* Analistas sugerem que o fortalecimento militar contínuo reflete a dificuldade que Washington enfrenta para atingir seus objetivos iniciais.
* À medida que os Estados Unidos e Israel continuam seus ataques contra o Irã, os dois aliados revelam cada vez mais suas divergências sobre a condução da guerra e seus objetivos, apesar da demonstração verbal de unidade.
* Embora os Estados Unidos possam ter dificuldades para atingir seus objetivos estratégicos de curto prazo, especialistas dizem que a política interna, as perturbações do mercado e o crescente sentimento anti-guerra limitarão sua disposição de persistir, colocando Washington em um dilema estratégico.
* Com a aproximação das eleições de meio de mandato nos EUA em novembro, analistas dizem que a opinião pública interna poderá desempenhar um papel decisivo sobre se Trump poderá continuar a guerra.
Cairo, 22 mar (Xinhua) -- Os Estados Unidos estão enviando mais tropas e navios de guerra para o Oriente Médio, mesmo com o presidente Donald Trump sugerindo uma possível "redução" nos ataques contra o Irã.
Analistas dizem que o contínuo reforço militar destaca a dificuldade que Washington enfrenta na guerra contra o Irã. Com as crescentes divergências entre os Estados Unidos e seus aliados, e a disseminação do sentimento anti-guerra alimentado pelos desdobramentos do conflito, Washington está trilhando um caminho cada vez mais estreito para continuar a guerra.
OBJETIVOS INDEFINIDOS
Reportagens da mídia na sexta-feira sugeriram que cerca de 2.500 fuzileiros navais americanos adicionais estão sendo enviados para o Oriente Médio, juntamente com navios de guerra extras, incluindo o Grupo Anfíbio de Prontidão USS Boxer e a 11ª Unidade Expedicionária de Fuzileiros Navais.
Isso se soma a um envio anterior de 2.500 fuzileiros navais da 31ª Unidade Expedicionária de Fuzileiros Navais, que se deslocaram do Japão para a região a bordo do USS Tripoli.
O Pentágono também teria preparado planos operacionais detalhados para potenciais missões terrestres no Irã. Uma reportagem da agência britânica de notícias Reuters publicada na quinta-feira disse que Washington está considerando o envio de milhares de soldados americanos para garantir a segurança do Estreito de Ormuz e, potencialmente, atacar a Ilha de Kharg, responsável por cerca de 90% das exportações de petróleo do Irã.

O Capitólio dos EUA é visto em Washington D.C., Estados Unidos, em 30 de setembro de 2025. (Xinhua/Hu Yousong)
Analistas sugerem que o contínuo reforço militar reflete a dificuldade que Washington enfrenta para alcançar seus objetivos iniciais. A missão dos EUA, segundo eles, agora parece estar focada em garantir a segurança do Estreito de Ormuz e, potencialmente, ocupar ou bloquear a Ilha de Kharg, o que exigiria uma presença terrestre constante e representaria riscos significativos.
A revista bimestral americana de relações internacionais The National Interest disse na quinta-feira que a presença militar dos EUA na região se tornou um passivo estratégico, com os ataques do Irã a bases americanas resultando na morte de vários militares dos EUA, danos a pelo menos 17 instalações americanas e prejuízos a equipamentos avaliados em bilhões de dólares americanos.
"O recente aumento da presença militar dos EUA reflete uma combinação de dissuasão e controle de danos, e não um sucesso estratégico. Washington está tentando reafirmar o controle sobre um cenário regional em rápida evolução", disse à Xinhua, Akram Atallah, analista político palestino baseado em Gaza.
Washington "está sendo arrastada cada vez mais para o conflito devido à crescente abrangência do confronto e à incapacidade de seus aliados de alterar decisivamente o equilíbrio de poder no terreno", observou Atallah.
A "expectativa de Washington por uma guerra rápida fracassou", comentou Mohammed Zakaria Aboudahab, professor de direito público e ciência política da Universidade Mohammed V, no Marrocos.
Entretanto, seu plano de "escolta da coalizão" para o Estreito de Ormuz não encontrou adesão, refletindo a tentativa dos aliados dos EUA de buscar soluções alternativas com base em seus próprios interesses econômicos e as limitações da capacidade de mobilização dos EUA no cenário internacional, disse ele à Xinhua.
DIVERGÊNCIAS CRESCENTES
À medida que os Estados Unidos e Israel continuam seus ataques contra o Irã, os dois aliados revelam cada vez mais suas divergências sobre a condução da guerra e seus objetivos, apesar da demonstração verbal de unidade.

