Rio de Janeiro, 31 mar (Xinhua) -- A inflação de alimentos no Brasil é impulsionada por fatores estruturais e afeta mais os produtos frescos do que os alimentos ultraprocessados, segundo um estudo divulgado nesta terça-feira pela organização ACT Promoção da Saúde em conjunto com a Agência Bori.
O relatório, elaborado pelo economista Valter Palmieri Júnior, doutor em desenvolvimento econômico pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), argumenta que o aumento dos preços dos alimentos no país não pode ser explicado apenas por fatores sazonais ou cíclicos.
De acordo com o estudo, o custo dos alimentos no Brasil aumentou 302,6% entre junho de 2006 e dezembro de 2025, superando em muito a taxa de inflação geral do país, de 186,6%, durante o mesmo período.
No estudo, Palmieri Júnior explicou que a inflação de alimentos tem raízes profundas no modelo econômico brasileiro. "A inflação é estrutural, pois não decorre apenas de choques temporários, mas está associada a características históricas do modelo de desenvolvimento do país", afirmou.
O estudo também mostra que os alimentos mais saudáveis foram os mais afetados pelo aumento de preços. Em quase duas décadas, os preços das frutas subiram 516,2%, os das carnes, 483,5%, e os de tubérculos, raízes e leguminosas, 359,5%.
Como resultado, o poder de compra da população para alimentos frescos diminuiu significativamente. Em contrapartida, produtos ultraprocessados, como refrigerantes e embutidos, tornaram-se relativamente mais acessíveis no mesmo período.
O economista apontou que essa dinâmica influencia os hábitos de consumo, incentivando a compra de produtos menos saudáveis. "Há uma mudança nos padrões de consumo devido a essa diferença de preços", indicou.
Entre os fatores estruturais que explicam esse fenômeno, o estudo destaca o modelo agroexportador do país. O Brasil, um dos maiores exportadores de alimentos do mundo, prioriza a exportação de produtos como soja, milho e cana-de-açúcar, aumentando sua dependência dos preços internacionais e reduzindo a oferta interna de outros alimentos.
O relatório também destaca o aumento dos custos dos insumos agrícolas, como fertilizantes, agrotóxicos e maquinário, cujos preços subiram acentuadamente nas últimas décadas.
Outra questão levantada é a concentração de poder na cadeia produtiva, com forte presença de grandes empresas internacionais em setores-chave como sementes, agroquímicos, maquinário e alimentos processados.
Palmieri Júnior cita ainda que a inflação dos alimentos é ainda pior do que mostram os números, por causa da "inflação invisível", quando os produtos mantêm o preço, mas alteram os ingredientes, substituindo itens mais caros por outros mais baratos, fazendo com que o produto final perca qualidade.
Um exemplo é o sorvete, que passa a receber menos leite e mais açúcar. O mesmo acontece com o chocolate, que perde cacau em pó e ganha açúcar.
"Se o custo é reduzido piorando a qualidade, e vende com o mesmo preço, é uma inflação que não é computada pelos órgãos de pesquisa. Como você vai captar isso?", questiona.
Diante desse cenário, o autor propõe uma série de medidas, incluindo o fortalecimento da produção local, o equilíbrio entre exportações e oferta interna, a melhoria do acesso à terra e o reforço de políticas públicas que apoiem a segurança alimentar.
Segundo a análise, essas ações seriam necessárias para reverter a tendência de alta dos preços dos alimentos e melhorar o acesso a uma alimentação saudável para a população brasileira.

