
Foto tirada em 23 de março de 2026 mostra prédio destruído em uma área residencial após ataques conjuntos dos EUA e de Israel contra o Irã em Teerã, Irã. (Xinhua/Shadati)
Por Mahmoud Fouly
Cairo, 27 mar (Xinhua) -- Apesar das declarações verbais de vitória e da chamada superioridade em armamentos, os Estados Unidos vem lutando para alcançar resultados decisivos em seu conflito em andamento contra o Irã, à medida que a guerra regional se aproxima da marca de um mês.
Analistas dizem que, embora Washington mantenha uma clara vantagem em poder de fogo, a falta de uma estratégia coerente, as crescentes divisões com seus aliados e a subestimação da resiliência institucional do Irã impediram a única superpotência mundial de alcançar os resultados previstos inicialmente.
Mohamed Mohsen Abo El-Nour, chefe do Fórum Árabe para Análise das Políticas Iranianas, com sede no Cairo, disse que a guerra demonstrou "uma superioridade militar dos EUA, mas uma incapacidade de transformar essa vantagem em uma solução política ou estratégica decisiva".
Um editorial recente do jornal americano The New York Times, intitulado "Trump não Consegue se Safar dessa Guerra com Manobras Políticas", disse que o presidente Donald Trump "entrou em guerra contra o Irã sem explicar sua estratégia ao povo americano nem ao mundo", acrescentando que "agora parece que ele talvez não tivesse estratégias".

O presidente dos EUA, Donald Trump, discursa em coletiva de imprensa na Casa Branca, em Washington, D.C., Estados Unidos, em 20 de janeiro de 2026. (Foto de Li Yuanqing/Xinhua)
Concordando com essa visão, o especialista egípcio em assuntos do Golfo e política iraniana, Abu-Bakr Al-Desouky, disse que "todos os indicadores apontam para a ausência de uma estratégia clara", destacando um forte contraste entre a realidade e as declarações de Trump, que repetidamente alegou sucesso e grandes conquistas no campo de batalha.
Desde os ataques conjuntos dos EUA e de Israel contra o Irã no mês passado, o país sofreu perdas, mas evitou os danos catastróficos inicialmente alegados por Washington e Israel. Em resposta, os ataques retaliatórios do Irã causaram danos tanto a instalações israelenses quanto americanas, levando os Estados Unidos a mobilizar forças adicionais para sustentar o confronto com Teerã.
Al-Desouky também questionou a lógica subjacente da guerra, descrevendo-a como carente de uma base política ou moral clara, e argumentou que os objetivos de Washington continuam vagos e inconsistentes.
"O Irã não representava uma ameaça direta aos Estados Unidos e até ofereceu concessões sem precedentes nas últimas negociações patrocinadas por Omã; no entanto, Washington não negociou com flexibilidade nem de boa-fé", disse ele.
As divergências entre os Estados Unidos e seus aliados complicaram ainda mais a situação. Desde que os Estados Unidos e Israel iniciaram os ataques, muitos aliados americanos, incluindo Espanha e França, expressaram oposição às ações militares.
Além disso, os Estados Unidos e Israel também entraram em conflito sobre a forma como a guerra está sendo conduzida e seus objetivos, incluindo a possibilidade de atacar as instalações energéticas do Irã.

Forças de segurança israelenses e equipes de emergência trabalham no local de um ataque com míssil iraniano em Tel Aviv, Israel, em 24 de março de 2026. (Foto de Gil Cohen Magen/Xinhua)
A recente renúncia de Joe Kent, diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo, em protesto contra a guerra, ressaltou a crescente insatisfação em setores do governo americano.
"É evidente que iniciamos a guerra devido à pressão de Israel e de seu poderoso lobby americano", escreveu Kent em sua carta de renúncia.
Al-Desouky descreveu a renúncia e a oposição dos aliados dos EUA como "um forte indício de descontentamento interno dentro do próprio governo, além de dissidência entre o público em geral".
Enquanto isso, analistas argumentam que os formuladores de políticas dos EUA avaliaram mal a dinâmica interna do Irã. Em vez de provocar uma onda de protestos, a pressão militar externa parece ter reforçado a coesão interna.
El-Nour observou que os ataques estrangeiros alimentaram o que ele descreveu como "nacionalismo defensivo", com vários segmentos da sociedade iraniana se unindo em apoio ao Estado diante de ameaças externas.
"Todos os segmentos da sociedade iraniana se unem em tempos de perigo externo", disse Al-Desouky, acrescentando que até mesmo os grupos de oposição tendem a apoiar o governo quando a soberania nacional é percebida como estando sob ataque.
Essa coesão interna, combinada com a resiliência institucional do Irã, tornou a perspectiva de um "colapso do regime" cada vez mais improvável.
Conforme a guerra se prolonga, ela envia ondas de choque por todo o cenário geopolítico e econômico, elevando os preços do petróleo, abalando os mercados internacionais e até mesmo se voltando contra os próprios Estados Unidos.

Preços da gasolina são exibidos em um posto de gasolina em Londres, Reino Unido, em 26 de março de 2026. Os ataques lançados pelos Estados Unidos e Israel contra o Irã desencadearam um aumento acentuado nos preços globais do petróleo. (Xinhua/Li Ying)
Observadores alertam que se Washington continua avançando cegamente, ignorando a realidade no terreno, o conflito pode se transformar em uma guerra de desgaste prolongada, cobrando um preço alto de todos os lados envolvidos.
É hora de os Estados Unidos encararem a realidade de que é improvável que a guerra alcance seus objetivos, disse El-Nour, alertando que, sem uma solução política abrangente, as operações militares no Irã podem colocar Washington em "um conflito custoso e sem fim".


