com os Estados Unidos e estão cada vez mais tomando suas próprias decisões sobre o envolvimento em operações militares.

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