
Homem sentado em um posto de gasolina desativado em Havana, Cuba, em 17 de março de 2026. (Foto de Joaquín Hernández/Xinhua)
"Cuba, aos olhos de Donald Trump e do (secretário de Estado dos EUA) Marco Rubio, foi inicialmente subestimada", disse Luis René Fernández Tabío, professor do Centro Internacional de Pesquisa Econômica da Universidade de Havana. "No entanto, com o passar do tempo, ficou claro que a narrativa de Trump não correspondia à realidade. Cuba não se submete aos Estados Unidos, mesmo em meio à crise agravada pela escassez de combustível".
Havana, 1º abr (Xinhua) -- O Ministério dos Transportes da Rússia informou na segunda-feira que o navio-tanque Anatoly Kolodkin entregou cerca de 100 mil toneladas de petróleo bruto a Cuba como ajuda humanitária.
Washington autorizou o carregamento por "razões humanitárias", segundo a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, enquanto o país caribenho enfrenta uma grave escassez devido ao bloqueio total de petróleo imposto pelos EUA.
Por que o carregamento de petróleo é importante para a sociedade cubana? O que significa o afrouxamento do bloqueio de petróleo por Washington?
CARREGAMENTO NO PRAZO
O ministro de Energia e Minas de Cuba, Vicente de la O Levy, agradeceu nesta terça-feira à Rússia pelo "valioso carregamento que chega em meio à complexa situação energética que enfrentamos".
Cuba produz apenas cerca de 40% de suas necessidades de combustível e depende fortemente de importações para sustentar sua rede elétrica. Seu petróleo bruto nacional é pesado e difícil de refinar em diesel e outros produtos leves em suas refinarias antigas e de capacidade limitada.
Especialistas estimaram que o carregamento russo poderia render cerca de 180 mil barris de diesel, o suficiente para suprir a demanda diária de Cuba por nove ou dez dias.
A Rússia continuará trabalhando no fornecimento de petróleo para Cuba, disse o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, na segunda-feira, descrevendo a ação como uma responsabilidade de fornecer a assistência necessária a Cuba nas circunstâncias atuais.
Sob o bloqueio dos EUA, Cuba atravessa uma de suas piores crises econômicas desde a década de 1990. O país já sofreu três apagões nacionais em março. A falta de gasolina e recursos básicos paralisou hospitais, reduziu drasticamente o transporte público e sobrecarregou quase todos os serviços essenciais.

Pessoas compram alimentos durante apagão nacional em Havana, Cuba, em 16 de março de 2026. (Foto de Joaquín Hernández/Xinhua)
A escassez também afetou o abastecimento de água. Mais de 80% da população cubana depende do sistema de abastecimento de água ligado à rede elétrica nacional, disse Antonio Rodríguez, presidente do Instituto Nacional de Recursos Hídricos de Cuba, na quinta-feira.
As condições de vida se deterioraram significativamente, com frequentes e prolongados cortes de energia, problemas de transporte e mobilidade e crescente pressão sobre os serviços públicos, disse à Xinhua, Claudia Marín Suárez, pesquisadora associada e coordenadora da equipe para a América Latina e o Caribe do Centro de Pesquisa de Política Internacional.
UMA MUDANÇA DE POLÍTICA?
Desde janeiro, o governo Trump impôs uma nova rodada de restrições ao petróleo cubano e fez repetidas ameaças militares. A deposição forçada do presidente venezuelano Nicolás Maduro, em 3 de janeiro, interrompeu gravemente o fornecimento de petróleo da Venezuela para Cuba. O país também perdeu o fornecimento de petróleo de outros países, incluindo o México, depois que Washington ameaçou impor mais tarifas.

Navio transportando suprimentos de ajuda humanitária do México é visto no porto de Havana, Cuba, em 12 de fevereiro de 2026. (Foto de Joaquín Hernández/Xinhua)
Ainda não está claro por que o governo não interceptou o petroleiro russo. As decisões "estão sendo tomadas caso a caso", disse a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, na segunda-feira, insistindo que "não houve uma mudança formal na política de sanções".
"Se um país quiser enviar petróleo para Cuba agora, não tenho problema se for a Rússia ou não", disse o presidente dos EUA, Donald Trump, na noite de domingo, reiterando que Cuba é o "próximo alvo" após a operação militar contra o Irã.
Cuba está em negociações com os Estados Unidos para resolver divergências bilaterais, com as conversas atualmente em seus estágios iniciais, disse o presidente Miguel Díaz-Canel em 13 de março em um vídeo transmitido pela televisão nacional.
A encarregada de negócios de Cuba nos Estados Unidos, Lianys Torres Rivera, indicou na terça-feira que Havana está disposta a buscar reformas econômicas e expandir os laços comerciais com os Estados Unidos.
"Há uma enorme gama de questões que podemos discutir com os EUA e que, temos quase certeza, beneficiariam tanto os interesses nacionais dos EUA quanto os de Cuba", disse ela em entrevista ao jornal americano USA Today.
Michael Bustamante, professor titular de Estudos Cubanos e Cubano-americanos da Universidade de Miami, descreveu a abordagem do governo Trump como "muito, muito imprevisível", segundo o think tank americano Council on Foreign Relations (CFR).
MOTIVOS OCULTOS
Altos funcionários dos EUA indicaram que o objetivo final das políticas de linha dura e das sanções de Trump é promover reformas em Cuba, incluindo uma possível mudança de liderança, segundo relatos da mídia.
No entanto, especialistas duvidam da probabilidade de uma intervenção militar em Cuba nos moldes da Venezuela, especialmente porque os Estados Unidos continuam envolvidos em um conflito crescente com o Irã. "Isto não é a Venezuela", disse Will Freeman, pesquisador do CFR para Estudos Latino-americanos. "A situação em Cuba é, na melhor das hipóteses, altamente incerta".

Pessoas participam de protesto contra os ataques dos EUA e de Israel ao Irã em frente à prefeitura de Los Angeles, na Califórnia, Estados Unidos, em 7 de março de 2026. (Foto de Qiu Chen/Xinhua)
Analistas dizem que a recente flexibilidade dos EUA pode ser tática. Pressões políticas internas e os custos do conflito com o Irã podem ter levado Washington a aliviar as sanções, pelo menos temporariamente, disse à Xinhua, Luis René Fernández Tabío, professor do Centro Internacional de Pesquisa Econômica da Universidade de Havana.
"Considero que a orientação da política dos EUA não mudou, nem podemos esperar que modifique, a curto prazo, a combinação de instrumentos que utiliza para atingir seus objetivos, seja pela força ou pelas chamadas ferramentas de ‘poder brando’", acrescentou ele.
"Cuba, aos olhos de Donald Trump e do secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, foi inicialmente subestimada", disse Tabío. "No entanto, com o passar do tempo, ficou claro que a narrativa de Trump não correspondia à realidade. Cuba não se submete aos Estados Unidos, mesmo em meio à crise agravada pela escassez de combustível".
Suárez observou que as sanções refletem o esforço mais amplo de Washington para manter a dominância e o controle no Hemisfério Ocidental, particularmente no Caribe.
"Em vez de competir oferecendo melhores oportunidades de desenvolvimento, a resposta dos EUA tem sido intensificar a pressão por meio de medidas coercitivas unilaterais", observou ela. "Essas medidas estão se tornando mais pronunciadas no Hemisfério Ocidental, especialmente no Caribe".