Pessoas participam de cerimônia fúnebre em Teerã, Irã, em 18 de março de 2026. Muitas pessoas compareceram a uma cerimônia fúnebre na capital iraniana, Teerã, na quarta-feira, em homenagem aos tripulantes de uma fragata afundada pelos Estados Unidos, e também para um dos principais oficiais de segurança do país e um comandante militar de alta patente mortos em ataques israelenses. (Xinhua/Shadati)
Uma fissura surgiu quando Israel atacou uma instalação de energia iraniana no início da semana. Na quarta-feira, Israel atacou o campo de gás natural offshore de South Pars, no Golfo Pérsico, território iraniano compartilhado com o Catar.
Após o ataque, Trump disse que "os Estados Unidos não sabiam sobre esse ataque específico", acrescentando que Israel não realizaria mais ataques contra o campo de gás natural.
Em resposta às declarações de Trump, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, disse que Israel não informou os Estados Unidos antes do ataque.
Isso representou o primeiro sinal público de potenciais divergências entre os Estados Unidos e Israel sobre a guerra com o Irã, depois que ambos os países se esforçaram para demonstrar total coordenação e total transparência sobre o cronograma, as causas e as operações em andamento do conflito, segundo um artigo publicado pelo jornal israelense Haaretz.
Citando altos funcionários americanos, o artigo observou que os dois países têm seus próprios objetivos independentes na guerra em curso. A diretora da Inteligência Nacional dos EUA, Tulsi Gabbard, também declarou em uma audiência do Comitê de Inteligência da Câmara que "os objetivos definidos pelo presidente são diferentes dos objetivos definidos pelo governo israelense".
Analistas e especialistas regionais dizem que as divergências refletem uma crescente disparidade nas prioridades, na tolerância ao risco e nos objetivos de longo prazo entre os dois países.
Atallah, analista político palestino, disse que Israel tende a favorecer uma abordagem mais agressiva, incluindo a possibilidade de atacar a infraestrutura crítica do Irã, para enfraquecer sua influência regional e suas capacidades de dissuasão, enquanto os Estados Unidos são mais cautelosos.
O analista explicou que atacar as instalações de energia do Irã poderia desencadear uma guerra regional mais ampla, atrapalhar os mercados globais de energia e ameaçar diretamente os interesses dos EUA na região. No entanto, Washington está tentando calibrar a escalada, mantendo a pressão sem ultrapassar os limites que poderiam levar a um conflito incontrolável, acrescentou ele.

Mulher em frente a prédios destruídos em Teerã, Irã, 12 de março de 2026. (Xinhua/Shadati)
Outras diferenças são prováveis em relação à escala e duração das operações militares, disse Jumaa Mohammed, professor de ciência política da Universidade de Tikrit, no Iraque. "Os Estados Unidos geralmente buscam evitar uma guerra regional mais ampla que atrapalhe os mercados e alianças globais, enquanto Israel pode priorizar a degradação estratégica a longo prazo das capacidades do Irã".
MARGEM MAIS ESTREITA
Embora os Estados Unidos possam ter dificuldades para atingir seus objetivos estratégicos de curto prazo, especialistas dizem que a política interna, as perturbações do mercado e o crescente sentimento anti-guerra limitarão sua disposição de persistir, deixando Washington em um dilema estratégico.
Após os Estados Unidos e Israel lançarem ataques contra o Irã, as ondas de choque logo atingiram os mercados globais de energia e finanças. Os preços do petróleo dispararam para quase 120 dólares o barril, os custos de transporte marítimo em todo o mundo aumentaram exponencialmente e os americanos comuns também sentiram o impacto no dia a dia.
Uma pesquisa do canal americano de televisão CNN sobre a opinião dos americanos a respeito dos ataques mostrou que 59% desaprovavam a guerra. Pesquisas subsequentes, incluindo uma pesquisa da Reuters/Ipsos, também confirmaram que a maioria dos americanos era contra o conflito.
Com a proximidade das eleições de meio de mandato nos EUA, em novembro, analistas dizem que a opinião pública interna poderá desempenhar um papel decisivo na decisão de Trump de continuar ou não com a guerra.
"Nos Estados Unidos, as considerações eleitorais influenciarão o quanto o governo estará disposto a se envolver militarmente", disse Oytun Orhan, pesquisador sênior do Centro de Estudos do Oriente Médio, com sede em Ancara. "Um conflito prolongado, com custos econômicos crescentes, poderia reduzir o apoio interno".

Pessoas protestam contra o ataque militar dos EUA ao Irã em Nova York, Estados Unidos, em 2 de março de 2026. (Foto de Zack Zhang/Xinhua)
A comunidade internacional, incluindo alguns aliados dos EUA, também manifestou objeções a uma guerra prolongada e crescente na região.
Em meio às interrupções nos mercados globais de energia e nas rotas marítimas, que alimentam a instabilidade regional prolongada, os aliados dos EUA, particularmente na Europa e no Golfo, provavelmente pressionarão pela desescalada, exercendo ainda mais pressão sobre os Estados Unidos, disse Mokhtar Ghobashy, secretário-geral do Centro El-Faraby de Estudos Políticos, com sede no Cairo.
"Considerando todas essas variáveis, fica evidente que os Estados Unidos estão operando dentro de uma margem estreita", disse Atallah.
"Nesse contexto, alcançar objetivos claros e decisivos será difícil", enfatizou ele. "O resultado mais provável não é uma vitória definitiva, mas uma contenção controlada do conflito, com escaladas periódicas e entendimentos temporários, em vez de uma resolução abrangente".
(Repórter de vídeo: Yu Aicen; edição de vídeo: Wu You, Zhao Xiaoqing e Hong Yan)











